Till Eulenspiegel não vai à Rodoviária

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Daniel Ludwich · Brasília, DF
25/8/2010 · 18 · 2
 

As noites de inverno do Distrito Federal pedem no máximo um casaquinho. A noite de abertura de qualquer festival, no entanto, exige a presença de pelo menos meia dúzia de cachecóis. Enquanto o pipoqueiro procura um bom lugar para estacionar o carrinho e o público dá suas voltas em busca do ângulo perfeito, cabe ao cachecol a função de dar um aspecto – digamos – mais teatral ao negócio. Se a abertura, como aconteceu ontem, é cercada de Niemeyer por todos os lados, essa presença se torna ainda mais fundamental. Afinal, basta ouvir falar no tal “prazer de estar em cena” para o sujeito tirar os olhos das curvas do Museu Nacional e lembrar que está ali por causa do teatro – ou não, dependendo da lascívia de quem diz e da seca de quem ouve.

A verdade é que o público de todos os festivais é mais ou menos igual. Na abertura do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília não foi diferente. Engana-se quem acha que basta apresentar um espetáculo gratuito ao ar livre para atrair os milhares de usuários do terminal de ônibus vizinho, ou ainda os nacionalmente famosos frequentadores das cracolândias locais. Brasília é uma cidade com assentos marcados. Apenas 2 km separam a Rodoviária e o Congresso Nacional, mas esses dois mundos não se misturam. Ainda que fisicamente muito mais próxima da Rodoviária, a Praça do Museu Nacional, onde aconteceu a abertura, pertence ao mundo da Esplanada dos Ministérios. O público dos festivais também.

Todo esse introito seria absolutamente desnecessário se o espetáculo escolhido para abrir o festival fosse outro que não o do Grupo Galpão. Till, a Saga de um Herói Torto é a história de um enjeitado. Como Jó – também adaptado por Luís Alberto de Abreu, e com recursos muito semelhantes –, Till Eulenspiegel é vítima de uma dessas apostas que o Demônio gosta de fazer com Deus – e que o Altíssimo, por Sua vez, sempre topa. Dizia o Diabo que bastaria a Deus tirar do homem alguma de suas qualidades para que ele caísse em perdição. É escolhida, então, uma pobre alma que, desprovida de qualquer inteligência útil, é jogada à terra para ser um sujeito miserável na Idade Média. Pra piorar, Till se vê obrigado a negociar a sua consciência com o Demônio. Miserável, sem inteligência para fazer qualquer coisa que preste e sem as amarras do bom e velho sentimento de culpa, o rapaz está pronto para sair pela Alemanha aplicando golpes em nome da sobrevivência – e o público, pronto para absolvê-lo.

Personagem do folclore alemão, Till Eulenspiegel nasceu na Idade Média e suas histórias guardam muitas semelhanças com as de Gargantua e Pantagruel, personagens de Rabelais, também ricas em crítica aos poderosos e com forte apelo escatológico – este último bem representado pela cena em que um anão é enfiado dentro da mãe de Till para forçá-lo a sair, mas suavizado ao longo da montagem. A primeira lembrança ao assistir ao espetáculo, entretanto, é a de Ariano Suassuana, que usou muito dessas histórias para criar personagens como os do Auto da Compadecida, em um parentesco amplificado por algumas escolhas em comum. Além do tempero regional presente nos dois trabalhos e de uma escatologia mais palatável, Suassuna também faz uma defesa mais escancarada do seu João Grilo no final do texto – mas o faz no limite, e esse negócio de limite é sempre complicado.

Não seria exagero dizer que até os últimos dois – ou, vá lá, cinco – minutos o trabalho do Galpão havia sido quase irretocável. O ritmo do grupo é uma coisa que impressiona. As cenas têm o exato tamanho que deveriam ter, as músicas entram no exato minuto que deveriam entrar, as atuações são igualmente precisas. Algumas coisas incomodam, é verdade. Por exemplo, essa impressão de que o espetáculo seria exatamente o mesmo se fosse feito dentro de um teatrão. Trata-se de um espetáculo ideal para ser encenado em cima de um palco e de frente para uma plateia. Cheguei a ouvir alguém falar da coragem de se fazer um espetáculo de rua, como se aquele tablado montado em um lugar isolado para um público específico oferecesse algum risco. E olha que o problema não era nem a ausência de uma rua propriamente dita, com seus barulhos e passantes desinteressados. O que incomodava era o fato de o grupo não se relacionar com o espaço. Com exceção de uma meia dúzia de referências geográficas encaixadas com muito esforço no texto, se apresentado em um terreno baldio de uma cidade qualquer, o espetáculo seria rigorosamente o mesmo.

Mas eu falava dos últimos cinco – ou, vá lá, dois – minutos. Nas cenas finais, toda a crítica construída em cima do humor é substituída por uma pieguice desmedida. Explica-se o que havia de sugerido, escancara-se o que já estava claro. Desnecessário. Depois de aplaudir de pé a utopia, o mínimo que se esperava do público era que ele dobrasse à esquerda no Eixo Monumental e conclamasse os oprimidos para, juntos, invadirem o Congresso e tomarem o poder. Mas havia uma festa depois da apresentação. Ali mesmo, entre a Rodoviária e o Congresso Nacional. Próximo, um carro da polícia observava a saída do público. Estávamos, afinal, perto da Rodoviária. Dizem que é um lugar perigoso.

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Max Reinert
 

Muito boa leitura.
Aliás, essa relação com a rua do Galpão não é de hoje que tenho percebido!

Max Reinert · Florianópolis, SC 25/8/2010 23:51
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Thiago Skárnio
 

"Brasília é uma cidade com assentos marcados." Mandou bem cara!

Thiago Skárnio · Florianópolis, SC 26/8/2010 21:51
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