Eles e nós

Dalton Valério - Divulgação
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Daniel Ludwich · Brasília, DF
8/9/2010 · 13 · 0
 

Luzes da plateia ainda acesas, os dois atores surgem no palco. Enquanto o público lá embaixo ainda caminha por entre as poltronas com o ingresso na mão, Emílio de Mello e Fernando Eiras cumprem, ao som de Lesley Gore, aquele ritual que costuma se dar com as cortinas fechadas. De um lado, Eiras confere a arrumação de um cubo sobre o qual estão dois copos cheios d’água e alguns poucos objetos de cena. Com um cigarro apagado, o ator passa a sua primeira cena em voz baixa. À sua esquerda, do outro lado do palco, Mello bebe água de um copo que estava sobre um cubo igual ao de Eiras. Depois de um gargarejo, ele estica os braços em um pequeno alongamento. Entre os dois, apenas duas cadeiras e um casaco jogado no chão. O sinal toca pela última vez. A luz da plateia se apaga.

Já não se ouve mais a voz de Lesley Gore quando Mello atravessa a plateia do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília para fechar a cortina que dá para a saída. A música agora é de Maria Callas. Observado pelo companheiro de cena, Eiras fuma o cigarro enquanto se movimenta pelo palco do teatro do Centro Cultural Banco do Brasil. Depois de ouvir um barulho de acidente de carro, o ator veste o casaco que estava no chão e começa a dar o seu texto. Alguns comentários provocam risos; a fumaça do cigarro, tosses. Eiras aproveita o gancho e apaga o cigarro com estardalhaço. A cena segue.

__ Você acha bom começar assim?__ interrompe Mello.

A luz da plateia se acende.

__ Começar o quê?

__ O espetáculo.

__ Isto não é um espetáculo. É uma peça de teatro__ corrige Eiras.

Com ar de deboche, Mello pergunta a uma mulher da plateia o que ela havia vindo fazer ali.

__ Assistir a uma peça de teatro__ responde.

__ E alguém sabe me explicar a diferença entre peça e espetáculo?

Os primeiros minutos de In on it preparam o espectador para o pior. A presença da dupla de atores zanzando pelo palco antes do início oficial do espetáculo reaviva antigos traumas. “Já vi que vão sentar no meu colo.†Aquele cigarro ao som de ópera, cheio de pensamentos profundos, também não ajuda. O texto inicial exala pretensão por todos os poros. E quando começa o metateatro, então? “Mas será que esse pessoal só sabe falar de teatro? Por que não montam uma peça sobre bancários?†As tentativas de relação com o público soam forçadas e trazem a sensação de que falta pouco para o pesadelo ficar completo. “Sabia, sabia. Não devia ter sentado perto desse sujeito de saia.†Eis então que alguma coisa acontece. Sim, porque de repente você esquece aqueles efeitos sonoros discutíveis – o acidente, as batidas do coração, os talheres do restaurante, tudo vem acompanhado pelo seu barulhinho característico –, as risadas provocadas pela forma como os atores pronunciam os nomes anglófonos perdem a importância. De uma hora para a outra, você descobre um grande espetáculo. E, convenhamos, isso não é pouca coisa.

A ação se passa em três planos. No primeiro, os atores-personagens discutem a montagem de uma peça de teatro escrita por um deles. No segundo, ocorre a encenação dessa peça. No terceiro, há a lembrança do relacionamento amoroso entre os dois personagens. A direção de Enrique Diaz optou por marcar essas mudanças de plano com a luz, não deixando muito espaço para zonas híbridas – e como seria bom se nos tivesse sido dado um pouco mais de confusão. O plano da encenação ainda é marcado pela própria atuação dos personagens: salvo a cena entre Ray e Lloyd, nesse plano eles nunca se relacionam diretamente. E o que à primeira vista parece distância, transforma-se em proximidade à medida que nos familiarizamos aos atores-personagens. Outra firula cênica interessante está na opção de os dois nunca se tratarem pelo nome, o que consegue dar alguma graça ao metateatro.

O que torna o espetáculo fundamental, no entanto, não são os tais planos, muito menos o metateatro ou o número de personagens interpretado por cada ator. Assim como as qualidades do texto do canadense Daniel MacIvor também não se encerram na sua estrutura ou em algumas eventuais surpresas no enredo. In on it tem aquela qualidade rara de nos comover verdadeiramente. Mas não se trata de um engasgo em uma cena isolada. É muito mais compartilhar aquele frio na barriga de um flerte, rir de uma briga imbecil que poderia ser nossa, lembrar de uma história engraçada que a gente vive contando para os amigos. Aquela relação inicial com o público dá lugar a algo muito mais forte que uma troca de olhares ou meia dúzia de gracinhas. Um sujeito comenta alguma coisa no ouvido da namorada. Ao lado do rapaz de saia, uma menina torce em voz alta. “Beija, beija.â€

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