Uma singela (des) homenagem a Palmas

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Flávio Herculano · Palmas, TO
14/4/2011 · 4 · 1
 

Do pó vermelho do cerrado, Palmas se fez há pouco mais de duas décadas. Uma cidade sem passado. Uma Palmas sem palmenses, formada por filhos bastardos, desterrados. Porém, pessoas que se legitimaram pela determinação da escolha em morar aqui, não pelo acaso do nascimento.

Ser palmense não é para qualquer um. É optar por viver longe de suas origens. É não poder se dar ao pequeno luxo de frequentar uma sala de cinema digna; é morar naquela que talvez seja a única capital desaparelhada de um pronto-socorro. É suportar o calor insuportável de cada agosto, mas, como que adaptado, reclamar de frio quando faz menos de 25 graus.

Milhares não conseguem se adequar às tipicidades de Palmas: ao sol e à secura dignas do Saara, que trazem consigo a fumaça das queimadas; ao aperto das quitinetes, ao vácuo das avenidas nos domingos e feriados; aos seus quitutes: pequi, chambari e o churrasco servido até em festas de casamento – tudo bem apimentado; ao happy hour nos espetinhos ao som de música sertaneja e com um péssimo atendimento; ao trânsito e seus “queijinhos”; às rodas onde só se fala de política; à dependência do poder público (aqui, quem não é ou foi funcionário público ainda será!)...

Estes, os que não se adaptam, pegam a estrada de volta, fazendo de Palmas a cidade do permanente adeus. Uns vão, mas outros sempre chegam, à procura das oportunidades que só uma capital nova pode oferecer. E os pioneiros, que resistiram ao tempo em que faltava tudo (menos ventanias carregadas de poeira), se vangloriam, como se fossem palmenses de uma casta superior.

Os que ficam, na tentativa de fincar raízes, se apegam às pequenas qualidades de Palmas, como a tranquilidade, as praças e parques da cidade. Nisso, vale até chamar de praia uma beira de rio infestada de piranha e se divertir em passeios pela novidade dos hipermercados (e por lá encontrar de deputado a ex-governador).

Eu, por exemplo, me apego a pequenas alegrias que conheci aqui, como apreciar uma cachoeira, um rio de dimensões amazônicas, um imenso pôr-do-sol alaranjado e se surpreender com um tucano ou um casal de araras em voo sobre as ruas. Acho ímpar até poder comprar por ai picolés de buriti ou cupuaçu. E assim vou vivendo, indo a Goiânia quando dá e achando lá uma quase Nova York. E posso falar mal porque sou daqui. Se você é de fora, por favor, só aceitamos elogios.

PS: dedico esta crônica de (des) homenagem aos 22 anos de Palmas a Palmério Guedes Feitosa, o nativo mais velho da cidade, nascido no banco de um carro por falta de médico no posto de saúde nos idos de 1990. Sua mãe, Joana, mudou-se para cá para trabalhar no primeiro supermercado local. Quando adolescente, Palmério tinha o sonho de fazer carreira como jogador de futebol pelo Palmas, pois não cogitava migrar daqui. Hoje deve ter 21 anos. Não encontrei registro de que tenha sido aprovado em vestibular, realizado o sonho de jogar profissionalmente ou sequer que permaneça na cidade. Será a geração de Palmério a primeira com certidão de palmense a tomar as rédeas do destino da cidade. E está no tempo de começarem.

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Flávio Herculano - www.twitter.com/flavioherculano
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Thâmara Filgueiras
 

Muito bom o texto!!! Materializa sentimentos de pessoas como, que moro aqui desde os meus 7, e vive aqui com toda a família (mãe, pai, tios, avós, periquitos e papagaios) que veio do nordeste em busca de novas oportunidades e lutam todos os dias para conseguir seu lugar ao sol.

Thâmara Filgueiras · Palmas, TO 14/4/2011 12:22
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