O cinema norte americano ficou morno depois dos atentados de 11/09. Todo mundo é bonzinho e luta em prol da democracia. O maniqueísmo infelizemente voltou a imperar e isso enche o saco.
Felizmente ainda existe vida inteligente em Holywood que não se verga ao peso de uma postura politicamente correta e esteticamente ultrapassada. Um bom exemplo é "Obrigado por fumar", dirigido por Jason Reitman.
O filme é bom porque respeita a inteligência do espectador ao mostrar as engrenagens da indústria da manipulação pública e o jogo escancarado do loby profissional nos States. O personagem principal é o lobista Nick Naylor, um sujeito que dá nó até em pingo dágua. Afinal, alguém tem que fazer esse trabalho. Até mesmo um assassino de crianças merece uma defesa competente, pelo menos é o que garante a Constituição - essa é uma das lições que ele tenta ensinar ao filho - e se você consegue vender cigarros, bem, então você basicamente vai conseguir vender qualquer coisa. O cara é um ás da retórica. Enche linguiça, inventa dados, faz jogo duplo e dá estocadas certeiras nos seus adversários. Mas, principalmente, transmite calma e confiança. Isso é o principal. No começo do filme, quando ele se apresenta, diz algo mais ou menos assim: "Sabe aquele cara que pega todas as mulheres? Pois é, sou eu." Pausa. "Dopado de crack."
O argumento de que todos merecem uma defesa justa é, em si, óbvio, plausível e coerente. Mesmo que seja uma indústria que mata milhões por ano? Mesmo assim. A lei vale para todos. Uma das diversões de Nick Nailor e dos seus amigos do "Esquadrão da morte" - lobistas dos setores bélico e alcólico - é comprar dados e disputar para ver para qual setor mata mais gente por ano.
Qualquer ponto de vista, por mais sórdido e imundo que seja, pode ser defendido com competência. O que está em jogo, no final, não é a moralidade da questão, mas a habilidade dos argumentadores. Por isso os lobistas do tabaco são bem pagos. Para te dizer que isso de cancer no pulmão, efisema e tuberculose são exageros dos cristãos reprimidos. Que fumar um cigarrinho aqui outro ali não faz mal - e se fizer, e daí? Cada um tem o direito de exercer sua liberdade o jeito que quiser, desde que não perturbe o vizinho - pelo menos era essa a definição de democracia segundo minha professora da quarta série.
Por essas e por outras vale a pena conferir "Obrigado por fumar." Os fumantes vão sair do cinema com um sorrisinho indisfarçável no canto da boca. Afinal, todo mundo merece uma defesa justa.
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