Tu, Robô

1
Zeca Oliveira · Porto Alegre, RS
9/3/2012 · 0 · 1
 

Tu, Robô

Qualquer um que viva o cotidiano do Twitter sabe que esta rede social transformou-se numa inestimável ferramenta de trabalho para os jornalistas. A discussão sobre até que ponto um jornalista vinculado à uma linha editorial tem liberdade para expressar sua opinião pessoal no Twitter já esteve recentemente em pauta e ainda é objeto de muitas discussões, especialmente quando a opinião do jornalista contrasta com a linha editorial da instituição para a qual trabalha. Mas para além deste enfoque, talvez pela própria natureza da sua atividade, os jornalistas estejam condenados a manter sempre a lucidez com relação àquilo que escrevem nas redes sociais, especialmente diante da tendência cada vez maior das pessoas seguirem jornalistas e blogueiros, em detrimento das organizações de mídia oficiais.

Na condição de ex-assinante da revista Carta Capital e ex-seguidor do jornalista Antônio Luiz Costa no Twitter, posso afirmar com certeza que ele é um dos tantos que, inequivocamente, utiliza aquela ferramenta como uma extensão do seu trabalho. Difícil admitir que a esmagadora maioria dos seus seguidores também não identifique em suas palavras o editor de jornalismo internacional da revista Carta Capital, publicação de viés à esquerda e que ganhou notoriedade, entre outras coisas, por opor-se ao jornalismo de acusações levianas em prol do debate racional. Ou como o próprio site da revista esclarece: “Alternativa ao pensamento único da imprensa brasileira, nasceu calcada no tripé do bom jornalismo baseado na fidelidade à verdade factual, no exercício do espírito crítico e na fiscalização do poder onde quer que se manifesteâ€.

Nesse sentido, não há como negar a perspectiva neurotizante que emerge da tentativa de conciliar o jornalista Antônio Luiz Costa com o deseducado e insensato cidadão Antônio Luiz Costa, enquanto artífices, ambos, de uma sociedade saudável, democrática e civilizada. E quem ousaria negar, ainda, que a falta de compostura de Antônio Luiz Costa no Twitter desmerece o jornalismo contra-hegemônico e investigativo da Carta Capital?

Explico-me. Na sexta-feira, 02/03, ao abrir a página de um jornal do dia, tomei conhecimento de que um fato novo ocorria na crise entre o governo e os militares. Supostamente, um novo documento havia sido elaborado, no qual constava, explicitamente, a declaração de que os militares não reconheciam a autoridade do Ministro Celso Amorim. A notícia, sem dúvida alguma, sugeria um agravamento da crise pois a interpretação de que os militares não reconheciam a autoridade de Amorim passava agora à categoria de fato documentado. Ocupado, simples e descompromissadamente tuitei:

“Militares dizem que não reconhecem a autoridade do ministro da Defesa, Celso Amorimâ€. Hummmmm.

A resposta do jornalista, dirigida a mim e à outra pessoa, (também docente do ensino superior), foi:

“Ué, vocês passaram as últimas semanas em Marte?â€

Como assim Antônio Luiz? Grosseria gratuita com quem já contribuiu para pagar o seu salário?

“Últimas semanas†já seria um óbvio exagero, já que a crise havia tomado corpo na última semana. Mas independente de datas, sucessão dos fatos e de quem estava mais informado é flagrante a postura deseducada, arrogante e equivocada do jornalista, pessoa que desconheço, sequer é meu seguidor e não deveria, portanto, interessar-se pelo conteúdo da minha TL. Nunca lhe fiz concessões de intimidade como esta. E não é a primeira vez que vejo o jornalista constranger pessoas no Twitter sem qualquer motivo justificável.

Das duas uma: ou Antônio Luiz Costa me confundiu com algum colega de profissão e me cobra rigores de jornalista ou o jornalista, que referiu-se a mim como um “sem-noção†pelo suposto mau uso dos comandos do Twitter, seja ele mesmo um sem-noção para entender o Twitter como um todo.

As justificativas do jornalista para tamanha indelicadeza são ainda mais lisérgicas.

“Só achei graça desse “hummm†como se você fosse o primeirão a pensar sobre o assunto. Só mostrou que está bem mal informado.†(sic)

(Me pergunto como eu poderia estar “bem mal-informado†ao postar uma informação destacada em um jornal do dia).

“Sinto, não acho especialmente louvável tentar parecer sabido e atualizado no TT quando vinte milhões tentam fazer mesmo.â€

Ao que tudo indica, Antônio Luis Costa desenvolveu uma nova e estranha capacidade paranormal de interpretação que bem poderia chamar-se “Percepção Fonética Extra-sensorialâ€. Funciona mais ou menos assim: quando ele lê coisas como “hummmmâ€, ele imediatamente ouve a exata entonação que o autor deu à expressão e descortina suas intenções, analisando-as sob a perspectiva de uma psicanálise de botequim.

É realmente difícil de admitir que palavras tão fúteis e que tamanha leviandade tenham origem em alguém que, além de ocupar a posição que ocupa na Carta Capital, se reivindica de ser versado em ciência. Qualquer pessoa com um mínimo de formação científica sabe que um dos pressupostos mais importantes e óbvios do método científico é o de que só podemos avaliar a validade de uma proposição com base nos fatos e no raciocínio que a sustentam. Pois todos os fatos e raciocínios contidos no meu TT são: “hummmmâ€.

Ironicamente, tivesse eu a mesma propensão abjeta daquele jornalista para divagações baratas sobre egos e vaidades, teria em suas palavras elementos verdadeiramente concretos para reflexões mais consistentes, que iriam da impossibilidade do convívio social à insatisfação sexual. Mas fazer isto, obviamente, seria contradizer-me.

Quanto aos seus livros de ficção científica - “não li e não gostei†- a pergunta óbvia que me ocorre é simples: com quase 500 títulos de Isaac Asimov à disposição, por que diabos eu leria Antônio Luiz Costa?

Talvez seja esta a origem do problema. Antônio Luiz Costa transita entre o jornalismo e a ficção científica; entre o real e o imaginário e, ao que tudo indica, não raro, confunde-os. Imagina-se déspota de uma verdade subjetiva, num universo paralelo onde, com a eficiência brusca de um autômato mal programado, intui evidências inexistentes, em detrimento da verdade factual mais óbvia. Mas para aqueles que vivem com os pés firmes na realidade, Antônio Luiz Costa soa apenas como um mero marqueteiro do próprio discurso.






compartilhe

comentários feed

+ comentar
marinildac
 

Que pessoa desagradável... A grosseria cresce na internet.

marinildac · Teresópolis, RJ 9/3/2012 13:19
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados