Rei Vadio

Walter Firmo
Nelson Cavaquinho ao lado de Cartola no carnal de 1963
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romulo fróes · São Paulo, SP
7/2/2011 · 23 · 1
 

artigo publicado originalmente na Folha de São Paulo por ocasião do ano de centenário de nascimento de Nelson Cavaquinho


Nelson Cavaquinho era um rei. Um rei vadio que vagava por lugares decadentes, em um Rio de Janeiro de costas pro mar, com suas ruas estreitas e bares apinhados de vagabundos, com quem dividia além da bebida, sua música e solidão. Um andarilho bêbado que bem poderia ser tomado por um mendigo, não fosse tudo em sua figura cabocla de cabelos brancos indicar integridade, nobreza e distinção.

Toda a força da música de Nelson Cavaquinho nasce desta contradição. Da possibilidade de haver beleza neste conjunto à princípio, tão estranho e desagradável. Seu violão beliscado, que parece ser tocado com um alicate, sua voz rascante e seu pouco fôlego, que determina o intervalo melódico dividindo os versos em lugares inesperados. Tudo está à ponto de se quebrar. Muitas de suas músicas não se resolvem, ou melhor, se resolveriam se quisesse, na primeira parte, sempre mais nítida. Quando alcançam a segunda parte, parecem esquecer de onde partiram. Tomam um caminho surpreendente, que mantém a melodia em suspensão, obrigando seu retorno à primeira parte, fazendo a canção girar em círculos. Perdemos a referência. Como se Nelson fosse despertado de seu cochilo, para retomar sua patrulha desorientada das ruas. Sem saber de onde e porque veio, nem pra onde se está indo.

Esta falsa incapacidade técnica, aliada a um profundo amadorismo, posiciona Nelson em um lugar único na música popular brasileira. Mas podemos, se quisermos, mesmo com sua enorme especificidade, identificá-lo com a face menos luminosa do samba. Dos sambas de cadência lenta, de letras tristes. Características presentes em sua música que o faz se alinhar a outros compositores. Mais claramente pra mim, a outros dois grandes artistas devedores de sua poética: Batatinha, compositor que pode ser considerado seu duplo baiano e Cartola, seu grande parceiro de Mangueira. Mas também em relação a eles, Nelson se mantém original. Batatinha e Cartola, cada qual a sua maneira, procuram driblar a tristeza. Batatinha com seu acesso direto aos sentimentos, tratando-os pelo nome, negociando uma saída e Cartola, protegido de sua enorme sabedoria e experiência, refugiando-se na beleza possível de sua vida dura. Diferente dos dois, Nelson aceita a derrota. Não teme o sofrimento, nem pensa torná-lo suportável. Encara a tragédia como natural.

No seu texto sobre Nelson, Nuno Ramos diz que “ele é nosso contato imediato com aquilo que deu profundamente errado em nós”. Deste encontro sem esperança, ansiedade ou promessa de redenção, forjou sua música inigualável. Tão bela e perturbadora, como nunca, antes ou depois, se viu.


Romulo Fróes




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Juliana Damazio
 

Lindo texto! Não sei de alguém cuja tragicidade é mais bela que a de Nelson Cavaquinho. Você se refere a um texto do Nuno Ramos sobre o Nelson que me deixou curiosa. Onde encontrá-lo?

Juliana Damazio · Goiânia, GO 18/4/2011 14:39
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