O espetáculo Dizer Chuva e que Chova, do grupo basco Kabia, era um dos mais esperados do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de BrasÃlia. Afinal, as fotos do trabalho prometem, no mÃnimo, um grande impacto visual. Mas basta os atores darem os primeiros passos para ficarem claros os principais problemas do grupo. Ao som de um irritante barulho de pássaros, corpos sem nenhuma expressividade caminham de um lado para o outro no que seria o pátio de um edifÃcio. Nos próximos 70 minutos, os representantes do PaÃs Basco abusariam das mais variadas firulas cênicas na tentativa de levar ao palco da Sala Martins Pena, no Teatro Nacional, o universo poético de Joseba Sarrionandia.
Não foram poucas as tentativas de se atingir visualmente a poesia – em alguma delas, a pobre chegou mesmo a ser ferida de morte. Logo de inÃcio, o palco é invadido por figuras de chapéu e capote. Uma delas caminha com um livro que, sem a ajuda das mãos, sustenta-se aberto à sua frente. Outra, para próxima à s duas cadeiras à direita do palco e, de costas para a plateia, começa a fazer xixi. Mas não era um xixi qualquer: o jato do xixi poético saÃa por trás. À esquerda das cadeiras, três janelas suspensas completavam o cenário. Atrás de cada uma delas, uma mulher cujo vestido branco de mais de dois metros tocava o chão. Com pulmões lÃricos, as três seriam as responsáveis pela maioria das músicas do espetáculo. A poesia de Sarri se revela, assim, extremamente aguda e parecida com Enya.
Na condução do espetáculo, um sujeito e sua sombra – que, diga-se, eram os únicos que conseguiam mostrar algum domÃnio corporal. Dentro da estrutura montada por Borja Ruiz, os dois apareciam a cada bloco de poesia visual para explicar o que poderia não ter ficado muito bem entendido. Tinham, portanto, a dupla função de marcarem a linearidade do espetáculo e serem redundantes. É verdade que, tirando o barulhinho constrangedor que fazia ao dobrar o pescoço, o dono da sombra não tinha grandes problemas em dar o texto de forma convincente. Nas poucas vezes em que essa responsabilidade era passada a outros atores, no entanto, o corpo deixava de ser o maior problema da montagem.
Mas eu falava em firulas cênicas. Pra começar, existiam os guarda-chuvas. Estão lá, de todos os tipos e manipulados de todas as formas – ora quicando como uma bola, ora pulsando como um coração, ora como tela para um jogo de sombras. Depois de um trovão, eles aparecem em miniatura e permanecem ali por um tempo, suspensos por fios. Há, também, uma cena em que cai areia de cima dos guarda-chuvas, e outra em que cai chuva de dentro dos guarda-chuvas. Engana-se, entretanto, que pensa que os recursos do Kabia se resumem a uma dúzia de sombrinhas. Há um trecho em que a chuva sai diretamente dos braços dos atores enquanto o trio de Enyas toma banho embaixo das janelas. Além disso, seria injusto esquecer a neve artificial, ou ainda o componente pirotécnico. Enquanto dá um texto sobre o tempo, uma atriz tem em seu pulso um relógio de fogo – que se apaga assim que o texto termina. Em seguida, temos um chapéu de fogo, um leque de fogo e um ioiô de fogo. Imperdoável, apenas, que o ator que manipulava o ioiô não fizesse manobras básicas como o cachorrinho ou o dorminhoco.
Trata-se de um espetáculo construÃdo em cima de imagens – e não há dúvidas de que o Kabia realmente conseguiu tirar algumas belas fotos da montagem. O problema é justamente que, ao vivo e em movimento, essas imagens não estão à altura das fotos. Se isso já fica claro no simples caminhar dos atores, torna-se dramático quando surgem arremedos do que deveriam ser partituras de dança contemporânea. Enfim, um bom espetáculo para decorar catálogos.
Finda a apresentação, a plateia dá inÃcio a palmas burocráticas. Mas alguém se levanta e grita – “bravo!â€. É o bastante. Como se desperto de um transe – ou comovido por perceber que ainda há quem grite “bravo†– o público passa a ovacionar de pé o grupo do PaÃs Basco que, com um espetáculo livremente inspirado na obra de um poeta fugitivo condenado à prisão por pertencer ao ETA, representava a Espanha homenageada pelo festival. Não havia entre os aplausos nenhum cachecol. A noite abafada de sábado obrigou a troca do assessório fundamental por vestidinhos, minissaias e shortinhos. Não foi de todo uma noite perdida.
Confira a programação completa do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de BrasÃlia
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