CAJUEIRO DOCE É O QUE MAIS LEVA PEDRADA

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Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
31/7/2014 · 4 · 0
 

Este ano, em 15 de outubro próximo, completar-se-ão 50 anos da morte do famoso jornalista, produtor de humor, narrador esportivo, cronista (da boemia e romance policial de Copacabana) e compositor pernambucano, Antonio Maria Araújo de Morais. Morreu em 1964, aos 43 anos, após ser abandonado por uma madame famosa que era esposa do dono de um jornal de esquerda do Rio de Janeiro, com quem viveu de forma apaixonada entre 1960/1964.

Depois da “Revolução”, o traído foi exilado, e a mulher, uma soçaite ainda hoje badalada, resolveu acompanhar o conformado marido. Foram para Paris. Depois que Vinícius de Moraes contou a Antonio Maria que viu na Cidade Luz a fogosa jovem senhora bem feliz na garupa da moto de um príncipe dinamarquês, Antonio Maria, que tinha esperança que ela voltasse, ficou para morrer. Sobreviveu ao 1º infarto, mas foi fulminado no 2º em uma mesa de bar em Copacabana. Depois dizem que amor não mata... No velório, na capela do cemitério São João Batista (Botafogo), o também compositor pernambucano Fernando Lobo chorava, transtornado, e batia no rosto de AM dizendo: - Adeus, meu amigo! Agora você não tem como brigar com o Lobinho!

O crítico musical Joaquim Ferreira dos Santos fez um resumo artístico da vida de Antonio Maria que eu acho por demais interessante:

“A vida, para os anos 50, na música brasileira, se dividia entre os que xaxavam e os que boleravam. Antônio Maria apresentou uma terceira via: o samba-canção. Não estava sozinho, claro. Nas boates de Copacabana não se fazia outra coisa. Era uma música perfeita, suave, repleta de decepções elegantes sobre a vida amorosa, tudo na medida e nada mais para aquele ambiente novo que se construía: pequenas casas de luz mortiça, música baixinha e o culto ao uísque, que relaxava e deixava o olho no olho mais sensível para desabafos. O Rio estava deixando a boêmia navalhada da Lapa e inventando a zona sul. Antônio Maria, cronista maior das noites de Copacabana, sofria de todas as dores de amor e, pior, quase todas reais. A cultura francesa ainda dava as cartas no mundo, com suas angústias existenciais, suas náuseas sartreanas, e isso ajudou a embebedar Maria, criador de 'Ninguém me ama', aquela do sujeito que vai pela vida 'de fracasso em fracasso'. O amor era uma doença. A vida não valia a pena. 'Onde anda você', outro clássico de Maria, começa com os versos 'fui como um resto de bebida que você jogou fora'. Era a fossa, a dor-de-cotovelo, musicalmente uma tradução sofisticada para o desespero cafona dos boleros que dominavam a parada de sucessos. Maria misturava-se nas boates com os rapazes que estavam dando os últimos retoques na bossa nova. O movimento seria solar, alegre, praieiro. Maria era noturno, soturno, infeliz. Eram, no entanto, todos sofisticados demais, e 'Manhã de carnaval', de 1958, composta por Maria e Luiz Bonfá, é o exemplo mais claro, por sua esperança e referências a manhãs tão bonitas manhãs, que tinham bossa e Maria, tudo a ver. Teriam todos chegado a um acordo se Maria não brigasse (por causa de mulher, claro) com Ronaldo Bôscoli e não tivesse morrido tão cedo. Ao dar uma forma sofisticada para o bolero, tratar o texto romântico com um acabamento técnico ainda raro na MPB, Maria – longe de ser o inimigo público número um do movimento – ajudou a preparar o terreno para que a bossa nova fizesse nascer o sol e navegar o barquinho mais adiante no Arpoador.” Fonte: Dicionário da MPB, de Ricardo Cravo Albin.


Pouca gente sabe que Antonio Maria não fazia somente música de roedeira como “Ninguém Me Ama” (música que deu parceria a Fernando Lobo por gratidão), sensível como “Insensato Coração”, ou lírica como os três frevos dedicados ao Recife. Há um samba muito gostoso dele e Manezinho Araújo (tão simples que parece folclórico) que foi regravado em grande estilo pelo cantor, compositor e cordelista paraibano Chico Salles em 2007: “Cajueiro Doce”. A gravação original é da cantora Violeta Cavalcante num disco de 78 RPM que foi lançado em outubro de 1957. A regravação aconteceu exatamente 50 anos depois.

Escutem e digam se é ou não uma beleza?! Vale muito lembrar Antonio Maria e Manezinho Araújo, esses dois ícones da cultura de Pernambuco.

Sobre a obra

Um pouco da vida do jornalista, cronista, compositor, boêmio e mulherengo pernambucano ANTONIO MARIA, morto precocemente aos 43 anos de idade, em 1964.

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Abílio Neto - pesquisador musical
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