Domingo alguém avise a dor que não insista

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Flávio Herculano · Palmas, TO
10/3/2011 · 4 · 1
 

Diante de poucas coisas na vida é impossível mostrar indiferença. Delas, gosta-se ou não, e ponto final. No extremo, ama-se ou odeia. Não há quem não tenha opinião sobre gostar de pequi, buchada de bode, galinha à cabidela ou sobre andar de montanha russa e pular de pára-quedas. Até quem nunca experimentou tem alguma opinião formada.

Também não há quem não tenha conceito pré-definido sobre o mais peculiar dos sete dias da semana, o domingo. Se você não é frentista, enfermeiro, vendedor no shopping ou caixa de hipermercado, este é o dia em que suas obrigações se esvaem. O carro foi lavado, a feira feita e as tomadas frouxas consertadas no dia anterior. Bater o ponto no trabalho, só na segunda. Então, você terá todo um dia para ser você mesmo: manhã, tarde e noite. Talvez até uma madrugada, caso um grande encontro com o seu íntimo lhe deixe insone.

Domingo é o dia de constatar o quanto seu marido é ridículo, ao vê-lo xingando a televisão e se contorcendo diante de uma partida de futebol. Dia de ver o quanto sua esposa é frívola, dividindo a atenção entre o panelaço de macarrão no fogo e um programa estúpido de auditório da TV. É um dia que dá para enxergar o outro como ele é, e em que há tempo para refletir sobre isso.

Para quem é casado, domingo é dia de pensar o quanto os dias estão passando rápido e de avaliar se você ainda é jovem o suficiente para recomeçar a vida só. Afinal, num dia como hoje, a esta hora, você pensa que ainda poderia estar na cama, livre, sem preocupações. Só se levantaria para encontrar os amigos mais tarde. Tudo seria diferente.

Já para quem vive sozinho, domingo é dia de enxergar não ao outro, mas a si mesmo, o que é ainda mais cruel. Dia de ficar na cama até mais tarde, não simplesmente para descansar, mas porque naquele estado de torpor entre o dormir e o acordar não há espaço para a consciência. É um dia em que dá para se demorar mais diante do espelho, ver como o tempo passou e o quanto é inútil esta liberdade que você se gaba de ter alcançado a custa de tanto esforço.

Para os solteiros, domingo é dia de conviver com a casa bagunçada, a pia entulhada de louça suja e de ver uma sequência de filmes que distraiam a atenção quanto ao seu vazio interior. Não há disposição nem para sair com os amigos. O bom, você pensa, seria ter alguém com quem dividir a intimidade do dia, vendo TV e preparando juntos uma macarronada. Tudo seria diferente.

Mas amanhã é segunda, você se anima, dia de dar um basta em tudo isso, ir à luta e recomeçar a vida. Porém, chegada a segunda, seu dia se preenche. Você só voltará a confrontar estas questões uma semana mais tarde, no próximo domingo.

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Flávio Herculano - www.twitter.com/flavioherculano
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Edson1970
 

não quero num domingo, sentado numa poltrona esperar a morte chegar, nem assistindo ao fantástico. muita gente detesta o domigo, inclusive eu, mas Betania canta uma música que descontrói o que achamos do domingo, vale a pena escutar.

Edson1970 · Mossoró, RN 1/4/2011 23:00
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