O segundo disco de Eleonora Falcone

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Jesuino André · João Pessoa, PB
28/8/2008 · 40 · 1
 

“Eu tenho um pedaço de sol que guardo comigo desde menina”

Na verdade são dez pedaços e felizmente não guardou só para ela. É um trabalho interessante em vários quadros: em particular, por me remeter a lembrança de uma fabulosa coleção de discos das minhas tias na casa de minha saudosa avó. Por lá perfilava Gal Costa, Bethânia, Elis, Clara Nunes, Maysa e tantas outras grandes cantoras apreciadas por elas. Fui testemunha disso. E aqui, inevitavelmente, me reporto em comparação.

Entre essas e outras abordagens, vou destacar o fato que a paraibana Eleonora Falcone não é apenas uma boa interprete – as citadas acima refletem boas influências sobre a artista – mas também confirma ser uma compositora de mão-cheia; além do fato, nessa obra ela teve uma visão aguçada para juntar convidados e aplicar arranjos preciosos.

O seu segundo disco de título longo é confessional e conceitual. Ela se mira numa memória de forte cumplicidade com a cidade, com o Mar e com a água. É de um simbolismo marcante. Tudo é sentido, feito e exposto de forma clara, passional e definitiva. Plenamente perceptível em todas as faixas do disco. Sua música exala sinceridade e emoção.

Em geral, quando se fala em música popular brasileira é, em sua maioria, um rol de baboseiras e prepotência intelectual; resquicios conservadores de alguns das gerações passadas que ousaram travar a fluidez da arte. Vê-se em espelhos modernos que ninguém é de ninguém ou todos somos de todos - essa é a tendência e uma direção natural. A arte tem linguagem fácil, também pop, e ao mesmo tempo elegante e séria. Eleonora se molda perfeitamente aos novos tempos sem estacionar suas convicções artisticas em laços passados. Por sinal, esse é o seu segundo disco depois de um hiato de sete anos sem lançar nada.

Outro aspecto relevante e revelador é a sinergia para congregar músicos e compositores de estilos diversos, ora atentando para o tradicionalismo regional, ora adentrando no mundo pop e rock, com uma desenvoltura que impressiona. Eleonora tem livre trânsito e boa comunicação nessas searas.

Sem exagero, pode-se colocar Eleonora no patamar alto da nova música popular modernizada e abrangente, em especial relacionada às novidades femininas do cenário nacional.

Falei mais da qualidade artisticas da cantora. Não posso esquecer o disco que tem uma produção musical de Fernando Morello, que foi o parcerio ideal na feitura dessa obra prima.

"Eu tenho um pedaço de sol..." é de uma felicidade sublime! A voz anasalada e dengosa de Eleonora passeia brincando em estilos diversos, mas seguindo um padrão comum nas dez faixas do disco. Por exemplo, a canção de abertura "Carta de Amor" é um fado-pop em parceria com o saudoso poeta Lucio Lins; "Nome na areia" é um xote-samba-rock que faria Jorge Ben gargalhar de alegria. Ela modula bem a voz na mezzo-experimental "Passará" dos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró, lembrando em estilo com Gal Costa. Aliás, falando na diva baiana tenho que focar essa mesma feição já na segunda faixa "Muxarabi", talvez a que melhor defina completamente esse trabalho como compositora e cantora. E ainda fez do lamento malemolente de "Ô Serena Serená" da cirandeira Odete de Pilar e o transformou numa vigorosa canção rock.

Eis um disco gracioso ao longo do tempo; até o típico sotaque fez charme. Em todo momento de audição podemos garimpar detalhes escondidos propositalmente. Tudo isso em menos de quarenta minutos. Perfeito!

Contei pouco, mas o melhor mesmo é voce apreciar esse belo trabalho. Sem muita conversa...

Elenora Falcone

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resenha publicada originalmente no site Ladonorte

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Cintia Thome
 

Esta cantora é perfeita, voz nacional, feminina mesmo...recebi de um amigo muiscas dela. Sucesso neste 2° CD.

Cintia Thome · São Paulo, SP 29/8/2008 22:57
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