Os tamancos voltam a bater

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Adriane · Curitiba, PR
6/3/2006 · 109 · 0
 

O fandango é uma manifestação popular tida como genuinamente paranaense, mais precisamente do litoral. Sua origem na verdade é nebulosa, mas conta-se que veio de Portugal, com influências espanholas e se uniu aqui a outros rituais e crenças, tanto do Paraná, quanto de Santa Catarina e São Paulo. É uma dança sapateada com tamancos, que funcionam como percussão marcando o ritmo, que vem embalado nas cantorias. Sobreviveu no mundo da cultura oral e andava fraquinha das pernas, com pouca gente interessada em aprender a tocar e, principalmente, em fazer a rabeca, seu principal instrumento.

Estava ficando só na memória dos mais velhos e os jovens achavam que era algo cafona. Mas agora isso está mudando, pois nota-se, nos últimos cinco anos um evidente novo interesse pela manifestação, expresso tanto no crescente número de pesquisas acadêmicas, quando no uso de elementos sonoros do seu mundo na música popular.

Em Paranaguá, cidade portuária a uma hora de Curitiba, se concentram os fandangueiros, especialmente nas ilhas das redondezas, como Guaraqueçaba. Lá estão vários grupos, como a família Pereira, os mestres Romão e Eugênio - nomes, entre outros, sempre citados quando o tema entra em cena.

Há um ano surgiu a Associação Manticuera, entidade que quer organizar o circuito de manifestações culturais da região. "É um jeito de dar respaldo jurídico e conseguir patrocínios para atividades que ajudem a profissionalizar, de certa maneira, e a preservar, ensinando as crianças. Temos neste instante 350 que batem tamanco, meninos que também tocam viola", diz o presidente da associação Eloir Paulo Ribeiro de Jesus, comentando que para aprender a tocar e fazer a rabeca é mais complicado. "Mas agora que ganhamos apoio do MinC para o projeto Rabecando: A preservação Através do Repasse, vamos ensinar a fazer instrumento e a tocar viola, rabeca, adufo e caixa do divino", conta ele, que tem doces lembranças da avó cantando músicas de fandango. "Nunca tinha visto um baile. Mas lembro dela cantando e dançando com a gente."

Ele explica que o fandango sobreviveu em lugares de difícil acesso pois foi sendo empurrado para longe pela exploração imobiliária. Por isso é importante se criar uma didática para passar o conhecimento adiante. A gente tem que mostrar que não é feio", observa ele, que desde 2000 passou a se interessar mais seriamente pelo fandango e até instalou uma residência na ilha de Valadares, o principal reduto dos batedores de tamanco. Quando não está a serviço da Associação, Jesus é um restaurador de móveis antigos. "Me mudei para ficar mais perto do pessoal do fandango", diz.

Ele concorda que está se vivendo um momento muito especial para o fandango. "Ontem mesmo a gente tava com um casal de canadenses que está colhendo histórias de crianças mundo afora e fotografou as crianças batendo fandango", conta. Mas, diz, há uns dez anos teve um outro momento de se tentar resgatá-lo. Foi quando veio à tona Mestre Romão, por exemplo. "Só que trouxeram um designer espanhol para fazer as roupas e meio que fugiu do que é de verdade. Ele faz um fandango para o palco, nós fazemos o fandango como é feito em casa", diz ele, que toca com um grupo de veteranos, o Pé de Ouro. "É fandango tradicional", diferencia.

Experiências como o do Grupo Fato, que leva elementos do fandango para sua música, agradam a Jesus. "Eles divulgam, como foi com o maracatu e o mangue beat. O Chico Science e sua turma levaram o maracatu para o mundo. Nós temos um cantor de MPB, o Guilherme Costa, que coloca muito fandango na música dele. Tinha até uma batida do tamanco e ele convidou a gente para um festival em Maringá", comenta ele, que participou também do projeto Sonora Brasil, acompanhando o Mestre Eugênio por 52 cidades em 15 Estados.

Oswaldo Rios, do grupo Terra Sonora (que gravou um disco com a família Pereira) é um que anda envolvido com pesquisas sobre o Fandango. Na empreitada mais recente participa, junto com o parceiro, Rogério Gulin, do projeto Museu Vivo do Fandango, iniciativa da associação Cultural Caburé, no Rio de Janeiro. Trata-se de um livro e dois CDs sobre os fandangueiros de Guaraqueçaba/Paranaguá e Morretes, no Paraná e Cananéias e Iguape, em São Paulo. Para tal trabalho, que deve ser finalizado até abril, se aprofundou mais uma vez no mundo dos tamancos batidos. "Com base no que vi e ouvi não acho que existe uma diferenciação do fandango que é feito hoje. É que muito antigamente, o fandango era a festa que alguém oferecia para as pessoas que o ajudavam na colheita, por exemplo. O pagamento, digamos assim, era o baile de fandango. Hoje em dia não tem mais isso", explica, sobre a manifestação que acontecia , primeiro, nos chamados mutirões e, depois, no entrudo, uma festa precursora do carnaval. "O mutirão não era com grupos formados como é hoje, nisso é diferente e acho que é isso que o Eloir quer dizer. Era uma jam session, eles pegavam suas violas e rabecas e iam tocar", completa Rios.

Para ele, o que o poder público tem feito ainda é muito pontual e pouco. Mas, os grupos de pesquisa estão sim ajudando a levar adiante essa existência que, até agora, era eminentemente oral. "Mas em São Paulo, a gente não imagina, é pior ainda", conta o músico-pesquisador, para quem o fandango tinha que estar nos currículos escolares desses estados.

O Paraná também passou a integrar recentemente uma rede caiçara de cultura, iniciativa que partiu de pesquisadores do Rio de Janeiro, cuja intenção é criar um circuito de informações e ações não só sobre o fandango mas sobre todas as manifestações deste universo. Importante também é o apoio recebido recentemente por outra Associação, a de Fandangueiros de Guaraqueçaba, através do projeto Pontos de Cultura, do Ministério da Cultura. Através deste projeto o MinC repassa diretamente, sem uso de leis de incentivo, verbas para manter projetos de cunho cultural. Ele integra o Programa Cultura Viva e agrega agentes culturais cujo objetivo é articular e impulsionar um conjunto de ações em suas comunidades, e destas entre si.

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