Morte na Bahia

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romulo fróes · São Paulo, SP
29/5/2012 · 6 · 0
 

texto de apresentação de Bahia Fantástica, novo trabalho de Rodrigo Campos

Muito do sucesso de São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe, disco de estréia de Rodrigo Campos, vinha de sua profunda ligação com o bairro onde cresceu e principalmente com os personagens que lá conheceu. De tom autobiográfico, Rodrigo construiu com São Mateus uma mitologia própria, lançando à realidade a sua volta um olhar tão delicado, quanto original. Como seguir adiante sem se valer do mesmo artifício, correndo o risco de se repetir? Mudando de lugar. A escolha não poderia ter sido mais arriscada. Rodrigo Campos foi buscar inspiração em um dos berços da música popular brasileira, tematizado em infinitas canções, que à princípio parece inimaginável encontrar novos ângulos à sua história. O compositor pode até reinvidicar, já na primeira música, uma aproximação: "Daqui pra lá não vá dizer, que a Bahia não lhe achou, (...) tenho Bahia pra você, tenho Bahia pra você" (Cinco doces), mas a força do disco que lança agora, vem justamente de um movimento contrário ao de São Mateus... É da falta de intimidade de Rodrigo Campos com seu objeto de inspiração que nasce a beleza de Bahia Fantástica.

A principal mudança, para mim, ocorre em relação aos personagens. Eles ainda formam o lastro de suas canções, mas se em São Mateus... constituíam seu alterego, protagonizando o enredo que parecia ser o de sua própria vida, em Bahia Fantástica, é preciso antes, dar-lhes vida. Rodrigo não se vale mais da rotina dos seus personagens, afinal, ela nem mesmo existe, nem parece desfrutar do seu convívio, pois mesmo aqueles personagens que à princípio não se referem ao universo de Bahia Fantástica, tão pouco estão ligados a São Mateus. Poderiam pertencer a qualquer lugar. Se em São Mateus... bastavam seus nomes, Lúcia, Isaac, Fabrício, em Bahia Fantástica eles adquirem patentes, capitão, general, ou são acompanhados de seu epíteto, Andreza - a princesa do mar; Mino - o escravo de Albino Rocha.

O "desconhecimento" de Rodrigo sobre os personagens, mudou sua narrativa. Em Bahia Fantástica, deixa de lado as crônicas que caracterizavam seu trabalho até aqui. Suas letras, sempre tão enxutas, tornam-se ainda mais diminutas. Rodrigo estica o seu tamanho repetindo várias vezes alguns versos, como que para caber na melodia, mas também como se quisesse reiterar o assunto da canção. No que perdem em enredo, ganham em significado. Rodrigo vai agora tratar dos assuntos que lhe perturbam, não mais sob o ponto de vista dos personagens reais de sua vida, mas através daqueles que parecem terem sido criados apenas para refletirem suas próprias aflições. Passado e presente, mitos e pessoas reais, vida e morte, realidade e fantasia, se confundem o tempo todo em Bahia Fantástica. Em certa medida, o afastam também de uma provável e cruel comparação com o maior intérprete da Bahia na música popular brasileira: Dorival Caymmi. Se quisermos forçar uma aproximação, talvez a influência de Caymmi fosse até mais facilmente identificada em São Mateus..., na descrição heróica que Rodrigo fazia de pessoas comuns, como o motorista da van, a professora do primário, o funcionário do banco, quase como Caymmi transformando em saga, a vida banal de seus pescadores. A Bahia de Rodrigo passa muito além de sua localização geográfica. Vai usá-la como espaço de reflexão de sua própria vida. Tanto melhor que esteja tão longe de São Mateus. Ao refletir sobre a vida, Rodrigo se depara com a morte.


O tema da morte já estava presente em São Mateus, mas ali não se apresentava como dúvida existencialista e sim como mazela real do cotidiano, ainda que conscientemente camuflado. Com Bahia Fantástica, longe do compromisso de resgatar a dignidade do lugar onde cresceu, Rodrigo pode finalmente enfrentar de frente a figura da morte, menos por suas tristes lembranças descritas em São Mateus..., mais pelo mistério e incompreensão despertados por ela. Vai descrevê-la de muitas maneiras em Bahia Fantástica. Seja por sua face mais real e inevitável (e mais próxima de São Mateus...), representada no destino fatal de um assaltante de carros: "na Mitsubishi amarela, Maurício ganhou sete vela" (Sete Vela) ou na falta de vocação de um matador: "moleque vacilão, não sabe nem matar, tem que chorar?" (Jardim Japão). Seja por sua falta de compreensão, servindo como metáfora para o sofrimento: "Ana vai morrer, não tem problema, todo fim de tarde Aninha morre" (Aninha) ou para a paixão: "ribeirão sangrou, ribeirão vazou, ribeirão morreu de dor de amor" (Ribeirão).

Mas assim como acontecera com São Mateus..., ao ouvirmos Bahia Fantástica, em momento algum nos sentimos acuados pelo fato das canções tratarem de um assunto tão pesado quanto a morte. Talvez porque sua voz carregue uma imensa sabedoria que nos protege diante de estórias às vezes tão trágicas. E podemos nos surprender batendo os pés ao balanço de versos tão tristes quanto os de Aninha. Sua voz paira sobre o disco mesmo quando não canta, como nas brilhantes participações de Criolo, Juçara Marçal e Luisa Maita. É Rodrigo que parece cantar através deles. Voz que se transforma em muitas, no coro que entoa Escravos De Jó em Sou de Salvador, última faixa do disco. Tão soberana, que além de tomar pra si a cantiga de roda sem dono, afirma com tal convicção sua nova cidadania que é difícil a qualquer um negá-la, "sou de Salvador e cheguei na Bahia de manhã".

A voz de Rodrigo não precisa mais de um lugar, de um tempo, nem de ninguém. Não precisa mesmo nem mais viver as estórias que canta. Nem buscá-las na memória. Rodrigo Campos é de São Mateus. E agora de todo lugar.


Romulo Fróes

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