COM A CABEÇA NO PAINEL DA KOMBI

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gilbert daniel · Internacional , WW
4/12/2013 · 1 · 0
 

Acho que fiquei brocha. Eu, o mais abominável de todos, sórdido e broxa.

Confesso que sou mesmo um imbecil. Sempre fui. Imbecil com todas as letras. Um candidato exemplar, perfeito para acreditar em tolices e temer a fúria dos garotos da sétima série. Ou de enfrentá-los só pra defender algum coleguinha espertinho que, é evidente, não merecia a minha compaixão. Eu levava porrada por isso tudo.
Minha outra vocação; o alcoolismo. Não sei fazer nada. Não gosto de nada. Continuo sendo aquele menino aborrecido. Mas algumas coisas me distraem. Planejo atentados contra crianças, velhinhas e grávidas. Os desenhos da Warner me acalmam. Umas dinamites para explodir a cidade.
Foi quando eu tinha sete anos. Meu primo sádico, o aleijado da Kombi, me pediu dentro do carro ‘‘põe a cabeça aqui’’, ele indicava o alto-falante do painel da Kombi branca...
ZOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOMMM!
Fiquei surdo naquela doce tarde de domingo. Porém, escutei com nitidez convulsiva as gargalhadas sádicas do meu primo aleijado.
Hoje tenho em comum com ele, esse filhodaputa, a vocação para o alcoolismo.
Viciado em supositórios de glicerina. Hemorróidas inflamadas desde os quinze. Fazer quinze anos. O que pode ser mais abominável? Eu tentava me ajustar, esperava uma redenção, algo que caísse dos céus de mamãe católica cheia de fé. Eu não tinha fé, já desconfiava demais de mim mesmo.
Namorei uma empregadinha que eu conheci pelo Disque Amizade só pra ver a cara de decepção de todo mundo, familiares e amigos, em uma festa de aniversario, sei lá, do meu irmão. A mina morava na favela, não conseguia articular uma frase sequer, falava ‘‘pobrema’’ e ‘‘nóis vai nóis fomo’’. Era tudo o que os meus ‘‘conhecidos’’ mais abominavam. Mas eu me divertia, e o melhor era o quanto ela se amarrava na minha porra. Até o dia em que me cansei dessa vadia e a mandei catar pratinha.
Com a Leila Piranha foi diferente. Depois eu conto.
Escrever sobre meus amigos, velhos e bons tão confiáveis quanto a indústria do amianto. Teve um por exemplo, o Giordano, que se dizia muito meu amigo. Estava sempre por perto, se achava o dono da verdade. O pior é que eu formava com esse imbecil uma duplinha inseparável. Eu não gostava de mim, então seria improvável encontrar um amigo de verdade. Ou seja, tinha o que merecia, certo? Tipos como esse há aos montes. Não perdem a chance de te ferrar na primeira oportunidade. Giordano era, acima de tudo, um fofoqueiro que vivia cagando regras de como viver e morrer. Quanto tempo eu perdi ao lado dessa figura. Não tive mais notícias e espero que tenha morrido sufocado pelas certezas que arrotava do alto da sua pura estupidez.
Na verdade, o que me atraía em Giordano é que ele, ao contrário de mim, se dava muito bem com as garotas. A inveja me arrastava e me induzia ao castigo, ao masoquismo de formar essa duplinha abominável. Também tinha o seguinte, nós estávamos sempre trocando hostilidades e isso deve ter animado muitas horas de neuróticas discussões literárias-futebolísticas-sexuais e o escambau. Mas sempre desconfiei que ele fosse meio gay, o que poderia explicar o sucesso de Giordano entre as mulheres. Por outro lado, esse sucesso não passaria de uma fachada para encobrir a viadagem do meu ‘‘melhor amigo’’.
Giordano, onde quer que você esteja – e isso eu já deveria ter dito-lhe há muitos anos, em variadas oportunidades – , meu caro, cala a boca e vai se fuder!
E os coleguinhas de escola? O que dizer deles? Os coleguinhas de colégio de ontem são os vendedores dos Shoptime’s de amanhã. Ou seja, os mesmíssimos cretinos de sempre. Exceto um. Tomate foi um amigo meu dos tempos do antigo 2º Grau. Escola pública em uma triste cidade da indigesta Grande Belo Horrorizonte. Não o vejo há tempos. Por onde você anda, meu chapa? Casou e sumiu, heim? Ambos tínhamos pretensões literárias e uma apaixonada e estúpida capacidade para discutir futebol. Até política a gente topava.
Eu gostava do Oswald de Andrade. Tomate preferia o Mário, Drummond e nutria uma obsessão fudida pelo Guimarães Rosa. Juntos participamos de uma canalhice chamada Grupo Cultural Riacho Novo, algo assim. O que de fato reunia essa turma era o gosto pela cerveja e os insultos cordialmente distribuídos entre todos os integrantes. Depois conto sobre como escapei sem um arranhão da fúria e da porrada de uma dupla ao marcar errado um ponto em uma partida ‘‘emocionante’’ de peteca. Eu era o árbitro de linha – ou algo assim, não me lembro - e nem sei por onde passou a porra da peteca. Dei fora, e errei por muito, todos testemunharam nesse sentido após os ânimos se acalmarem – da dupla, é claro.Tomate não perdoou, veio na hora me torrar a paciência.
Também teve um concurso de poesias do qual a gente participou, eu e o Tomate, promovido por gente da igreja e uns outros doidos varridos. Li o meu odioso Cidadão Contagense tendo ao fundo uma sonata – ou sei lá como se chama – de Chopin, diante de uma platéia pós-missa de domingo à noite. Claro, foi um fiasco, não conseguia ouvir nada e segui lendo até que aquilo acabasse logo. Uma roubada. Tomate se deu bem e ganhou um prêmio com seu soneto. Até hoje tenho uma cópia desse texto, o cara mereceu pela performance e pela criação. Graças a Deus, desisti da poesia, como também de todo e qualquer concurso literário. Não quero participar de nada disso. Acho que o Tomate também desistiu, mas de qualquer pretensão literária. Sei lá.
Estou longe. Cada dia mais afastado. E aborrecido. Bêbado. Em todas as gavetas uma caneta Bic e um pedaço de papel. O que eu tenho, a minha literatura.
Aos vinte anos eu conseguiria...
Aos vinte e cinco nenhuma oportunidade eu deixaria escapar. Não perderia a chance. Minha última salvação... Bosta!
Até que se completam trinta e a única coisa que sobrou é o plano de estourar os miolos na noite do reveillon

Sobre a obra

crônica vadia

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Autoria
Gilbert Daniel
Ficha técnica
crônica
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