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Os senhores dos anéis, dos brincos, dos colares

Foto: Eduardo Neves
Jóias feitas com mosaicos de Opala
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Natacha Maranhão · Teresina, PI
14/7/2007 · 210 · 1
 

Sabe aquela sensação boa de ver gente simples trabalhando honestamente e tendo seu trabalho reconhecido e valorizado onde quer que vá? Pois é isso que se sente ao ver o trabalho dos garimpeiros, joalheiros e lapidários de Pedro II, pequena cidade do interior do Piauí, com 40 mil habitantes e muitas minas de opala, pedra semi-preciosa que tem grande valor comercial e encanta joalheiros do mundo todo.

A opala é um tipo de quartzo e seu grande diferencial é que ela reflete as cores do arco-íris, o que possibilita a criação de jóias ousadas e lindas.

Antes de virar “meio de vida” para o povo de Pedro II, as minas de opala foram exploradas sem nenhum critério por estrangeiros – australianos, afirmam os moradores da cidade – que levavam as pedras brutas para suas terras natais e vendiam lapidadas para o Brasil. Hoje se sabe que há grandes minas de opala também na Austrália, mas não há como saber ao certo se as pedras vendidas pelos garimpeiros da terra dos cangurus no século passado eram de lá ou bem daqui do Piauí.


Uma mão que segura a outra, que segura a outra, que segura a outra


A família do joalheiro Narcélio Araújo de Sousa vive em função da opala. Ele e o irmão Juscelino – que é presidente da Associação de Joalheiros e Lapidários de Pedro II – são donos de joalherias e trabalham diretamente com os garimpeiros e também com os lapidários. A mulher de Juscelino, Áurea, é a responsável pelo design de brincos, pulseiras, anéis, broches e colares com opala, a mulher de Narcélio atende a clientela com gentileza em uma das lojas e é mesmo difícil sair sem comprar.

Narcélio sabe de cor a história da pedra que mudou sua vida e está mudando a história de sua cidade. “A opala foi descoberta em Pedro II em 1935 e foi um choque na época, porque não se conhecia opala de cor, uma pedra que reflete todas as cores. As minas começaram a ser exploradas comercialmente por garimpeiros australianos na década de 50 e muitos deles ficaram ricos com isso”, conta.

A mina do Boi Morto é a maior da região, e foi ela o alvo da maior exploração. “Era tanta opala que tinha lá no começo que as pessoas iam garimpando e os ‘rejeitos’ iam parar no rio, tinha garimpeiros que davam sorte e pegavam boas pedras no leito do Rio dos Matos, até hoje tem gente que vive disso”, revela Narcélio.

E mal ele fecha a boca, Maria de Lourdes de Sousa chega à loja, levando nas mãos um vidrinho pequeno cheio de pequenos fragmentos de opala. Foi tentar vender o que tinha conseguido apanhar no leito do rio. “Eu vou pra lá para tentar a sorte e muitas vezes dá para conseguir coisa boa, muita gente faz isso aqui em Pedro II. Acho que mais de cinqüenta pessoas”, revela a jovem de 24 anos, “pescadora” de opala desde os 12. Os pedacinhos de opala levados por Lourdes e pelos outros garimpeiros do rio são lapidados e usados para fazer mosaicos.

Adonias Carneiro, de 23 anos, fala sobre essa etapa do trabalho: “A gente pega os pedacinhos, faz uma seleção, depois eles são lapidados e aí começa a montagem do mosaico. Depois de montado, ele é novamente lapidado, polido, incrustado na jóia e está pronto para ser vendido”, explica. Ele trabalha com opalas há dois anos e acredita que a pedra vai mudar os rumos de Pedro II. “É uma pedra muito bonita, eu sempre admirei. E agora, vendo esse esforço conjunto do povo daqui e do Sebrae, acredito que a opala vai revelar Pedro II para o mundo”.

No que depender do designer de jóias Pedro Brando, queridinho de astros de Hollywood e criador das alianças de casamento de Nicole Kidman & Keith Urban, a gema piauiense vai mesmo embelezar as vitrines de grandes joalherias do Brasil e do exterior. Brando foi convidado pelo Sebrae para conhecer Pedro II e suas pedras e dar uma consultoria para os joalheiros e lapidários da cidade. Saiu de lá encantado com o que viu (e deixou muita gente achando que o Johnny Depp tinha passado pelo Festival de Inverno este ano, hehehe).

Em entrevista à imprensa que foi cobrir o Festival, Pedro Brando disse que ficou impressionado com a beleza da opala. “Creio que dá para fazer um belo trabalho valorizando a simplicidade nas peças”, comentou.

A designer pedrossegundense Áurea Brandão, autodidata como Brando, diz que se inspira nas pedras para criar as jóias que vende em sua loja. “Eu vejo a pedra e penso numa jóia para ela”, entrega.

A peso de ouro

Pedro II tem cerca de vinte lojas especializadas na venda de opalas e jóias feitas com a pedra, considerada a rainha das gemas. Essas lojas geram centenas de empregos diretos e indiretos, incluindo vendedores, garimpeiros (também os do leito do rio), lapidadores e designers.

Áurea Brandão afirma que a opala tem um valor cada vez maior no mercado mundial de jóias e gemas. “Ela chega a custar seis vezes o valor do grama de ouro!”, revela a designer.

Os jovens da cidade aprendem cedo a valorizar o que sua terra tem de mais precioso e começam cedo a fazer parte da cadeia produtiva. Francisco Xavier, de 16 anos, trabalha com opala há um ano e meio, como aprendiz. “Não é um trabalho fácil, a pessoa tem que ter um dom, tem que ter jeito para a coisa. Se errar a peça, não tem como voltar atrás, por isso é preciso cuidado e atenção com todos os detalhes”, ensina o lapidário.

Fábio Diego Costa tem a mesma idade e se diz apaixonado pela arte de criar jóias. “Estou começando agora, mas é um trabalho bom de fazer, e é bom ver as pessoas interessadas nas jóias que a gente faz aqui”, diz, enquanto lixa uma peça de prata para em seguida colocar nela um mosaico de opala em formato de meia lua que logo logo vira pingente e vai enfeitar um pescocinho fashion por aí.



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linney
 

Muito interessante a reportagem.
As fotos bem ilustrativas.
Parabéns!

linney · Canoas, RS 14/7/2007 19:19
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Jóias produzidas com opala em Pedro II zoom
Jóias produzidas com opala em Pedro II
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