O momento histórico do inÃcio de participação no processo de engajamento em arte e polÃtica foi na volátil atmosfera dos anos 60 no qual foi gerado um amplo e vital corpus de pensamento e controvérsias sobre o sentido da arte e modernidade. Muito do que aconteceu de mais significativo naqueles anos girou em torno da natureza do modernismo das esquerdas. Podemos dividir grosseiramente aquele momento em tendências com referência as posições polÃticas frente ao contexto do que na época eram as facções da sociedade frente aos desafios como um todo, e embora pareça uma redução simplista e superficial, afirmo que a intervenção da ditadura militar no Brasil construiu profundas e desastrosas mudanças e uma das que foram impostas de forma mais planejada e cirurgicamente operada pelos detentores internacionais do capitalismo liberal aconteceu na educação, que com a Lei 5692/71 amputou eficientemente o braço sistematizador da cultura na educação; eliminando de todos os currÃculos escolares, em todos os perÃodos de formação até o 2º grau, todos os conteúdos que até então vinham construindo as bases fundamentais de nossa cidadania e unidade cultural. Bases que ao contextualizar a criança nos conteúdos preexistentes em suas regiões geopolÃticas e culturais mantinha as formas de saber e fazer de cada unidade geopolÃtica do Brasil, as escolas organizavam as grades curriculares desde a alfabetização com conteúdos que mantinham atualizados as cantigas, cânticos, poesias, músicas e teatros, artes e artesanatos etc. com uma variada denominação de região para região, porém mantendo sempre como formas didáticas e pedagógicas canções de domÃnio público, teatros “populares†como teatro mambembe, artes e ofÃcios que mantinha a atualização da mais autêntica criação popular ampliando, e abrangendo posteriormente no segundo grau, para formas de aprofundamento das nossas identidades culturais antrazes de conhecimentos de sociologia, filosofia,psicologia, história da literatura e da arte, etc. Depois da famigerada reforma da educação com a lei que tinha como finalidade, entre outras, construir uma massa de trabalhadores com formação unicamente para atender os projetos de exploração das multinacionais (escolas profissionalizantes), que de um lado submeteu nossa economia e sociedade a submersão nas decisões do imperialismo multinacional e de outro,criando a partir de então gerações de zumbis, incapazes de se perceber dialeticamente em seus contextos sociopolÃticos e uma elite de zumbis, que galgaram a formação universitária, produziram em série, cada vez mais profunda das gerações de excluÃdos e marginalizados dentro do culto e da adoração da santÃssima trindade: FMI, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD) que, por terem um amor especial pela pobreza, fazem com que seu número crescessem aceleradamente no Brasil e no mundo dos paÃses emergentes. São desses excluÃdos que aqui no Brasil sairá uma parcela que, agarrando-se as suas formas de saber e fazer “cultura popular†como toda cultura que em seu contexto histórico é popular, todas as culturas são produtos das contradições do seu momento histórico.
Aqui no Brasil, uma parcela dos excluÃdos ao agarrar-se como tábua de salvamento nas suas formas de saber e fazer escaparam da criminalização, do subproduto das polÃticas públicas da ditadura militar e salvaram nossa identidade e diversidade do saber e fazer “cultura popular†que é hoje reconhecidamente o segmento mais rentável da economia e inexoravelmente a principal atividade para o desenvolvimento e resgate dos segmentos sociais criminalizados pelo modo de produção imposto pela “santÃssima trindadeâ€
Nenhum setor pode em menor tempo e investimento ser mais eficaz para o resgate das vÃtimas, - da submissão ao imperialismo multinacional imposto pela ditadura militar no Brasil, - do que as formas do saber e fazer do povo – “cultura popular†– salva e salvação pelo próprio povo, dialeticamente construindo a saÃda pelo enfrentamento da marginalização enquanto contradição do nosso processo histórico.
Assim a geração de 60 foi tragada e passou a admitir como único tema para um pintor modernista a planura da superfÃcie onde a pintura corre, porque: “somente a planura é única e exclusiva em termos de arteâ€. Então, o modernismo tornara-se a procura de uma arte objeto puro, auto referido. Vindo então o aprofundamento dialético na crise onde arte moderna e vida moderna assumem a ausência de qualquer relação. O artista para ser moderno tinha que voltar as “costas†para a sociedade e confrontar o mundo dos objetos, recusando-se a caminhar através de quaisquer das formas da História ou da vida social. O modernismo aparece, desse modo, naquele momento, como uma grande tentativa de libertar os artistas das contradições em que estavam circunstancialmente envolvidos, da exclusão e criminalização cada vez maior das massas populares. Mas alguns não pactuaram com esse modernismo: uma arte desprovida de sentimentos pessoais e de relações sociais está condenada a parecer árida e sem vida em pouco tempo. A liberdade que ela permite é a liberdade belamente configurada e perfeitamente selada... Da tumba.
Foi contra isso que nos rebelamos: Contra um modernismo que visava destruir todos os valores e não oferece nada para substituir esta contradição. Muito já foi dito da obra de arte moderna, que ela deve: “molestar-nos com agressiva absurdidade†(Leo Steinberg), “uma tradição de destruir tradição†(Haroldo Rosenberg), etc. Estes e muitos outros princÃpios foram nos anos 60 radicais e fanaticamente defendidos por muitos segmentos de produção cultural o “modernismo†naquele momento tornou-se palavra chave para todas as formas de revolta. Esta abordagem só conseguia ver uma parte da contradição mas deixava muitas coisas de lado. Escondia a grande epopéia da construção, a maior de todas as forças cruciais do modernismo, a força afirmativa e positiva em relação à vida, que nos grandes modernistas vem sempre junto com a sublevação e a revolta: as figuras de GUERNICA, de Picasso, lutando para manter viva a própia vida, enquanto emite o seu grito de morte.
Existe ainda outro aspecto nessa idéia de modernismo como nada além de perturbação: ela implica em modelo ideal de sociedade moderna isenta de crise. Com isso, põe de lado “os permanentes distúrbios das relações sociais, a interminável incerteza, a contradição como foco central que nos últimos séculos têm sido os fatos básicos da vida moderna. Acredito que o último pensador do século passado que tinha algo a dizer sobre modernismo foi MICHEL FOUCAULT. E o que ele disse é uma interminável, torturante série de variações em torno dos mesmos temas Weberianos do cárcere de ferro e das inutilidades humanas, cujas existências foram moldadas para se adaptar à s barras. Hoje séc.XXI, quanto mais elevada é a classe social em nosso paÃs maior é a obsessão por prisões, grades, cercas eletrificadas, tecnologias de segurança, vigilância permanente, “instituições totais†frente a qualquer possibilidade de liberdade. As totalidades de FOUCAULT absorvem todas as facetas da vida moderna. Ele desenvolve esse tema com uma obsessiva firmeza e, com filigranas de sadismo rosqueando suas interpretações como barras de ferro, apertando em nossa carne cada torneio dialético como mais uma volta do parafuso. FOUCAULT reserva seu mais selvagem ataque à s pessoas que imaginam ser possÃvel a liberdade para a moderna humanidade. Nós usamos nossas mentes para desmascarar a opressão, maravilhoso mergulho na contradição pois toda a espécie de inquérito sobre a condição humana apenas desliga indivÃduos de uma autoridade disciplinar para liga-lo a outra logo, apenas faz engrossar o triunfante discurso do poder. Toda crÃtica soa vazia porque o próprio crÃtico está dentro da máquina panóptica, investindo de seus efeitos de poder que conferimos a nós mesmos, já que somos parte do seu mecanismo.
Por mais paradoxal que seja estes modernistas compreenderam primeiro do que nós a nossa modernidade. Se pudermos fazer nossa a sua visão e usar suas perspectivas para nos ver e ao nosso ambiente com olhos mais desprendidos, concluiremos que há mais profundidade em nossas vidas do que supomos. Veremos a imensa comunidade de pessoas em todo o mundo que têm enfrentado dilemas semelhantes aos nossos. E voltaremos a tomar contato com uma cultura modernista admiravelmente rica e vibrante que tem brotado dessas lutas: uma cultura que contém vastas reservas de força e saúde, basta que a reconheçamos como NOSSA.
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