Música pode promover a inclusão social? Para a Missão Criança Aracaju, está mais do que comprovado que sim. Através das oficinas musicais, o projeto Recriando Caminhos, desenvolvido pela ONG, com o financiamento da Petrobras, trabalha o aprendizado de crianças e adolescentes através de noções de ritmo e musicalidade.
“A Música é companheira da Educação”, foi assim que o educador da oficina de Flauta, Cláudio Pinto, sintetizou o trabalho que vem desenvolvendo há quatro anos dentro do Recriando no Instituto Creche Menino Jesus. O educador afirma com a certeza de quem presencia, aos poucos, a evolução dos seus alunos não apenas musicalmente, mas também enquanto indivíduos inseridos em uma sociedade. “Eles melhoraram da água pro vinho tanto aqui como na escola formal, porque a música trabalha também o intelecto e o lado emocional do ser humano”, explicou.
Inicialmente, a oficina era apenas de Flauta Doce, mas o avanço na aprendizagem possibilitou que evoluísse para outros tipos como flauta tenor, contralto, transversal, barroca, entre outras. “Eles não tinham noção de música alguma, mas depois se revelaram”, contou Cláudio, que no início assustou-se com o desafio que tinha adiante, mas que hoje, com as apresentações esporádicas, percebe também no retorno do público que o trabalho social do projeto tem surtido efeito.
Percussão - É quase unanimidade: os meninos e meninas da oficina de percussão do Recriando Caminhos, no Centro de Referência Risoleta Neves, querem seguir a carreira musical. Este desejo reflete-se no empenho em aprender as técnicas de percussão com o educador Gladston Santos. Através do seu trabalho, ele já conseguiu que os meninos ficassem conhecidos com o grupo Lateiros Curupira.
Só este ano, o grupo, formado por 20 adolescentes da oficina, já realizou quatro grandes apresentações: Projeto Verão, em janeiro; Carnaju, em fevereiro; Rua da Cultura, em março; e na visita do ministro da Cultura Gilberto Gil à cidade, em abril. “Quando eu entrei já descobri que era isso que eu queria”, disse Ítalo Gomes, de 14 anos, que está na oficina há mais de um ano, e teve a oportunidade de se apresentar em todos os shows.
“O que eu mais gostei foi o do Projeto Verão, tinha muito público, muita energia, nunca tinha visto isso”, disse o menino. O seu colega Rafael Gomes, de 11 anos, também gostou mais da apresentação que aconteceu em janeiro. “A gente tocou e abriu o show da banda Olodum, que ouviu nossas músicas”, contou.
Para crianças que possuem uma realidade de vida tão problemática, momentos como estes parecem um sonho. Ter a possibilidade de ser o centro de atenção e receber o reconhecimento pelo seu talento é um estímulo para acreditar que o futuro pode ser bem melhor que o presente, basta se dedicar, estudar e aproveitar a oportunidade de utilizar a arte como instrumento de inclusão social.
Com aulas às terças e quintas-feiras, pela manhã e pela tarde, a oficina de percussão já acontece há três anos dentro do Recriando Caminhos, e conta com aproximadamente 50 jovens do projeto. Tanto Gladston, conhecido como Ton toy, como Cláudio, do grupo de flauta, cresceram com a música. Desde cedo participaram de bandas, cada um em seu estilo, e com o início da oficina tiveram a oportunidade de trabalhar em um projeto social. “Nunca tinha feito um trabalho assim, e foi uma coisa que me deixou surpreso comigo mesmo”, conta Ton toy.
Em ambas as oficinas, não há evasão de alunos. “O Lateiros Curupira está sendo uma referência para os meninos que ainda não estão prontos para as apresentações. Todos querem participar e por isso se empenham durante as aulas para entrarem no grupo. Sempre digo que todos podem participar, e isso eleva a auto-estima deles”, conta o educador.
Segundo o educador Cláudio, a sua relação com os alunos contribui para que eles se dediquem à flauta. “Temos uma relação tão boa que às vezes assumo papel de pai. Acredito que a minha atuação não é apenas o de professor de música, e por isso procuro sempre utilizar a conversa sobre a oficina e ouvir os problemas deles”, disse.
Mergulho cultural – Mais do que notas musicais, muitas palavras são trocadas durante as oficinas. Sob o princípio de estimular a identidade regional dos alunos, os educadores conversam sobre a cultura local, explicando cada ritmo ou música, para depois mergulharem nas canções de nosso estado.
Quem já assistiu a um show dos Lateiros Curupira sabe que durante quase uma hora, o grupo passeia sobre os ritmos folclóricos sergipanos e, para isso, é preciso que os meninos do grupo conheçam sobre a música regional. “Eu sempre passo que eles devem procurar a identidade cultural de seu povo. Todo tempo eu conto um pouco da história dos ritmos para que eles possam fazer disso uma referência musical”.
Apoio da família – A mudança no comportamento dos alunos das oficinas musicais, seja na escola ou em casa, é notável, que uma das conseqüências é o apoio que os pais dão ao aprendizado dos seus filhos dentro do Recriando Caminhos. “Minha mãe não deixa eu faltar uma aula, diz que eu tenho que me dedicar, mas eu também não gosto de faltar”, disse Ítalo Gomes.
Bruno Dias, 12 anos, não descansou até fazer parte da oficina. “Eu fiquei pedindo à coordenadora (do Recriando) até que ela me colocou, daí eu não saí mais”. O menino evolui rapidamente e já faz parte dos Lateiros Curupira. “Emoção e alegria é o que eu sinto em cada show”, disse Bruno, e bastava ver no olhar solidário dos colegas que ele expressava o sentimento de todo o grupo.
Além da música – Os alunos das oficinas musicais não ficam apenas nas aulas de flauta e percussão, mas participam também da Orientação de Estudos e do Baú de Leitura, dentro do Recriando Caminhos. Os educadores trabalham juntos, sempre procurando saber como está sendo desenvolvido o programa de cada oficina. Além disso, os coordenadores do projeto em cada instituição mantêm um diálogo constante com os professores da escola formal para mensurar o resultado da participação dos meninos nas oficinas.
“Eu sempre digo aa eles que a música pode nos levar para muitos lugares, conquistar espaços, como o meu próprio exemplo de vida. E eu sei que eles estão aprendendo muito”, afirmou Ton Toy. Já para o “curupira” Rafael Nunes, que já fez carrego em feiras, fazer parte do grupo já é uma grande conquista. “Eu digo para meus amigos que não estão no projeto que eles deveriam estar aqui dentro porque vale mais a pena que ficar na rua”. É a música regendo a vida com notas de cidadania.
Além da Petrobras, o Recriando Caminhos conta com a parceria do Unicef, Unesco/ Criança Esperança, Prefeitura de Aracaju e Yázigi Internexus. Saiba mais sobre o projeto em:
www.missaocriancaaracaju.org.br
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