Pipodélica chega ao fim

Divulgação
Eduardo Xuxu ainda não sabia que estava gravando o último disco da Pipodélica.
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Elefante Bu · Brasília, DF
10/5/2008 · 89 · 1
 

"Acabou porque um dia começou". E com um ditado universal, Eduardo Xuxu, vocais e guitarra da Pipodélica, justificou o fim da sua banda. "Para mim, exceto sentimentos, tudo tem que ter começo, meio e fim. Todos mudam e nós, naturalmente mudamos. Não temos mais os mesmos interesses convergindo e isso resultou em dificuldades para fazer as coisas e no natural desgaste interpessoal. Achamos que não valia à pena ficar empurrando com a barriga... trocar algumas pessoas não seria solução porque não seria a mesma banda. Temos respeito pela nossa história e decidimos então pelo fim".

É preciso ter todo o respeito pela decisão do quarteto Eduardo Xuxu, M. Leonardo (baixo), Felipe Batata (vocal e guitarra) e Heron Stradioto (bateria e sucessor de Gustavo Cachorro), mas é permitido aos fãs e admiradores lamentar o fim de uma banda que teve uma carreira das mais significativas no meio independente, além de ser dona de uma discografia excelente. A Pipodélica começou no finalzinho dos anos 90, mas é entendida como uma banda desta década. Surgiu pouco depois do estouro da cena gaúcha que revelou Bidê ou Balde, Vídeo Hits e outras. Mas a Pipodélica era de Florianópolis e não fazia power pop como boa parte daquelas bandas, apesar de ter uma menina na formação (Carine Nath) - na época parecia ser uma característica quase obrigatória. A história começou com uma fita caseira que gravaram na casa de um amigo e que se espalhou pela Faculdade de Arquitetura na Universidade Federal de Santa Catarina. O nome da tal fita é que batizou a banda.

A Pipodélica gravou em 2001 o EP, Tudo Isso, que foi muito elogiado na época. Ele também marcou a saída de Carine e a formação definitiva como um quarteto. Olhando para trás, aquele foi um início bem ingênuo se comparado com os outros trabalhos que seriam lançados depois. Talvez o impacto de Tudo Isso tenha sido potencializado pela própria época, quando a cena independente ainda era uma novidade. De qualquer forma, foi um disco importante para apresentar a Pipodélica, que se tornaria uma das principais representantes da cena catarinense, senão a banda mais conceituada de lá. "Posso dizer que sempre – desde a primeira vez que gravamos sem saber se aquilo seria uma banda – fizemos uma música genuína, com a nossa cara. Muito me orgulho disso e não concebo alguém que seja artista que não faça isso... ter uma característica própria. Sempre tivemos cuidado estético, é claro, mas nunca procuramos fazer a música A ou B. Sempre foi natural. Isso faz sentido quando digo que nós fomos mudando ao longo do tempo. Dizem ser perceptível em cada um dos discos, ainda que seja inconfundível. Para mim, legado melhor, não poderia existir. O último disco, por certo, é um retrato mais fiel de nós nos últimos tempos. Estamos todos circundando os 30 anos. Nada contra, mas me sentiria ridículo em relacionar nas letras o que quero dizer com viagens interplanetárias, como fiz no Tudo Isso, por exemplo".

O caldo musical começou a engrossar logo no segundo EP, Enquanto o Sono Não Vem, que abriu as portas para gravadoras pequenas, porém prestigiadas, como a Baratos Afins. Outro efeito da boa repercussão foi a abertura para a Pipodélica começar a tocar em outros estados brasileiros. Para Eduardo, Florianópolis é uma cidade culturalmente isolada e que é preciso chamar atenção primeiro em outras cidades para depois ser reconhecido na própria. Infelizmente essa é uma característica comum em várias outras capitais, até mesmo Brasília apesar de todo o seu histórico roqueiro. "Rock aqui, mais que em outros lugares, é nicho. Então, tivemos que ter reconhecimento fora, pra sermos valorizados aqui. Mas isso faz muito tempo. Agora que acabou a banda, pela repercussão, vi que viramos um dinossauro intocado por aqui e fora também. Foram oito anos tocando e lançando discos. Uma carreira absurdamente sólida para uma banda independente, cuja dimensão só consigo ver agora. Mais um motivo para estar seguro do que fizemos".

Uma vez que o fim foi selado, registrado e carimbado, é possível afirmar que, curiosamente, a Pipodélica viveu o seu auge em 2004 com o EP Volume Quatro. Eles já tinham um disco premiado na praça, o Simetria Radial, mas foi com o EP que tiveram o gostinho da popularidade. Volume Quatro foi o projeto que inaugurou com muito sucesso o Senhor F Virtual. "De certa forma, nós introduzimos os projetos virtuais no Brasil. Entretanto, na época, mesmo a crítica não aceitava aquele formato muito bem. Talvez pela novidade, foi um disco quase sem resenhas/críticas. Ao mesmo tempo, sem dúvida foi o que atingiu o maior número de pessoas. Mais uma prova de que discos não vendem mais, e que importar modelos de um meio para aplicar em outro, não funciona", explicou Eduardo. Foram mais de 100 mil download das músicas, que dariam uma média de 15 mil discos baixados, um número ótimo para um trabalho virtual e independente. O fato torna-se ainda mais impressionante não só pelo caráter pioneiro. Se for pensar bem, tem muita banda querida da crítica que sua muito para conseguir vender 15 mil cópias de forma independente. O curioso é que Eduardo começou a questionar o papel da crítica justo depois do Volume Quatro, um sucesso de público e fracasso de crítica. "Será que criticam música ou estão atrelados a conceitos? Um disco virtual não é um lançamento? Hoje, acho que a coisa mudou, mas não sei se plenamente. Espero que quem critica seja mais atento ao cerne do que faz. Então, o Volume Quatro foi o auge conceitual – o que verdadeiramente é ser uma banda independente - e, sem dúvida, um fracasso de crítica. Todos os outros títulos, em especial o Simetria Radial, tiveram infinitamente mais repercussão crítica".

Os créditos do Volume Quatro vão além de simples números. Apesar de Eduardo considerar que os discos Simetria Radial e o último, Não Esperem Por Nós, representarem melhor o auge musical da Pipodélica, o EP foi uma ruptura com tudo aquilo que se estabelecia como independente. "Nós fizemos parte daquela onda – tocar onde tinha que tocar, aparecer onde tinha que aparecer – mas resolvemos sair daquilo quando vimos que os valores no novo e festejado meio independente eram tão distorcidos e execráveis quanto aqueles que eles mesmos apedrejavam no dito mainstream. Pergunte a qualquer banda nova hoje – e que não seja apadrinhada por nenhum dos cardeais do independente – o por quê não conseguem tocar num festival, aparecer num programa de TV 'feito para bandas independentes'. Não tivemos estômago pra participar daquele comércio que se estabeleceu e ainda sair levantando bandeira, vociferando contra jabá, esquemão ou coisas assim. Aqueles que controlam o independente hoje fazem isso de forma bem mais podre e nociva à música, posando de vanguardistas libertários e ainda com o nosso dinheiro! Porque todo esse esquemão é sustentado via projeto cultural! Tenho conhecimento de causa para falar". Nesse sentido, Eduardo acredita que o Volume Quatro representou uma guinada para algo novo e independente de fato.

Boa música e transgressão é isso aí. A Pipodélica vai deixar saudades.

- Esta matéria foi originalmente publicada no fanzine Elefante Bu.

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Aepan · Estrela, RS 9/5/2008 21:13
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