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Ouvindo O (3º) Mundo

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Bernardo Mortimer - www.sobremusica.com.br · Rio de Janeiro, RJ
14/6/2006 · 0 · 1
 

Spike Lee é desses grandes diretores de cinema, que a gente costuma chamar de autor. As minorias étnicas são sua preocupação artística maior, mas estão longe de serem a nota só de uma samba por ele assinado ao longo de uma carreira que passa por ‘Faça a Coisa Certa’, ‘Malcolm X’, o clipe de ‘They Don’t Really Care About Us’, ‘O Verão de Sam’ ou – meu preferido – ‘A Hora do Show’.
O humor é forte e ácido, de desmanchar máscaras e sorrisos amarelos. E a música é sempre excelente, o que pode querer dizer uma incursão de Bruce Springsteen em ‘A Última Noite’, o clássico de Marley ‘Redemption Song’ na voz de Stevie Wonder em ‘Todos a Bordo’, ou a sensacional constelação de Young Lions interpretando a si mesmos nas noites jazzísticas de ‘Mais e Melhores Blues’. No entanto, quem está quase sempre lá, pelo menos de um tempo pra cá, é o trompetista e arranjador Terence Blanchard, também um young lion da galera de Wynton Marsalis. Blanchard assina mais de uma dúzia de trilhas para Spike Lee, o que inevitavelmente torna-se uma atração a mais para escolher uma boa sala de cinema na hora de ir assistir a qualquer coisa do mais ilustre torcedor do New York Knicks.
Em ‘O Plano Perfeito’ está tudo lá. Planos que desconstroem imagens batidas e edição que reafirma a complexidade étnica de uma cidade grande, no caso, sobrevivente de um trauma sério. E flashbacks narrativos, e falas lidas para a câmara, e música de Blanchard. Mas Nova Iorque não é mais uma cidade de italianos, judeus, negros e hispânicos, só. E nunca foi de americanos. O que há de incrível lá, e portanto no mundo globalizado, e portanto no filme, é que os elementos novos se agregam com aparente facilidade, só mudando temperos. Claro, quem acredita nisso nunca vai saber responder ao que acontece na vida real. Problemas, conflitos, contradições e terremotos (a realidade nunca consegue se acomodar sobre uma placa tectônica).

E é com uma câmera de cima, seguindo uma van de uma equipe de pintores pela cidade de Lee, que o filme começa. Ou melhor, é com ‘Chaiyya Chaiyya’ que o filme começa.
Uma voz feminina canta duas ou três frases em tom de oração a um deus oriental, com um fundo de cítaras em acordes de tensão e um reverb, hmmm, espiritual, vai (dá uma força aí). Uma batidinha eletrônica prepara para a entrada da voz masculina, que vai repetir em uma língua que pode parecer ser qualquer coisa: árabe, norte-africana, albanesa ou indiana. Chayyia chayya, chayyiá chayyiá. Chayyia chayya chayyia, chayyiá chayyiá.
Mais cítaras, algo parecido com uma queixada, assobios, percussões de Bombaim, a voz da mulher entoa o mantra divino com o homem e todos os sons orgânicos e umas batidas meio grime que misturam tudo. Sagrado e profano, ocidente e oriente, doce e salgado, castas e direitos civis, kama sutra e xxx, mtv e bollywood. É indiano, dá pra concluir. Em mais de cinco minutos, de ao que me lembro um plano-seqüência, está dada com um gancho altamente dance e contemporâneo uma visão completa do mundo. De Nova Iorque. Do que é Spike Lee. Do que será o filme. A música não sairá da cabeça por toda a projeção, até que ela volte nos créditos finais, desta vez turbinada com os versos rapeados de MC Punjabi. Como se precisasse.
‘Chayyia Chayyia’ é cantada por uma dupla de ídolos dos musicais cinematográficos indianos, a tal Bollywood. Sukhwinder Singh é de uma linhagem tradicional de galãs, sobrenome-grife que inspirou até o autor Salman Rushdie, em ‘O Chão que Ela Pisa’ (um livro que precisa ser lido). Canta, atua, autografa pôsteres e administra o sucesso. Independe do Ocidente, a não ser como referência via satélite e, ultimamente, banda larga. O mesmo com Sapna Awasthi, que como as fotos provam, deve ser deusa da fertilidade por lá. E o compositor é o Andrew Loyd Webber com pinta vermelha na testa. A. R. Rahman (que, é bem verdade, já tinha dado uma música para o filme americano ‘Senhor da Guerra’, com Nicolas Cage).
A ponte para um filme no país da Coca-Cola, CNN e Beyoncé veio, segundo entrevista de Spike Lee para a Empire, em uma aula do diretor no curso de Cinema da NY University. O tema era musicais, e uma aluna insistia em Bollywood. Lee nunca tinha visto um filme da Índia e pediu à estudante uma sugestão. No dia seguinte, ganhou emprestado o dvd de ‘Dil Se’, 1998, que assistiu. Prometeu a si mesmo que usaria aquela tal de ‘Changa Changa’ um dia, e acabou sugerindo a música a Terence Blanchard. Aprovada a idéia, eles só incluíram o rap de MC Punjabi, no que acabou sendo a versão Bollywood Joint da música – a dos créditos finais.
Para ouvir a versão sem o rap: baixe aqui .
Outro caminho possível para a inclusão indiana no esquema-joint, e menos interessante de ser contado em uma entrevista de divulgação de um filme, é que a música também fez parte do fracasso Bombay Dreams, na Broadway. Um musical de... A.R. Rahman.
Ao lado da atuação de Clive Owen, e da acusação de que os arranha-céus de NY são construídos sobre crimes de guerra como o holocausto (e falar disso na ressaca do 11 de setembro pode ser sintomático), está sem dúvida a batida grudenta das periferias do mundo unidas. E aí, já viu o filme?


((texto publicado primeiro no sobremusica))

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Mirra
 

Gostei do texto sobre Spike Lee.
Assisti The Inside Man e realmente a música "fica na cabeça" do início ao fim do filme. Ao comentar com um amigo, recebi o link para o vídeo no YouTube. Dil Se - Chaiyya Chayyia é maravilhosa e a "joint" com o rapper sinalizam algo também presente em nossa cultura: influências do mundo todo e a cultura que vai sendo construída aos poucos como se fosse um mosaico.
A India está mais próxima, através de um filme de Spike Lee, indicado num blog brasileiro e comentado por um descendente de italiano que adora música latina também. Isso é maravilhoso. Quem dera mais e mais jovens façam essas conexões e, principalmente, criem a partir delas!

Mirra · São Caetano do Sul, SP 6/4/2007 11:33
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