Às nove e vinte e cinco da noite do dia 6 de setembro, o panorama nos arredores da Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, era, para sermos inteiramente fiéis à verdade, aquático. A chuva era farta, as poças que se formavam mais ainda. Sob os Arcos da Lapa, uma legião de jovens, homens maduros, famílias inteiras, na maioria suprema metidos em roupas pretas, protegia-se do temporal. A tenacidade na luta contra a chuva, aliada à paciência para com o staff, especialmente o de segurança da Fundição, tinha um motivo claro e definido: Slayer.
E podiam cair oceanos inteiros sobre a Lapa que nenhuma das quase três mil pessoas arredaria o pé dali. A noite de ontem era uma de celebração, de quase culto à mais antiga - e igualmente tenaz - banda de thrash metal nestes tempos. O Slayer é, descontados exageros, a banda que inventou o estilo e colaborou (muito) para que ele se tornasse popular e ainda enfileire multidões. De nada adianta fazer a estúpida estigmatização de que thrash metal é música pobre, coisa de jovens pouco instruídos, de cabelos compridos e camisetas pretas estampando logotipos esquisitos de bandas que você nunca ouviu falar. Fazer isso é ter preguiça de observar e pensar. O clima ontem era de reunião de uma tribo.
“Cair na porrada é bom”
Um primeiro dado interessantíssimo dessa tribo do metal, é que não há um tipo de platéia mais voraz e disposta a qualquer coisa para se divertir como ela. Observar uma platéia como esta é observar de certa forma um rito, no qual os tambores são tocados à velocidades inimagináveis nos mais altos volumes e onde o caos parece se instalar de cinco em cinco minutos. O componente “Disposição” é obrigatório, especialmente para aqueles que vão para o meio do ritual, ou melhor, para o meio da pista, enfrentar o “pogo”. A catarse é imprescindível.
A maioria dos caras que se aventuram naquelas enorme ‘rodas’ defronte ao palco sabe que pode sair dela sem um dente, com algum osso quebrado ou qualquer lesão do gênero. “Fazer o quê? Faz parte do lance.”, dizia um rapaz na saída do show, 18 anos, morador de Anchieta, enquanto colocava papel higiênico numa de suas narinas para o sangue parar de correr. “Cair na porrada é bom, libera a tensão. Num show do Slayer é obrigação cair na porrada”.
Para encerrarmos, infelizmente com o triste componente “Violência” - assunto nada acolhedor, é verdade -, e passarmos adiante com os shows da noite, vale uma nota utilidade pública: entre a considerável platéia que a Fundição Progresso recebeu na noite de 06 de setembro, chamava a atenção um grupo que, muito além de só querer liberar tensões, estava disposto à inspiradas sessões de espancamento coletivo. Por mais de três vezes, o singelo grupo – cinco caras, quatro deles com coletes dos Hell’s Angels – pegavam um sujeito qualquer que estivesse assistindo ao show e o espancava até a exaustão. O segurança mais próximo do grupo, no entanto, cochilava, encostado a um portão, a pelo menos três metros do grupo. É preciso sempre estar atento, o conceito de “diversão” é bastante subjetivo. Recomenda-se distância de tipos assim.
Ungodly e a brincadeira das camisetas
Faltando dez minutos para as onze horas (informações davam conta de que o Slayer começaria “pontualmente” à meia noite, mas era prudente duvidar), e os primeiros trabalhos tribais começaram. De Salvador-BA, o Ungodly (algo como “indeusável”) veio substituir o canadense Thine Eyes Bleed e aparentemente não comprometeu. Nos quarenta e cinco minutos a que teve direito, tocou somente material próprio (desconhecido da maioria suprema), servindo muito mais como animação de platéia do que propriamente como um open act. E pensar que doze anos atrás, no Imperator, o Slayer mereceu melhor tratamento, sendo precedido pelo Suicidal Tendencies.
Por falar em doze anos atrás, é hora de propor uma brincadeira para ser feita caso algum dia o leitor, pouco afeito às coisas do metal, decidir-se por uma incursão neste intrigante mundo em preto e preto: Observar as estampas das camisetas, ou como são chamadas pejorativamente, “camisetas de banda”. Alguns nomes são perfeitamente identificáveis, como Death, Exodus, Dorsal Atlântica, Possessed. Outros - Deicide, Impaled Nazarene, Emperor e, o meu favorito, Belphegor - são praticamente ininteligíveis, dada a forma estilizada em que são desenhados. Soa idiota, mas provoca risos fáceis se associada à cara do sujeito vestido com ela.
O misto requentado
Era de assustar. Pontualmente, e num show carioca podemos dizer “estranhamente”, apenas com segundos de atraso, o Slayer começou seu show de forma brilhante com “Disciple”, logo emendando, sob êxtase, em “War Ensemble”. E a guerra se instalou no “pogo”.
Os guitarristas Kerry King e Jeff Hanneman, responsáveis por pelo menos três dos dez riffs mais conhecidos do metal, realmente pareciam preparados para uma guerra. King, um nanico cheio de músculos, decorado com tatuagens singelas como “God Hates us All” (Deus nos odeia a todos), carregava uma grossa corrente presa à cintura e calçava botas, caneleiras e joelheiras. Seu colega apenas o imitava na proteção dos joelhos e canelas. Tom Araya, baixista e vocalista, de barba e cabelo semi-grisalhos, parecia mais preocupado em se divertir do que com tocar e cantar; disse pouquíssimas palavras – na maioria tímidos “Thank you” – e limitou-se ao berreiro usual. Mas era atrás da imensa bateria de dezoito peças (dois bumbos, setes tons, dois surdos, muitos pratos etc.) estava o que podemos chamar do “diferencial competitivo” da banda.
O heavy metal se transformou quando as batidas se aceleraram, fazendo os metrônomos torcerem seus ponteiros e os guitarristas acelerarem as palhetadas. E é Dave Lombardo, baterista da formação original do Slayer, talvez ao lado de Lars Ülrich do Metallica, o grande responsável por essa transformação, que acabou por originar as populares variações do estilo - o thrash e speed.
Bumbos à velocidade da luz, viradas que são símbolos da destreza de um ser humano tocando um instrumento musical, precisão. Durante o show da última quarta, era possível testemunhar a maior concentração de caras tocando baterias imaginárias no ar, tentando, e só tentando, imitar Lombardo, cuja técnica impressiona respeitados experts na matéria. Brigado com a banda por pelo menos dez anos, ele voltou para gravar o mais recente disco e para sua turnê promocional. Enquanto esteve de fora, o baterista montou o Grip Inc. e gravou dois discos, destacando-se o primeiro, Power of Inner Strength (1995).
Uma hora e trinta e cinco minutos de show e o Slayer soube explorar a totalidade dos seus hits, fazendo um panorama de toda a carreira sem insistir no mero intercalar “música velha-música nova”. Vinte e cinco anos na estrada não deixam dúvidas de que é melhor, ao invés de empurrar goela abaixo “as canções do disco novo”, fazer um apanhado generoso de sucessos. Estavam lá “Die By The Sword”, “Black Magic”, “Reign in Blood”, “Seasons in the Abyss”, “Hell Awaits” e, para o caótico final, “Angel of Death”. Nenhum sombra de dúvida quanto à qualidade delas e forma como foram tocadas.
Mesmo assim, para alguns, toda a apresentação do Slayer foi um amarrado de clichês do thrash metal, requentado tal e qual um misto de pão, queijo e presunto. “Achei meio empastelado, sem graça”, disse Leandro, 30 anos, músico, morador da Penha. Para ele, que não esteve no já citado show do Imperator em 1994, embora minta dizendo que esteve lá, faltou algo, o quê, não soube explicar. “A maioria aqui nem escutava metal quando os caras (a banda) vieram pela primeira vez. Me senti enganado”, completou ele, oferecendo em seguida o e-mail de contato de sua banda para uma entrevista(?). Pois é, Leandro, a vida, especialmente numa tribo, é assim: nem todos estão satisfeitos o tempo todo. Ontem, felizmente, eram poucos os que compartilhavam da sua opinião.
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