Resposta ao artigo “O Outro Milagre Brasileiro”

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Sebastião Genelhú · Caratinga, MG
28/5/2012 · 0 · 0
 

Resposta a Sebastião Martins, artigo “O Outro Milagre Brasileiro”, edição do dia 30/03/2012.

“O Brasil não tem problemas, tem soluções adiadas”.
Câmara Cascudo

Caro senhor Sebastião Martins, primeiramente gostaria de destacar meu profundo respeito pela sua pessoa, e pelos seus escritos, que certa vez retrataram a cidade em que vivo (Caratinga/MG), em um artigo sobre vendedores de carro; e devo dizer que passei a tomar muito cuidado com eles, como recomendado. Porém, o objetivo de minhas palavras não sãosobre este trabalho, e sim sobre o artigo, “O Outro Milagre Brasileiro”, de 30/03/2012, onde o senhor faz uma série de ponderações e questionamentos relacionados a promoção da arte negra e sua importância em combater o racismo. Assim, pretendo apresentaralguns pontos, que espero funcionar como respostas, a alguns dos seus questionamentos, ou no mínimo mostrar alguns fatos que o ajudem a repensar os seus questionamentos.
O início do artigo é marcado, também,por uma série de ponderações,(com a acidez e sarcasmo que lhe são característicos) relacionadas a algumas políticas públicasvoltadas para as Mulheres. Não pretendo entrar neste assunto, pois assumo a minha falta de conhecimento de causa, mas me sinto obrigado a lembra-lo que os dois grupos citados pelo senhor ao longo do artigo (mulheres e negros) são constantemente prejudicados em várias instâncias e segmentos,também em suas tarefas, funções, atividades, etc. as mulheres pela imposição masculina e crenças machistas de rebaixamento e servidão, e os negros que desde a época da escravatura, veema cultura do homem branco mais valorizada, em detrimento de sua cultura, sendo também vista como a de um povo “primitivo”.
A parte do artigo que fala sobre racismo causa certa indignação em que o lê, e olha que nem precisa ter tanto conhecimento do assunto. Mas, antes de passar aos seus questionamentos,quero lembra-lo que tantos anos após a abolição, a população negra ainda experimenta de perseguições, intolerância social ea difamação cientifica ao expressarem suas crenças e convicções religiosas. Também, me sinto na obrigação de lembra-lo da favelização de enormes contingentes de populações negras, excluídas dos benefícios das várias adaptações sanitárias e urbanas por que passou o país, e sem falar do problema deacesso à terra e da legalização das posses e propriedades fundiárias.E, para acrescentar ao raciocínio destaco alguns dados interessantes, fornecidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), originalmente publicados no artigo de Gabriel MalletMeissner, “Por que há desigualdades no Brasil?”:

1 -44,5% das mulheres negras nunca fizeram exame clínico de mama, contra 27,3% no caso de mulheres brancas;
2 -A média de estudo entre brasileiros negros é de 5,8 anos, enquanto entre brancos é de 7,7 anos;
3 -16% dos negros maiores de 15 anos são analfabetos, já entre os brancos a taxa de analfabetismo nesta faixa etária é de 7%;
4 -O salário médio mensal das mulheres brancas é de R$561,70. O das negras é menos da metade, apenas R$290,50;
5 -Entre os 10% mais pobres da população, 71% são negros;
6 -Entre os 1% mais ricos da população, apenas 11,3% são negros;
7 -Entre os brancos, 77% dos domicílios não têm computador, 82% não têm acesso à Internet e 44% a telefone celular. Entre os domicílios de famílias chefiadas por negros, estes números crescem para, respectivamente, 92%, 95% e 62%
8 -19,5% da população branca situa-se abaixo da linha de pobreza (meio salário mínimo per capita); entre a população negra, este índice é de 41,70%

Os dados citados nos faz concluir que a democracia racial no Brasil é somente um mito,isso quando lembramos que 45,3% da população brasileira, é constituída por negros (pretos e pardos na classificação do IBGE) o que configura o Brasil como o segundo da maior em questão de população negra do mundo, apenas sendo superado pela Nigéria.
Bom, acho que agora podemos passar então aos questionamentos.Questão Um,“Promover Festivais de arte negra com dinheiro público é combater o racismo?”. Meu caro sr. Sebastião Martins, primeiro ponto, ARTE é trabalho, e mesmo que muitas vezes não configure algo sólido, material e palpável, ainda sim como todo trabalho merece investimentos, qualificação de mão de obra e claro discussão, e infelizmente as principais ferramentas de incentivo a cultura (em todos os seus setores) do Brasil estejam acumuladas em poucas regiões do País, e os mecanismos de renúncia fiscalainda não se solidificaram. Segundo ponto, o próprio verbo utilizado já faz menção de sua utilidade, PROMOÇÃO, que aborda, ou eleva alguma coisa, e entenda bem, não é uma convocação para que os negros formem milícias, grupos, ou que radicalmente mantenham casamentos somente entre eles, são eventos que promovem a interação e o debate. O terceiro ponto também responde a Questão dois “Estimular ainda mais a divisão entre brancos, negros, louros, ruivos e japoneses?”, ora, eu até concordaria com o senhor se esses eventos fossem de entrada exclusiva de negros, mas não são, em palavras simples, negros mostrando sua cultura remanescente para outros grupos, os mesmos citados pelo senhor no artigo.O quarto ponto está relacionado a construção identitária que esses eventos ajudam a formar, pois se há uma identidade étnica ou racial formulada nesses eventos, elas também procuram delinear um perfil identitário com o qual parte da população seja capaz de se identificar. Elementos da cultura negra são sempre menos valorizados do que o das outras culturas, e isso não somente entre os brancos, mas também entre os próprios negros. E digo mais, que até concordaria com o senhor se esses eventos ligados as questões raciais fossem realizados de uma forma unilateral, sem organização, fazer só por fazer, mas não são. São demandas reivindicadas pelo movimento negro, e são uma reivindicações antigas, e estão sempre em discussão e melhoramento. Respondendo então de uma forma geral e baseado nos pontos expostos, Sim, esses eventos promovem a discussão é o combate ao racismo, e Não promove divisão alguma.
Por fim, quando o senhor faz menção da necessidade de tratar então da mesma forma os outros grupos, quero então voltar aos dados do IPEA, citados acima,onde concordo com o senhor que todos os grupos merecem tratamento igual, e é por isso que respondo aos seus questionamentos, ou seja, respondo reivindicando esse direito ao grupodo negros, pois os outros já tem a sua identidade coletiva formada, não são a maioria em cadeias e favelas, e não são constantemente perseguidos e massacrados, por grupos extremistas e ignorantes.
No artigo o senhor se posicionou sobre uma coisa que acha ser injusta. Então eu lhe pergunto, com base nos dados apresentados, a atual situação da população negra é justa? Questionar sem embasamento, ou conhecer essas ações afirmativas como promoção da cultura e arte negra, de cotas na universidade para os jovensnegros, o programa de saúde para a população negra, o reconhecimento das terras dos remanescentes de quilombos, o combate à intolerância religiosa em face das religiões de matriz africana, é lutar contra uma sociedade mais igualitária.
Sem mais o que dizer, me despeço.

Sebastião Maximiano Corrêa Genelhú
Membro do Conselho Municipal de Igualdade Racial do Município de Caratinga/MG

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