A Singular Ubiquidade do Capitão Maciel

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Carlos Hollanda · Rio de Janeiro, RJ
6/2/2015 · 1 · 0
 

- Abaixa que vem chumbo grosso! Os macaco tão atacando! - gritava aflito o jagunço Antônio Vicente, enquanto empurrava os companheiros para o chão em meio a forte tiroteio.

Aquela já era a quarta investida do governo contra o Arraial de Canudos e o contingente de soldados só aumentava. Tudo indicava que as coisas iriam complicar muito mais do que já estavam. As saraivadas das metralhadoras enviadas pelo governo, se juntavam ao ribombar dos canhões Withworth 32, as “matadeiras”, novidade, até então, após meses de resistência dos habitantes. Milhares foram massacrados desde as batalhas iniciais. Várias doenças e a fome já tomavam conta do povoado. Entretanto, como que por milagre, as armas rudimentares das primeiras ações defensivas permitiram a obtenção paulatina de armas militares. A coragem praticamente insana daqueles homens e as estratégias de seus comandantes surtiram efeitos consideráveis no começo. Agora porém, as coisas iam de mal a pior e todos temiam pelas mulheres e crianças, desde há um tempo, a maior parte da população que, aliás, se reduzia exponencialmente, ante o fétido solo coberto de sangue e alicerçado por corpos enterrados. Armas já estavam sendo distribuídas entre elas.

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A batalha por Belo Monte, nome com o qual a cidade fora rebatizada pelos chamados "conselheiristas", começara em novembro de 1896 e há quase um ano seus habitantes resistiam às expedições do exército. Nas primeiras investidas, apesar do imenso número de mortos belomontenses, a volante fora rechaçada vergonhosamente. Eles não esperavam que os habitantes da cidade, isolada no meio do Sertão, às margens do rio Vaza-Barris, tendo por referência Antônio Conselheiro, a quem os cientistas da época consideravam louco, pudessem oferecer tamanha resistência: foram três debandadas, com tropas cada vez maiores e com a morte do Capitão Antônio Moreira César, o “Corta-Cabeças", logo numa das primeiras tentativas de invasão. Dadas algumas coincidências, pelas tropas corria o comentário desdenhoso de que era uma "guerra dos Antônios”, pois, pelo prenome, também o recém-chegado Capitão Antônio Maciel, subordinado a generais como João da Silva Barbosa e Cláudio do Amaral Savaget, estaria fadado à catástrofe. Em seus 48 anos de vida, Maciel já havia passado por muita coisa. Advogado por formação, alistara-se no exército mais como uma maneira de fugir da influência do pai e do que denominava “madrasta nefasta", que o maltratara muito durante a infância, do que por vocação. Pensara em ser padre certa vez, mas o sexo feminino o atraía "por demais". Preferiu as armas e o uniforme que lhe permitia “atrair a atenção das mulheres dos vilarejos” - ao menos assim pensava. Conseguira promoções poucas vezes por bravura e a maioria por seu estranho brilhantismo estratégico. Encontrava soluções em situações em que a maioria teria desistido, mas não havia registro de frequência em alguma escola de guerra. Não se sabia ao certo de onde surgira aquele oficial, só que ele chegara com seu uniforme e patente vindo do interior do Ceará, sem ordens específicas, há dois meses. Parecia desorientado, irritado que ficava quando lhe questionavam sobre dia, mês e ano. Insistia numa data, enquanto todos riam e diziam outra. Os oficiais resolveram incorporá-lo à batalha em andamento, já que toda ajuda era bem vinda e até mesmo aquele cabra atordoado tinha valor.

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Em ambos os lados do conflito havia uma imensa confusão nas informações. Era dito que o povoado, em plena República, instaurada há apenas 8 anos, reivindicava o retorno da Monarquia por motivos religiosos. Segundo a boataria, alegava-se “uma profanação da autoridade da Igreja, que deveria manter o poder de legitimar o governo". Não se sabia ao certo o que era verdade, só que, de boca a ouvido, no Arraial, a mensagem do velho Conselheiro era a de que não acreditassem em nada do que o governo ou a imprensa divulgassem. A mensagem se difundira a tal ponto que por vários anos acorreu para lá um enorme contingente disposto a defender a proposta de uma sociedade alternativa, livre e justa, onde todos teriam oportunidades e todos seriam iguais. Antônio Vicente, no vigor de seus 30 anos, não tinha qualquer interesse em política. O homem, que por alguma razão vivia se confundindo com o calendário, só queria se estabelecer em um lugar onde pudesse trabalhar em paz sem ser explorado por algum coroné nem ter que se defender continuamente de outro filho d`uma égua de mesmo calibre que dominasse a região. Se para isso fosse preciso dar cabo de cabras que nunca se importaram com quem passava necessidade pela seca, nem com ex-escravos (odiava escravidão desde que vira os mal tratos nas fazendas) que só queriam trabalho honesto, então ele o faria. Sem culpa. Apesar de sua formação fortemente religiosa, era um questionador que, certa vez, pegara a hóstia da mão do padre e dissera que aquilo não passava de “farinha seca". Mesmo assim, a despeito das desaprovações do clérigo, Vicente fora coroinha e estudara para ser padre, até que sua mãe morrera e ele fora obrigado a abandonar os estudos diante da doença do pai. O pequeno comércio que herdara, precisou ser fechado devido à escassez provocada pelo longo período de seca na região.

Vivera precariamente por 10 anos, trabalhando em uma lavoura aqui, uma construção ali, mas nada muito duradouro. Não se uniu a uma mulher, talvez devido à sua educação para padre, cuja disciplina e idealismo se mantiveram. Ou talvez não gostasse muito delas, mas certamente não nutria desejo por homens. Sem perspectivas, tentou trabalhar para os donos de terras, mas fora tratado como bicho pelos jagunços e outros paus mandados que expulsavam os flagelados de suas propriedades. Torcia por um dia haver distribuição de terras e a difusão dessas idéias lhe rendeu surras homéricas dos capatazes a mando dos sinhozinhos. Vagara pelo sertão, até que, sofrendo de insolação, tivera uma estranha visão que lhe revelara um certo povoado de nome Belo Monte. Acordara curiosamente recuperado, as pernas estavam fortes de novo, podia andar, mas ainda sentia aquela forte dor de barriga, muita fome e sede. Ao fim do dia se deparara com um grupo de peregrinos que se dirigiam precisamente para o local e dividiram com ele o pouquíssimo que tinham. Em menos de uma semana chegaram a Canudos/Belo Monte.

Vicente vira, ao longe, a figura do Conselheiro. Tinha a impressão de que ele o fitava, mas devia ser só o desejo de acompanhar o "Beato Penitente". Ele se tornara a representação de todos os focos de expectativas milenaristas da região, uma idéia de salvação encarnada, diante de todas aquelas injustiças. Diziam que ele era capaz de prever o futuro e que predissera tudo o que estava acontecendo. Também seria capaz de, com rezas e falas em “uma língua estranha, cheia de ‘erres e 'íches'", curar adoentados. Vicente não sabia se acreditava naquilo, mas queria ver para crer. Ocupado que estava administrando o Arraial, aquele homem, cujo rosto lhe soava um tanto familiar, era bem pouco visto nas ações estratégicas, exceto quando ia pregar para a multidão, que então somava algo próximo a 30 mil habitantes. Quase nunca era possível chegar perto e as vezes em que o Peregrino, como também era chamado, passava pelo povo, as pessoas ao redor tornavam impossível conversar com ele. Só o via meio de lado e de costas. Mesmo assim, em todas as vezes, tinha a impressão de que, ao longe, aquele homem com cabelos e barba longos e desgrenhados o observava.

Com a grande necessidade de braços para a construção e a lavoura, Vicente se oferecera para o que fosse preciso. Trabalho não faltava. Só matéria prima para a construção da nova igreja. Aliás, alguns diziam que aquilo teria desencadeado a guerra, igualmente por causa de informação manipulada: o governo, pressionado pelo clero e pelos latifundiários, temerosos quanto ao desenvolvimento do local e perda contínua de mão-de-obra barata, acataram a hipótese de invasões às terras e cidades em busca de material de construção e alimento. O clero também perdia fiéis para a figura messiânica do Conselheiro, com imensas levas de pessoas dirigindo-se ao Arraial e deixando as cidades e povoados onde nada lhes era oferecido senão uma vida de sofrimento. O cenário para a guerra estava montado e Belo Monte já contava com mais um servo fiel e, agora, jagunço: Vicente. Este parecia imperturbável na maior parte das vezes, exceto quando divisava, ao longe, um oficial do exército que tinha certeza de ter visto antes ou quando insistia que o ano em que estavam era 1860. Os companheiros achavam que não era bom da cabeça, mas era bom de coração e inteligente.

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A vitória parecia garantida daquela vez, mas, por alguma razão, o capitão Maciel, tinha a impressão de que estava acuado. Era um sentimento bem lá no fundo. Ele sabia que todas as evidências apontavam para o sucesso da investida, mas sentia a ansiedade de quem estava sob o cerco e poderia morrer a qualquer momento. Era como se ele estivesse lá no Arraial e não na trincheira montada nos arredores. Suava frio. Ainda agora, com o monumental reforço do governo e as ordens explícitas para “não ter piedade”, a sensação era a de (LEIA O RESTANTE DESTE CONTO NO BLOG DO AUTOR, CLICANDO AQUI)

Sobre a obra

FICÇÃO CIENTÍFICA - . Sinopse: em meio aos estertores de Canudos, durante a guerra que arrasou o povoado, acontece o encontro de três pessoas em uma situação insólita que provoca fenômenos incompreensíveis para as pessoas comuns, mas não para Antônio Conselheiro. O conto envolve questionamentos sobre o tempo, teorias científicas, visões, diferentes realidades e o caos, dando uma forte reviravolta no final. (tamanho em arquivo word: 14 páginas)

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Carlos Hollanda
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