Conferência "Esquecimento e memória" - Luiz Felipe de Alencastro

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Cultura e Pensamento · Salvador, BA
26/10/2006 · 68 · 1
 

Parte 1 de 3 da conferência realizada no teatro Maison de France, em 29/08/2006 - Integrante do Ciclo de Conferências "O esquecimento da política", organizado por Adauto Novaes

Partes 2 e 3 disponíveis no site www.cultura.gov.br/culturaepensamento na seção 'arquivo'


"Esquecimento e memória" - Luiz Felipe de Alencastro

O tema do esquecimento e da construção da memória política é central no trabalho do historiador e na constituição da cidadania. Chateaubriand (1768-1848), romancista e historiador, tinha uma visão heróica do papel do historiador. Em 1807, num ataque frontal a Napoleão, escreveu: “Quando, no silêncio da abjeção, só se ouve o som da corrente do escravo e da voz do delator; quando tudo treme diante do tirano e expor-se a seu favores é tão perigoso quanto incorrer em sua desgraça, aparece o historiador, exercendo a vingança dos povos”.

Refletindo sobre a interação entre memória, esquecimento, história e cidadania, Paul Ricoeur (1913–2005), um dos mais importantes filósofos contemporâneos e autor de uma obra capital sobre o assunto, escreveu: “O escritor-historiador faz a história. O leitor faz a história e, fazendo a história, ele transforma o fazer do historiador em fazer de cidadão”. Ricoeur distingue as várias formas de esquecimento e de trabalho de memória que envolvem os indivíduos, as sociedades e o campo histórico.

Assim, diante dos grandes dramas históricos que atingem e dividem os países e as comunidades políticas, o que há é um esquecimento traumático. No século do descobrimento do Brasil, a derrota de dom Sebastião em Alcácer-Quibir (1578), que desbaratou o exército português no Marrocos – resultando em cerca de 2.000 cativos aos mouros, na morte do rei, no desaparecimento do seu corpo e, por fim, na submissão da coroa portuguesa à espanhola entre 1580 e 1640 -, gerou um esquecimento traumático em escala metropolitana e colonial. Como assinalou Lucette Valensi, só em 1607, ou seja, uma geração após a catástrofe, apareceu em Portugal o primeiro livro sobre o tema (Jornada de África, escrito por Jerônimo de Mendonça). Da mesma forma, os franceses desenvolveram depois da Segunda Guerra Mundial uma memória seletiva e oficial acerca de uma França combatente, em que a maioria esmagadora da população resistira por todos os meios ao nazismo e à ocupação alemã; memória que só seria contraposta em 1973, com a edição francesa do livro do historiador americano Robert Paxton, La France de Vichy. Ao denunciar a colaboração do Estado francês com os nazistas e na perseguição dos judeus franceses, La France de Vichy provocou uma “revolução epistemológica” na historiografia francesa, contribuindo para formar uma visão mais equilibrada da história e da cidadania do país.

Na sociedade brasileira, há traumas históricos fundamentais que passam pelo processo alternado de esquecimento e rememoração para constituir a nossa contemporaneidade. Em longo prazo, há o drama histórico do tráfico negreiro e do escravismo, crucial não só para os afro-descendentes, que em breve serão maioria na população brasileira, como também para entender as divisões e a violência que definem a sociedade atual. Em médio e curto prazos, há o drama da ditadura (1964-1985), sobre o qual escreveu um dos participantes do seminário 1954-1964-2004: O golpe, memória e atualidade, organizado pela USP e pela Unicamp, em novembro de 2004: “Comemorar não é apenas celebrar fatos pregressos. Comemorar - memorar em comum, coletivamente - é também evocar um passado envolvido no esquecimento por obra do tempo ou trauma da memória. Nesse sentido, comemorar os 40 anos do golpe de 1964 significa pensar o passado para liberar o futuro dos fantasmas que ainda pairam

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Autoria
LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO é professor t itular da cátedra de História do Brasil na Universidade de Paris 4 Sorbonne. Além de artigos no Brasil e no exterior e do ensaio A economia política do descobrimento em A descoberta do homem e do mundo (Companhia das Letras), publicou O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul (Companhia das Letras). Organizou o volume 2 da coleção História da vida privada no Brasil : Cotidiano e vida privada no Império (Companhia das Letras).
Ficha tcnica
Parte 1 de 3 da Conferência - áudio/mp3
realizada no teatro Maison de France, em 29/08/2006

Integrante do Ciclo de Conferências "O esquecimento da política", organizado por Adauto Novaes em 2006

Integrante do Programa Cultura e Pensamento 2006
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Hermano Vianna
 

que bom ter o Cultura e Pensamento por aqui! Bem-vindos!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 23/10/2006 01:36
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