UM ELEFANTE ROXO INCOMODA MUITA GENTE

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Leandro Lopes · Belo Horizonte, MG
8/10/2006 · 12 · 0
 

As redações brasileiras estão empestadas. E o pior? O pior é que nem sempre percebemos. Cansamos de ouvir colegas reclamar da presença desta figura, mas enquanto o Elefante Roxo não pisar no seu pé, ele não existe. Mas chega o maldito (ou bendito?) dia em que você vira alvo das trombas maquiavélicas. Aí meu amigo, você sente o peso da fera e começa a perceber sua estratégia. A partir disso, sua vida profissional começa a desmoronar-se. E nem adianta dizer: ‘Ufa! Tô fora. Não trabalho em redação! Não sou jornalista’. Engana-se quem pensa que o Elefante Roxo só habita os veículos de comunicação. Ele está em todos os lugares. Olhe melhor para seu colega ao lado e depois me conte.

Para melhor descrevê-lo, passei toda a última semana observando um. O Elefante Roxo não anda na contramão, nem passa sinal vermelho. Ele fica na torcida para o guardinha anotar a placa de quem faz isto e diz: ‘toma, seu otário!’. Ele não corre no trânsito, mas anda a 200 por hora no trabalho. Se o outro colega organiza-se a 120, é adjetivado de tartaruga e o Elefante Roxo faz questão de contar isto ao chefe: ‘nossa! Fulano de tal é uma lentidão de um molusco gastrópode’.

Ele é roxo para chamar a atenção. Chamar a atenção é um dos seus objetivos vitalícios. Dormindo, transando, bebendo, ao telefone, e principalmente, trabalhando. Diz odiar as câmeras, mas não perde oportunidade de dar aquela atravessadinha, todo penteado, perfumado.

Elefante Roxo quer ser neoliberal, mas odeia idéias novas, revoluções. Diz amar o comunismo, mas só ouviu falar, superficialmente, do regime cubano de 1970. Porém, banca o culto na frente do chefinho que ele tanto detesta e que tanto queria o lugar. Fala em fazer sempre diferente, diz que vai fazer e acontecer na frente do patrão, mas sempre se acomoda quando ele sai da sala. É faraônico na teoria, mas insignificante na prática.

O Elefante Roxo desconfia de quem pensa diferente, milímetros que seja. Quer mandar em tudo, mas só se o chefe estiver olhando. Se não, não se dá ao trabalho. Vive gritando que quer solução para isto e para aquilo, mas os problemas são suas fontes de riqueza... sem eles, o Elefante Roxo não teriam do que reclamar.

Essa espécie dorme, em média, seis horas por dia e reclama dezoito. Isso quando seus sonos não seguem a rotina. Reclamar é a sensação de liberdade, de amor ao mundo. Reclamar é mais do que um simples objetivo, é a razão de viver do Elefante Roxo... ele é detentor de uma verdade que ele nunca contou e nunca irá contar para ninguém. Talvez nem ele tenha certeza dela.

Seu prato principal é a desgraça do seu colega. É o texto mal apurado, a informação não checada. Ouvir o chefe gritar com outro jornalista é a satisfação de maior grau de um ser desta espécie. É um sorriso maroto no canto da boca. O mal do mundo é o seu combustível.

O Elefante Roxo tem certeza que é proprietário exclusivo da dor. Quem ousa tratar a miséria como algo possível de ser resolvido será o seu inimigo mortal. Se pudesse, uma copa do mundo nunca teria campeão. A alegria e a amnésia brasileira causada em dias de vitórias nos gramados é a sua injeção de desânimo. Nada que traga felicidade é positivo, na percepção desta figura.

Outro sério problema do Elefante Roxo é a simplicidade. Para ele, não é viável calcular dois mais dois. É preciso tirar a raiz quadrada, a hipotenusa, equacionar o processo, fazer uma tempestade num copo d’água, até chegar ao resultado: quadro. Enquanto soma, divide e multiplica, ele reclama, reclama e consegue as atenções. Mostra que é bom porque chegou a um resultado. A ordem dos fatores não altera o produto, lembra? Então esqueçam. Para o Elefante Roxo, o processo precisa ser demorado, difícil. Enquanto isto, ele mostra ao chefe sua capacidade fantástica de calcular dois mais dois.

Praticidade é suicído. Equação ditatorial é nascimento. A não ser quando o chefe está longe. Aí pode tudo. Quando o chefe chega, ele explica todo o processo, mostra o suor do rosto e diz: ‘já resolvi isto e aquilo’. Fala mais com o patrão do que a esposa do cara. Quando lhe é apontado falhas, logo se esquiva e acusa o colega, principalmente os estagiários. Ah! Os estagiários, esses são sempre os culpados. Apontar os erros dos outros é com o Elefante Roxo mesmo. O dia fica lindo!

Pelo que percebi, gente dessa espécie tem uma missão: mostrar que é sempre melhor do que os outros. Mesmo que não seja. E o pior é que quase nunca são. Mas, se o chefe achar que é, já basta. Ele nunca lê. Mas diz conhecer o positivismo, iluminismo. Finge saber do Aurélio até Harold Bloom. Não perde a oportunidade de dizer que leu Ulisses, Dom Quixote... mas nunca os viram mais ou menos gordo.

Ele fica feliz até com a queda da bolsa de valores. Tudo que é negativo, tudo que é fracasso para os outros, é motivo de alegria para o Elefante Roxo. Se ele puder resolver os erros dos outros, aí ele solta fogos logo depois. Conta para uma dúzia de pessoas quem errou o quê. E espalha para toda a humanidade quando, como, onde e porque consertou os erros, mesmo que não tenha consertado.

O pior é que a sua tentativa de mostrar que é melhor do que Deus e o mundo, funciona. Todos acham o Elefante Roxo capaz, inteligente, politizado, bonito, culto. O único defeito que apontam é o autoritarismo. O Elefante Roxo acha que ser autoritário também é qualidade, se não fingiria ser vassalo e não senhor feudal.

Se liga, rapaz! Olha o Elefante Roxo contanto ao chefe que você está lendo blog, ao invés de trabalhar.

Abram os olhos...

Originalmente publicado no blog: http://mascandocliche.zip.net

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