Sample brasileiro para rapper gringo rimar parte I

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Roberto Iwai · São Paulo, SP
14/4/2010 · 2 · 0
 

texto originalmente publicado no site Per Raps (perraps.wordpress.com)

(você pode ouvir os fonogramas originais das músicas sampleadas e das músicas que samplearam aqui)

por Roberto Iwai e Raphael Morone

Que a música brasileira é uma das melhores, senão a melhor, do mundo, todos sabemos. Os gringos são vidrados nos sons da terrinha e quando vem ao país costuma fazer limpa nos sebos. No rap, a utilização de samples da nossa música é cada vez maior e sempre nos deixam envaidecidos e um tanto quanto revoltados: os caras manjam mais de música nacional que nós, cidadãos da terra brasilis. O ColetivoACTION engoliu o choro e fez uma lista comentada dos raps que utilizam de forma mais bacana a música brasileira. Revezando entre Raphael Morone e Roberto Iwai, fizemos uma lista variada do que mais nos agrada.

De La Soul – The Art Of Getting Jumped
Odair Cabeça de Poeta & Grupo Capote - A Dor É Curta E O Nome Comprido


Foi no ano de 1989 que o De La Soul estabeleceu a voz de ordem do D.I.Y. (Do It Yourself, faça você mesmo) no rap, e expandiu as fronteiras de como a música em sua sonoridade e harmonia poderia se comportar a partir de um curto e seco recorte de um passado dela própria: junto com Paul’s Boutique dos Beastie Boys, 3 Feet High and Rising era uma amálgama poderosa de samples, e se estabeleceu como clássico do gênero e do pioneirismo. Se no futuro esse mesmo espírito vanguardista custaria ao trio o preço da burocracia, em 2000 era a grata a surpresa de que na música “The Art Of Getting Jumped”, do disco Art Official Intelligence: Mosaic Thump, em seus dois primeiros segundos de duração, se escuta… Um acordeon? E se escuta… Assobios! E pelo resto da faixa, o que nos acompanha é um loop de uma levada característica, brasileira, retirada dos confins da música popular: o trio conseguiu extrair um sample de uma canção de Odair Cabeça de Poeta & Grupo Capote, chamada “A Dor É Curta E O Nome Comprido“.

A música, de Odair em parceria com Tom Zé, é de um disco do grupo de 1976 chamado O Forró Vai Ser Doutor. É inimaginável a linha de pensamento que levou o trio de NY a utilizar exatamente essa música – mas o resultado é surrealmente maravilhoso. Ao final de “The Art Of Getting Jumped”, um vocal com forte sotaque americano explica que “tivemos de botar esta no álbum”, sobre a melodia original de Odair, antes do próprio Grupo Capote finalizar a música cantarolando alguns dos versos originais da canção: “ô chamego/ô quem é/ô que dor/ô amor”. Nos anos 90, Tom Zé reutilizaria parte da melodia de “A Dor É Curta E O Nome Comprido” em “Xiquexique”, do disco Parabelo, trilha sonora para o espetáculo de dança do Grupo Corpo.

Fünf Sterne Deluxe – Hip Hop Clowns & Party Rapper
Azymuth - Dear Limmertz


Direto de Hamburgo, Alemanha, uma das gratas surpresas da lista. O Fünf Sterne foi um grupo de rap que surgiu nos anos 90 e lançou apenas dois albuns. Mesmo com a enxuta produção, conseguiram mostrar coisas interessantíssimas, “Hip Hop Clowns & Party Rapper” é uma delas. A música sampleia a genial “Dear Limmertz“, do Azymuth, outra banda brasileira reverenciadíssima na gringa.

Formado por José Roberto Bertrami, Alex Malheiro e Ivan “Mamão” Conti, o Azymuth é um dos pioneiros no jazz-funk no Brasil e no mundo. “Hip Hop Clowns…” mantém a base da track brasileira e os alemães cantam por cima. Tudo isso, sem soar canhestro ou sem sal. Demais.

The Pharcyde – Runnin’
Stan Getz & Luiz Bonfá - Saudade Vem Correndo


Os membros do Pharcyde ainda nem era nascidos quando Jazz Samba Encore!, álbum de Stan Getz com o brasileiro Luis Bonfá, foi lançado. Em 1963, o lançamento deste disco seria o pontapé inicial no mítico estouro de popularidade que a bossa nova teve nos anos 60 nos Estados Unidos, culminando no emblemático Getz/Gilberto, o polêmico trabalho ao lado do irretocável João Gilberto. Se o clima de “Saudade Vem Correndo” é um smooth jazz no mais smooth dos termos que a bossa de Getz poderia chegar, Pharcyde faria, em “Runnin’”, um verdadeiro recorte e colagem digno de ser citado nessa compilação de samples.

Pegando apenas uma pequena passagem de violão de Bonfá, o grupo passa a música toda intercalando interludes e harmonias retiradas do saxofone de Stan Getz sobre uma seca e direta batida, o que lhes renderia um de seus grandes sucessos como um dos melhores grupos do rap da Costa Oeste dos Estados Unidos.

Nujabes featuring Shing-2 - Luv(sic) pt2
Ivan Lins - Qualquer Dia


Em 1977, Ivan Lins lançava “Somos todos iguais nesta noite“. O disco marcaria o fim de uma fase em que o cantor e pianista se destacou pelos ricos arranjos influenciados pelo soul e funk, tudo sem perder a raiz brasileira. Infelizmente, depois deste disco, Lins nunca mais seria o mesmo, tendo apenas lançamentos com aura mais romântica e comercial, longe das verdadeiras gemas lançadas naquele período. Aproveitamos essa deixa e homenageamos o recentemente falecido Nujabes com uma das melhores produções do japonês, “Luv(sic) pt2″;, track que faz parte do seu álbum de estréia Hydeout Productions 1st Collection.

Com partipação do rapper e producer Shing02, a música sampleia lindamente “Qualquer dia” de Ivan Lins e cria um loop com o trecho inicial da canção do brasileiro. O beat e o sample se integram perfeitamente e criam uma atmosfera extremamente soulful. Curiosamente, ambas as músicas são as últimas de cada disco. Intencional ou não, Nujabes acertou em cheio.

Jay-Z – Thank You
Marcos Valle - Ele e Ela


Após dar indícios de uma ruptura sonora em Mustang Cor de Sangue ou Corcel Cor de Mel, de 1969, Marcos Valle rumou das levadas de bossa nova à aclamada fase soul de sua carreira, e culminou no maravilhoso disco Marcos Valle, de 1970. A carreira de Valle durante este período, em que o músico aliou seus conhecimentos em piano clássico com a influência bruta do som negro vindo do soul e do funk, que fervilhava Estados Unidos afora, é aclamada por críticos, estudiosos, fãs e entusiastas da música brasileira no mundo todo.

The Blueprint 3, terceiro capítulo de uma trilogia que se iniciou no aclamado disco The Blueprint, de 2001, se utiliza de uma das músicas do disco de 70 de Valle, “Ele e Ela“, para dar vazão às palavras de Jay-Z. Produzido por Kanye West, um dos nomes de grande sucesso da moderna R&B, e No I.D., produtor que trabalhou com rappers como Common, a dupla eleva a competência e bom gosto em transmutar sonoridade em sucesso e busca na fonte da música negra brasileira a linguagem para que milhões de ouvintes sejam testemunhas do poder sonoro que esse país tem; e que consegue se aglutinar, morfar e cativar.

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