SE VIRA RIBEIRÃO: Virada Cultural Independente

Renata Prado
Parte da equipe do Se Vira Ribeirão 2013
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Vinícius Barros · Ribeirão Preto, SP
6/6/2013 · 0 · 0
 

SE VIRA RIBEIRÃO*:
A Virada Cultural Independente de Ribeirão Preto

Vinícius Macias de Barros**

Quando foi noticiado o cancelamento da Virada Cultural Paulista de 2012, em Ribeirão Preto/SP - evento anual realizado pelo governo do estado em parceria com a prefeitura - artistas, produtores culturais e outros agentes sociais da cidade reagiram imediatamente. Naquele momento, a discussão ganhou as redes sociais e acabou sendo canalizada para a perspectiva de ocupar a lacuna com um evento independente, que tivesse a cara dos artistas e ativistas locais. A proposta também gerou um grande entusiasmo coletivo no sentido de debater a função do poder público como órgão fomentador de cultura e das ruas como um espaço de livre ocupação.

Unidos pelo anseio dessa realização e convictos de sua função de intervir na realidade política que se apresentava, esses atores, ligados a diversos coletivos, constituíram um novo movimento social na cidade: o Se Vira Ribeirão. Tal movimento teve como primeira e urgente missão realizar uma Virada Cultural autônoma, dando uma resposta prática ao ridículo argumento utilizado pelo poder público de que o evento não se realizaria porque a cidade não tinha espaços para sediá-lo. Tínhamos sim as ruas, os parques e as praças públicas, e a vontade cada vez mais forte de ocupá-las.

Um desafio se colocava à frente daquele grupo que ia se constituindo e, aos poucos, se tornando em um movimento de grandes proporções, formado por uma incrível diversidade de ideias, experiências e desejos. Num período de pouco mais de três semanas foram realizadas diversas reuniões abertas, articulações políticas, captação de recursos, intervenções na mídia e muitas amizades entre gente que se encontrou pra nunca mais se separar, ampliando consideravelmente a quantidade, a qualidade e a profundidade do trabalho cultural na cidade.

Como conclusão desse intenso processo de organização, realizou-se nos dias 19 e 20 de maio de 2012 a 1ª Virada Cultural Independente com grande sucesso, a despeito inclusive da tentativa da prefeitura municipal, através de seus fiscais, de barrar o evento em cima da hora. Foram diversos espaços ocupados, entre eles as ruas José Bonifácio e Visconde do Rio Branco que formaram o que chamamos de Complexo Baixada. Neste local foram realizados diversos shows musicais e intervenções artísticas, mudando definitivamente o aspecto da paisagem de um espaço urbano que até então era visto como lugar exclusivo de prostituição, mendicância e uso de crack.

Além da baixada, ocupamos parques e outros locais públicos, gerando um processo popular de apropriação, experiências e reflexão. Centenas de artistas (em grande parte autorais) assumiram para si o desejo coletivo, a essência do movimento, e entraram na onda colaborativa doando o seu talento e ajudando a ressignificar o espaço urbano nos dias da Virada Cultural Independente. No final das contas, o que vivenciamos foi uma mobilização intensamente orgânica, pois cerca de 10 mil pessoas efervesceram as ruas com uma programação cultural composta por mais de 100 apresentações e que durou 36 horas.

Não é difícil perceber porque o Se Vira Ribeirão deu tão certo e porque em janeiro de 2013 iniciou-se a preparação para uma nova Virada. Os encontros humanos e as redes de colaboração resultantes do movimento levaram todos a acreditar que não se sai o mesmo depois de uma realização como essa. Além disso, o discurso político e conceitual por trás do movimento, seu fundamento básico, não parou de reverberar nas redes sociais, coletivos culturais, ambientais e políticos. Não houve desarticulação, pelo contrário, a rede se consolidou.

O grande diferencial do processo realizado no ano de 2013, que se iniciou com as reuniões abertas de janeiro em diante, foi o anseio coletivo de expandir esse modelo de ações culturais colaborativas para bairros da periferia. Ao contrário de 2012, quando a Virada foi organizada às pressas e em menos de um mês, tínhamos agora 4 meses.

Diante disso, chegamos ao consenso que o período deveria ser preenchido com outras ações descentralizadas e que terminasse convergindo ao centro nos dias 25 e 26 de maio, com a 2ª Virada Cultural Independente - tendo em vista que a Virada Paulista oficial era mais uma vez descartada no município, agora por falta de recursos. A partir dessa ambiciosa decisão, que nos exigiria muito afinco e criatividade, o trabalho coletivo voltou a ser intenso e permanente como naquelas semanas de maio de 2012.

Numa das primeiras reuniões do mês de fevereiro surgiu uma proposta de ação que foi aos poucos sendo lapidada pelo movimento: realizaríamos 1 ação no mês de março como manifesto pelo Teatro de Arena, que seguia com as obras de reforma atrasadas, e 4 ações temáticas em bairros periféricos, contemplando os quatro pontos cardeais da cidade. Os bairros escolhidos foram Quintino II, com a Ação Cultura de Rua, Branca Salles, com a Ação Ambiental, Jardim Paiva Arantes, com a Ação Ocupações, e o Jardim Antônio Palocci II, com a Ação Grito Negro.

Com criatividade e coesão, o movimento Se Vira Ribeirão realizou todo o planejamento feito em fevereiro. Antes da Virada, foram 5 ações no total, entre outras que foram elaboradas no meio do caminho para captação de recursos. As ações na periferia durante todo o mês de abril foram um grande acontecimento, pois estabeleceram ainda mais parcerias na cidade e ampliaram a legitimidade política do movimento. Nesse grandioso percurso, todos nós acabamos aprofundando a nossa percepção sobre a cidade, pois vivenciamos de perto e ao lado de agentes locais os desafios que a periferia enfrenta em seu cotidiano. Foram realizações emocionantes que transformaram espaços e pessoas, qualificando inclusive a nossa compreensão sobre o que significa ser movimento cultural e social.

Foi nesse ritmo de ações que, nos dias 25 e 26 de maio de 2013, realizamos mais uma Virada Cultural Independente. Um dos principais avanços que pudemos observar nessa 2ª edição foi a ampliação no número de colaboradores, um maior nivelamento em realção aos propósitos e conceitos do movimento e a estruturação de uma tenda de debates que dividiu o Complexo Baixada com os palcos 1, 2 e 3. Nesse espaço, realizamos discussões sobre cultura, educação, meio ambiente, permacultura, feminismo e cinema, propiciando uma maior reflexão sobre as causas que integram a diversidade do movimento.

Um detalhe importante a ser mencionado é a forma como a Virada foi viabilizada economicamente, já que não houve nenhum patrocínio empresarial ou apoio com recursos públicos (na verdade, a prefeitura chegou a oferecer um valor de 50 mil reais, o qual foi recusado pelo movimento por não estar de acordo com o que acreditamos ser uma política séria de fomento à cultura, ou seja, recusamos a política de balcão). Foram diversas ações de captação, que incluiu a venda de canecas e camisetas, ações culturais nos semáforos, brechó com roupas doadas, venda de alimentos e doações diretas durante o evento. Na questão financeira, realizamos a Virada com muita superação coletiva, entusiasmo e com a colaboração de muita gente que acreditou.

Ao final, o planejamento mais uma vez foi cumprido e a Virada foi um sucesso de público. Foram cerca de 15 mil pessoas atingidas, quatro espaços ocupados (Parque Maurílio Biagi, Mercadão, Cine Clube Cauim e Complexo Baixada) e mais de 130 apresentações durante 37 horas de programação, superando 2012.

Após a realização de mais uma edição da Virada Cultural Independente pelo movimento Se Vira Ribeirão, chegamos a alguns pontos importantes a serem discutidos: quais devem ser os rumos da Cultura? Qual o papel do Estado enquanto gerador de políticas públicas? Como devem proceder os agentes culturais, artistas, grupos e movimentos culturais (ou seja, a sociedade civil) em relação a tudo isso?

O que não podemos assumir, de fato, é o papel do governo enquanto fomentador, se estamos nos virando é para provar que temos recursos humanos, criatividade e profundidade o suficiente para pautar a cidade em que desejamos viver e ocupá-la com arte, lazer e reflexão. No entanto, queremos avanços concretos no campo institucional, pois não aceitamos que a Cultura e a sabedoria popular sejam submetidas permanentemente ao mercado e suas estratégias de seleção pelo consumo.

Nesse contexto, podemos afirmar que a vontade de compartilhar saberes num espaço essencialmente público é a prova de que há uma busca pela construção da cidade como um lugar fértil e que de fato nos pertença. Além disso, o desejo por um movimento cultural e artístico que não se desvincula da reflexão política mostra que há amadurecimento nas novas organizações sociais. Hoje olhamos para as ruas e sabemos que o dever pela qualificação destes espaços também é nosso, e a vontade de ser protagonista nessa disputa é maior a cada passo do Movimento.

É importante também observar que a forma de organização, horizontal e aberta, amplia a possibilidade de protagonismo social e autonomia entre os agentes, reunindo uma gama extremamente diversificada de pessoas e processos criativos. Este fato em especial foi capaz de gerar uma série de encontros humanos, produtivos no sentido de promover um engajamento coletivo e uma visão mais ampla da cultura como um ato necessariamente político. O uso da internet, principalmente pela rede social Facebook, também deve ser ressaltada como plataforma de interlocução permanente, fato que amplia a capacidade de apropriação e protagonismo, ditando boa parte do ritmo e dinâmica do processo coletivo.

A intervenção cultural e política que podemos vivenciar com o Se Vira Ribeirão não é efêmera, ela gera um sentimento de relação com a cidade mais efetivo que qualquer lei ou princípio moral. Aliás, essa mobilização social foi muito além do modelo de Virada Cultural oferecido pelo Estado, trouxe para o seio da sociedade ribeirãopretana a discussão sobre políticas públicas e gerou um gosto quase generalizado pela ocupação criativa dos espaços públicos. Agora resta ao movimento Se Vira Ribeirão defender e alimentar sua identidade original, que ainda tem muito a oferecer para a cidade e seus moradores, principalmente num contexto onde o poder público rasteja para acompanhar o ritmo de reflexão, produção cultural e ação política.

*Saiba mais sobre o Se Vira Ribeirão pelo site (sevira.org) e pela página oficial no Facebook (fb.com/seviraribeirao).
**Contato com o autor: vmbarros85@gmail.com ou fb.com/vmbarros85

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