VÃO DE ALMAS, UM MUNDO À PARTE

Sinvaline Pinheiro
Zezinho tocador de sanfona pé de bode
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Sinvaline · Uruaçu, GO
31/7/2013 · 2 · 0
 

Kalunga é uma comunidade de quatro mil negros que habitam a região da Chapada dos Veadeiros e ocupam um território que abrange parte dos municípios de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás se dividindo em regiões: Contenda e Vão do Kalunga, Vão de Almas, Vão do Moleque, Ribeirão dos Negros ou Ribeirão dos Bois.A região é formada por serras e dificil acesso, local apropriado para a construção de um esconderijo, por isso identificada como a região dos quilombos.


No passado os negros fugindo do regime escravo escolhiam locais seguros para construir suas moradas ou seja, os quilombos. Desde o ano de 1991 toda essa área foi reconhecida pelo governo como sítio histórico por abrigar o Patrimônio Cultural Kalunga.

O Vão de Almas é sem dúvida a parte mais isolada, a dificuldade de acesso se confunde e talvez até tenha colaborado para a preservação do cerrado e sua grande biodiversidade. As familias vivem de maneira bem tradicional ainda sem a energia eletrica e o meio de transporte é o burro, cavalo, motocicleta ou mesmo a pé enfrentando a distancia de 90 km até a cidade mais perto que é Cavalcante.

Zezinho um kalunga tocador da sanfona pe de bode, fala da vida dificil de sua comunidade que vive isolada numa região que não é tão longe de Brasilia, a capital federal.

- Nois vive isquicido, se adoce um ou a cobra morde, até chegar no ricurso já morreu!

Dona Daindia, uma líder da região, afirma que graças ao evento Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros , os kalungas do Vão de Almas se tornaram conhecidos. Desde o primeiro evento eles tem uma participação especial com comidas tipicas, danças como a Sussa e com o cortejo que já se tornou tradição no evento, o Reinado Kalunga.

O modo de ser e viver desse povo é especial e único, destacando o dialeto, o preparo das raizes para curas, as danças e muito mais sua coragem para enfrentar os desafios de uma comunidade que ainda vive praticamente isolada do mundo moderno.

Algumas frases marcante:

- Esse país nunca aceitou nossa gente pruquê nois nunca baixa a cabeça.

- Esses prefeito eles acha que sabi tudo, acha que é prefeito, mas elis é imprefeito.

- Nois bota a rudia na cabeça e corta o chão...

- Nossas palavra é mais diferente, mais grego que os outro...

- Tô nem ai, probrema seu, é coisa que o kalungueiro gosta de dizê...

Afirmam que sua historia não tem muita coisa boa, são histórias da roça mesmo, de cada dia de um povo que vive dentro do mato plantando a roça e criando alguns animais para viver, segundo eles, um sistema diferente de um povo isolado, a não ser quando arrumam as estradas, alguns carros conseguem chegar até lá, porem com dificuldade.

- Nossa histora é uma histora que repete tudo sem uma miora, incrusive discubri aqui nesse incontro que as coisa la em casa num chega no Vão de Alma, eu ouvi dizê aqui numa roda de prosa uma moça falando de nossa região assim: Kalunga é Vão de Alma, Engenho. Num pode dizê isso, Engenho num é Vão de Almas, tem que separar as coisa, por isso nois fica sem receber ricurso.

Dona Daindia participa de todas as rodas de Prosa, reuniões nos Encontros de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, faz questão de participar e ainda incentivar para que seu povo participe tambem, segundo ela é um meio de descobrir as coisas que podem ser uteis a sua região.

A comunidade do Vão de Almas hoje já recebe alguns recursos como escolas melhores, sinal de celular e outros, porem ainda falta muito a ser feito, mesmo assim Zezinho e dona Daindia Kalunga comemoram:

- Hoje nois ja vê muita mudança, algum tempo era colegio de paia, nois fazia o banco, hoje tem colejão grande e tá construindo mais no Coco, na Lagoa, na Parida, e agora vai construir outro na escola Santo Antonio, é as vantage que nois tá achano lá. É um absurdo de bondade!

As escolas do Vão de Almas são estruturadas com luz a base de bateria solar, a água é puxada do rio atraves de uma bomba e os professores são os próprios kalungas que estudam e voltam para a comunidade.

A comunicação ainda é difícil, o sinal de celular só pega nas quatro casas que possuem antena, e isso auxiliou tambem o sinal para outros usuarios. Antes eles andavam até uma légua para conseguir falar no celular. Para as residências a água vem do rio transportada em potes ou latas, geralmente é um trabalho das mulheres. Afirmam ainda ter uma água boa:

- Por inquanto nois busca agua no rio, o povo que analisa o ambiente diz que nossa água não tá poluida ainda , por aqui nois num tem soja, tudo que pranta é puro sem veneno e dismata só de machado, nao tem ninhuma área que já passou máquina, nois usa só roça de toco...

Assim é a vida de uma comunidade que apesar da distância dos recursos modernos, vivem sempre em festa. Tudo é motivo para comemorar. A reivindicação por estradas, energia elétrica, saúde pode ser atendida logo ou demorar alguns anos, não se sabe, não há previsão. E assim o povo do Vão de Almas continua seus cantos, a dança da Sussa, seu dialeto único e muito mais sua alegria de viver, com a esperança de futuro melhor.

Um futuro que dona Daíndia tem dúvidas de como será quando o progresso chegar:

- Nois pensa quando chegar a rodage, as istrada nois vai ser incomodado, eu tenho medo...

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