A VERDADE

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André Calazans · Rio de Janeiro, RJ
29/4/2010 · 2 · 1
 

- A verdade é essa ! - diz o rapaz, para uma plateia de amigos atônitos. Por um instante, todos se calam diante de sua convicção. Entretanto, o senso crítico aos poucos vai retornando ao grupo.
- Peraí, peraí ! O que você falou faz sentido, tudo bem. Mas não pode ser outra coisa, não ? E aquilo que ele falou ?
- Isso mesmo, você não tá escutando a gente. Por que ele não pode estar certo ?
- Porcaria nenhuma, já falei. Vocês não sabem de nada . Esse cara, então, tá viajando geral. Precisa se informar melhor, muito melhor.
- Meu amigo, põe mais duas aqui, por favor.
- Viajando por quê ? Hein ? hein ?
- Quer dizer que, de repente, você agora se acha mais inteligente que a gente ?
- Me desculpe, mas “de repente, inteligente, que a gente†é horrível.
- Coisa de paulista.
- Que é que tem paulista ? Minha mãe é de São Paulo.
- Não quis ofender, é só um estilo de falar meio assim.
- Assim como ?
- Meio cantado ...
- Mas o que é que vocês tão falando ? Não tavam questionando o que eu falei ?
- Pô, o caro é masoquista, gosta de ser contestado.
- Masoquista nada, ele é metido pra caramba, se acha uma sumidade ...
- Quer aparecer, só isso.
- Bom, vamos voltar ao que a gente tava discutindo.
- Tá legal, tá legal. O problema todo era que o cara tava dizendo que só ele sabe das coisas, entende tudo de tudo. Ao contrário de nós, que somos umas bestas.
- Não falei isso, apenas expus meu ponto de vista. Vocês é que não estão conseguindo captar a profundidade das minhas argumentações, baseadas em amplo conhecimento.
- Profundidade droga nenhuma, você tá é querendo tirar onda com a gente !
- É, o cara sempre sabe de tudo, é o dono da verdade.
- E ele quer sempre terminar as discussões, ter a última palavra. Enche o saco, não deixa ninguém falar, e não convence ninguém.
- Já reparou como ele discorda de todo mundo ?
- Eu não tenho culpa se vocês não conseguem alcançar o que eu tô falando. O teu irmão, por exemplo, até que tenta. Articula melhor, alguma coisa se salva ...
- Alguma coisa se salva? Te esculachou, cara, e ainda chamou o resto de besta quadrada, que não dá nem pra conversar.
- Ô, peraí, não adianta querer botar pilha. Mas vamos voltar ao assunto que a gente tava discutindo !
- É isso aí, senão vira zona. Começa falando de asa de borboleta e termina em porta-avião.
- Não entendi, o que você quis dizer com isso ? Por que borboleta, porta-avião ?
- Não quis dizer nada demais, apenas que a gente tá desviando da conversa.
- Deve ter algum sentido oculto, alguma mensagem nessa comparação. Afinal, você não é o bam-bam-bam, sabe de tudo ?
- Vamos calar a boca, que se danem os dois, e vamos retomar a discussão.
- O que tu ia falar mesmo ? Tá angustiado pra falar há um tempão ...
- Ih, esqueci o que era. Só sei que era importante. Eu ia acabar com o que esse cara tava falando.
- Larga de besteira, se fosse importante tu não esquecia !
- Lá vem esse mala de novo. Não deixa ninguém falar.
- Até que enfim você abriu a boca, pensei que tava morto. Falaí, rapá, diz o que você acha.
- Eu num acho nada, só tô ficando de saco cheio dessa conversa.
- Então vamos concluir logo.
- Por mim, já encerrou a conversa há muito tempo. Já falei o que é, e o que não é. O que é verdade e o que é papo furado. Se vocês quiserem, acreditem. Se não quiserem, o problema é de vocês, que vão continuar vivendo na ignorância.
- Caraca, que cara nojento. Muito metido mesmo.
- Pior que é, o cara não dá o braço a torcer. É o dono da verdade sempre.
- É claro, vocês é que insistem em viver nas trevas ...
- Na boa, na boa, acho que você falou um monte de besteira. Até concordo com aquilo que tu falou no final, mas o resto é muita idiotice mesmo. Papo de botequim.
- Mas onde você acha que a gente tá ?
- Tudo bem, mas a gente é diferente. Não fica bebendo e falando bobagem, jogando conversa fora.
- Ô, fala baixo, como é que tu fala um negócio desses aqui ? Não respeita os outros ?
- Que outros ? O bar tá vazio. Só tem a gente.
- É mesmo, acho que os caras tão querendo fechar.
- Você acha ? Olha lá o cara jogando a água no chão.
- As cadeiras das outras mesas já tão tudo virada ...
- Faz o seguinte, vamos pedir a saideira.
- Meu amigo, mais duas e a conta, por favor. E vê um varejo também.
- A gente vai sair daqui sem chegar a um consenso ?
- Quando é que a gente chegou a um consenso antes ?
- Pelo menos parcial, pelo menos parcial. Vai, retoma aí. Qual é a tua conclusão mesmo ?
- É ... bem ... que parte ? Desde o início ?
- Pelo amor de Deus, conclusão é sempre no final !
- E aí ? Vamos lá !
- Era ...
- Então ? Resume o que tu falou, só isso.
- Vamos logo, a gente já tá saindo.
- Sem pressão, sem pressão ! Eu não me lembro direito, mas sei que era a verdade !

Sobre a obra

Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".

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Autoria
André Calazans
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DAVI SENA
 

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DAVI SENA · Brasília, DF 2/5/2010 16:59
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