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Poses

Divulgação
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Daniel Ludwich · Brasília, DF
28/8/2010 · 27 · 2
 

Já são quase 21h quando o público é convidado a entrar no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil. No fundo do palco, uma mulher vestida de negro anda de um lado para o outro em passos lentos e compenetrados. Por vezes, a figura se confunde com o pano preto que a cerca, e desaparece – para reaparecer adiante, olhando através de uma janela que não existe. O público da terceira noite do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília não se deixa comover por aquela presença funesta. Pelo menos, não enquanto a luz está acesa.

__ É a fila F?

__ C18!

Próximo dali, um rapaz da organização pede para um pequeno grupo conversar um pouco mais baixo. Uma senhora se ofende, reclama para os amigos.

__ Que absurdo! Ontem tinha uma criança enchendo o saco do pai durante a sessão e ninguém falou nada. Não quero nem saber.

O teatro vai enchendo e nada de o pessoal se acalmar – muito pelo contrário. O tom aumenta ainda mais. Amigos se reencontram, conhecidos se cumprimentam. “E o Felipe? Não veio?” O sinal toca algumas vezes, mas o público não se emenda. Risos, abraços, cachecóis esvoaçando ao sabor de um vento e um frio imaginários. Com ar grave, a atriz Trinidad González continua a sua caminhada entre a luz e a sombra. À frente dela, um tablado de não mais que 5 m². Sobre ele, um tapete vermelho, uma cadeira, uma garrafa, um lenço, dois copos e um pequeno refletor, que, manipulado pelos atores, fará toda a iluminação da peça. Aquela atuação do público não havia sido ensaiada com Guillermo Calderón, diretor do grupo chileno Teatro en el Blanco. Mas bem que poderia.

Neva é um espetáculo sobre poses. Afinal, teatro é pose. Atores são poses. Lembro de uma professora de português que recrutava alunos para o grupo de teatro do colégio. Dizia a mestra que quem entrasse para o grupo passaria a ser notado na hora do intervalo. “Vocês precisam ver como os nossos atores chamam atenção!” Dispensável dizer que a mulher era uma imbecil, mas notem a riqueza do olhar. Do alto de sua babaquice, ela definia o padrão psicológico de toda uma classe. Como aquela menina do ombro nu que chegou ao CCBB usando um cachecol – e que o tirou assim que as luzes se apagaram.

Em cena, três atores interpretam três atores que se encontram para ensaiar O Jardim das Cerejeiras, de Anton Tchekhov. O ano é 1905 e o lugar é São Petersburgo, cidade às margens do rio Neva que foi capital do Império Russo até a revolução de 1917. Entre eles está Olga Knipper, atriz convidada da companhia e viúva do autor, falecido seis meses antes. O resto do grupo não vai chegar. Fora do teatro onde eles ensaiam, a cidade vive o Domingo Sangrento, episódio em que uma manifestação pacífica foi brutalmente reprimida pela guarda do czar Nicolau II.

A primeira quebra no espetáculo acontece quando descobrimos que todos aqueles gestos graves não passavam de encenação, pose. Antes mesmo de a peça começar, já era Olga Knipper atuando. Aquela atuação contida, então, dá lugar a arroubos de exagero. Insatisfeita, a atriz tem uma crise: começa a prever em detalhes a estreia da próxima semana, dos comentários maldosos aos falsos elogios. Em meio a isso, o contexto da história vai sendo apresentado em ritmo de Wikipédia – o que voltaria a se repetir no correr do espetáculo, nem sempre com resultados tão divertidos.

A ação se passa toda em cima daquele pequeno tablado. Enquanto esperam os companheiros que não vão chegar, os três brincam de atuar. Começando com a morte de Tchekhov, encenada em diferentes versões, o jogo entre os atores vai se tornando mais complexo, a ponto de eles mesmos não reconhecerem mais os limites entre o que é atuação e o que não é. Entre uma cena e outra, eles conversam sobre atuação, discutem política e, como não poderia faltar, falam mal dos outros. A economia de elementos ressalta ainda mais o exagero da atuação dos personagens – que não é um exagero dos atores. Eles, os atores-personagens, são poses que se desdobram em outras poses.

A montagem é centrada no texto poético, irônico e – como todo o resto – exagerado de Guillermo Calderón, bem representado pela falsa declaração de amor feita por um dos personagens: “o órgão mais importante do meu corpo é o apêndice, e quero enfiá-lo no seu rim”. Há quem prefira o trecho final, dito pela atriz que não gostava de sexo. A jovem revolucionária declara a inutilidade do teatro e sai desancando todo mundo, dos atores ao público. Seria um daqueles momentos que revelam o tal caráter político do espetáculo. Mas era só mais uma pose. Como havia antes a atriz vaidosa, o ator boa-vida e a menina do ombro nu que usava cachecol.

Confira a programação completa do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília


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Oona Castro
 

Não entendi e gostei ;-)
Gostei da confusão ator-personagem-público.

Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 28/8/2010 17:37
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Cezar Ubaldo
 

Uma bela e completa análise do espetáculo,observando desde a construção dos personagens até a representação dos atores,passando pela visão que cada um tem do próprio texto.

Cezar Ubaldo · Feira de Santana, BA 30/8/2010 10:20
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