A Cinderela de Nélson Rodrigues - Parte I

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André Soares · Joinville, SC
7/12/2011 · 0 · 0
 

Claudete acordava todos os dias antes das galinhas. Punha a roupa no tanque, dava de comer ao cachorro e comia meio pão dormido com manteiga e banha curtida antes de subir no lotação em direção ao trabalho.
Na viagem de Bonsucesso à Cinelândia, passava sua vida a limpo e sonhava que, um dia, o homem de sua vida ia chegar ônibus adentro e possuí-la ali mesmo, na frente do trocador e das normalistas, que há essa hora corriam para o colégio.
Todavia, esses devaneios pueris de Claudete eram produto de sua imaginação, férteis de tanto ler as fotonovelas de que tanto gostava. Mas ela era uma mulher séria, de uma seriedade paroquial. Nunca ira permitir uma lassidão dessas.
- Nunca! - pensou alto
Um grupo de meninos imberbes, em mangas de camisas, começou a rir e, antes que começassem a saracotear com ela, Claudete viu que, ainda bem, havia chegado ao seu ponto.
O dia estava quente, mesmo de manhã. Um dia de derreter catedrais. Foi com esse calor, que Claudete não sabia se era do clima ou de sua ebulição interna, que ela abriu a porta da casa das três irmãs solteironas, onde trabalhava como doméstica.


Claudete trabalhava com essas irmãs por mais tempo do que gostaria de lembrar. Nair, Cleide e Dagmar nunca haviam se casado. Não era de se espantar. Além de feias, cheiravam a ração de gato.
Mas não era isso que a incomodava. Era a forma cínica e muitas vezes cruel com que tratavam Claudete que a deixava mais magoada. Sistemática e gratuitamente, sobravam comentários que nunca a deixavam esquecer sua origem humilde.
- Não vá sujar esse seu vestido de chita. - exclamava Nair.
- Eu detesto essas mulheres que pintam a unha do pé. Ainda mais de carmim. - vociferava Dagmar.
- Nada como morar perto do Municipal. - regurgitava Cleide, a mais gorda, com os dedos lambuzados de açúcar do sonho com nata que comia.
E era assim, dia após dia, semana após semana, que Claudete ia seguindo sua sina. Só lhe dava ânimo a suas fotonovelas e as canções de Dalva de Oliveira, que ouvia baixinho enquanto passava a ferro as ceroulas das três irmãs.

... continua ...

Sobre a obra

Como seria se o clássico da Gata Borralheira fosse escrito por Nélson Rodrigues? Essa é uma homenagem a esse grande escritor na adaptação do clássico da literatura infantil: "Cinderela"

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André Soares
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