Quer conhecer Onhiámuáçabê?

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Michelle Portela · Manaus, AM
16/11/2006 · 99 · 0
 

Os Sateré-Mawé integram o tronco linguístico Tupi, mas diferem do Guarani-tupinambá, concordando os pronomes com a língua Curuaya-munduruku e a gramática com o Tupi, segundo o etnógrafo Curt Nimuendaju (1948). O vocabulário Mawé, contudo, contém elementos completamente estranhos ao Tupi, sem relação a qualquer outra família lingüística. Estes e outros elementos da língua vão estar na gramática e no dicionário Sateré-Mawé, que estão sendo produzidos por professores e pesquisadores indígenas da etnia, no Amazonas.

A necessidade de criar material didático adequado aos Saterés surgiu depois que os professores perceberam que estavam educando suas crianças para o mundo dos brancos. Perceberam também que a Educação sempre estaria prejudicava com livros incompreensíveis às crianças Sateré, que mantém a língua nativa como principal.

Os homens atualmente são bilíngües, falando o Sateré-Mawé e o português, mas a maioria das mulheres, apesar de três séculos de contatos com os brancos, só fala a língua Sateré-Mawé.

A gramática vai reunir diversos aspectos da cultura Seteré-Mawé, articulando essa referência cultura às normas lingüísticas. Os dados foram coletados em seus territórios ancestrais (aldeias, território, as aldeias, sítios, roças, cemitérios, territórios de caça, pesca) principalmente entre anciões, considerados os guardiões da sabedoria.

O dicionário trará mais do que o significado das palavras, mas também as formas ancestrais do índio falar sobre sua terra, sua casa, sua vida. Por exemplo: os Sateré-Mawé referem-se ao seu lugar de origem como sendo o Noçoquém, lugar de morada de seus heróis míticos. Eles localizam-no na margem esquerda do Tapajós, numa região de floresta densa e pedregosa, "onde as pedras falam".

Em ambos, também poderemos aprender sobre a participação das mulheres, seja na aldeia real seja em lenda. No corpus mítico Sateré-Mawé, o feminino é representado pelas figuras de Uniaí, Onhiámuáçabê e Unhanmangarú, que são ora irmãs de Anumaré (Deus), ora irmãs de Ocumaató e Icuaman (os irmãos gêmeos). Estas mulheres míticas possuem um leque de atributos e prerrogativas que encontram ressonância na vida social Sateré-Mawé, mesmo que de forma invertida ou oposta.

É seguindo essa trilha que podemos entender a participação das mulheres no fabrico, precisamente na lavagem dos pães de guaraná – produto de excelência dos Sateré, presente em sua organização política e social-, uma vez que elas ocupam a posição de Onhiámuáçabê na "História do Guaraná" - a mulher - xamã, esposa e mãe. Onhiámuáçabê, através de práticas xamanísticas, cuja tônica central é a lavagem do cadáver do filho com a sua saliva e o sumo de plantas mágicas, faz nascer a primeira planta de guaraná, inaugurando a agricultura, ressuscitando seu filho - o primeiro Sateré-Mawé, e fundando a sociedade.

É interessante notar que na sociedade sateré-mawé cabe exclusivamente aos homens a função de pajés, ao contrário de alguns mitos, em que esses papéis são reservados às mulheres. Da mesma forma, a vida social reserva aos homens a tarefa de beneficiar o guaraná, quando nos mitos é função da mulher cuidar do guaraná.

O subsídio para o desenvolvimento da gramática e do dicionário veio com a formação acadêmica de 42 professores indígenas no Curso de Licenciatura em Ciências Naturais que a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) passou a oferecer desde 2003, exclusivamente para público, para professores da Terra Indígena do Marau, na região do município de Maués.

O curso propicia uma formação generalista, no campo das ciências biológicas e exatas, fundamentada numa concepção histórico-social de ser humano e baseada no princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. A proposta do curso é construir cidadania crítica, para a preservação da biodiversidade e dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas.

Foi durante as aulas que os professores indígenas, hoje no sexto módulo, passaram a perceber que projetos, como a elaboração didática na língua materna, são determinantes para a conservação da cultura e desenvolvimento de um povo.

“O curso está abrindo nossa visão. Posso dizer que antes a gente não estava enxergando os problemas da comunidade e nem preparados para lidar com eles. Agora, estamos evoluindo, o que aprendemos no curso tentamos aplicar na comunidade”, diz Euzébio Silva Torquato, acadêmico e professor de Ensino Médio.

O aprendizado já provoca mudança no cotidiano dos Sateré-Mawé. “Um exemplo foi a mudança na compra do açúcar. Antes, a gente comprava em saca, que depois era jogada no rio. Hoje, preferimos armazenar o açúcar em recipiente e dispensar a saca, não poluindo o rio. É um exemplo simples, mas de grande impacto no nosso modo de vida”, relata o professor.

O material didático em Sateré-Mawé vai auxiliar no ensino nas escolas indígenas das aldeias do Marau. “Todos os professores são bilíngües, dão aula nas línguas Portuguesa e Sateré, mas predomina o ensino na língua materna. É exatamente assim que queremos manter”, explica o supervisor de educação do projeto, Erciuo de Oliveira.

Para tocar os projetos, os professores se dividiram em dois grupos, para trabalhar com maior objetividade. Erciuo me diz ainda esta última frase: ”O curso da universidade deu subsídio para a gente tentar construir nosso próprio material didático, respeitando os nossos saberes, que finalmente vão ser documentados por nós mesmos”.

BREVE HISTÓRIA DO POVO DO GUARANÁA Segunda maior etnia da Amazônia ( atualmente 7.l34 pessoas ) já recebeu vários nomes ao longo de sua história, denominações dadas por cronistas, desbravadores, missionários e naturalistas como Mavoz, Malrié, Mangnés, Mangnês, Jaquezes, Magnazes, Mahués, Mauris, Mawés, Maragná, Mahué, Magneses, Orapium. Mas os índios se autodenominaram Sateré-Mawé.

Antes da chegada do branco colonizador, da guerra justa e da Cabanagem que os dizimaram e os confinaram nos atuais 788.528 hectares de reserva Mawé ( com um dos maiores índices demográficos do país, considerando outras reservas indígenas), eles eram numerosos, chegavam a dezenas de milhares e habitavam o vasto território entre os rios Madeira e Tapajós, delimitado ao norte pelas ilhas Tupinambaranas, no rio Amazonas e, ao sul, pelas cabeceiras do Tapajós.

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