Um dos aspectos que caracterizam qualquer cidade são suas lendas acerca do sobrenatural, passadas pelos anciãos, recontadas às crianças pelos irmãos mais velhos e relembradas a cada noite de lua cheia. Tornam-se a verdade de um povo pela repetição. Em Palmas, ouvi diversas vezes aquela que, talvez, seja a única lenda de nossa jovem cidade. Diz respeito a seres que agem em altas horas das madrugadas, de marretas em punho.
Entre os que me relataram a estória, ninguém os viu. Mas todos disseram conhecer alguém que presenciou a aparição de um desses seres. Fala-se, são figuras robustas, de quase três metros de altura, corpo curvado, vestidas de negro e sempre solitárias. Surgem no extremo das ruas ou nos canteiros das vias públicas. Com poucos golpes de marreta, lascam o meio-fio, abrindo espaço para que, por aquela brecha, possa vir a passar um pneu de bicicleta, uma moto ou, até mesmo, que ali sirva de acesso para carros. E o fazem sem causar barulho ou deixar resquÃcios do concreto arrebentado. Simplesmente agem e somem, rápidos e sorrateiros.
Não há nenhuma quadra em Palmas, nenhuma avenida, onde não haja resultado da ação desses seres. Até mesmo nas regiões centrais de cidade, em lugares onde o fluxo de pessoas nunca para, lá está a obra dos marreteiros, sem que jamais eles tenham se deixado fotografar ou filmar em plena era da hiperconectividade.
Como não sou eu quem vai rever a história e julgar se Lampião e seu bando de cangaceiros foram heróis ou bandidos, também não sou eu quem vai apontar se esses seres são malignos ou iluminados. Sim, caso existam, eles depredam o bem público, mas os motoristas que moram em quadras com somente duas entradas e saÃdas bem que fazem uso das gambiarras abertas pelos marreteiros, alegando que, com isso, economizam tempo combustÃvel. Em algumas quadras até já se estabeleceu fluxo de mão, contramão e preferência de passagem de veÃculos nessas gambiarras.
Um colega, pessoa até esclarecida a quem admiro pela lucidez, afirmou não somente ter certeza da existência dos marreteiros, como inclusive chegou a dizer que admira o trabalho deles e defendeu que deveriam ampliar seus serviços, passando a abrir, também, acesso nas calçadas para os cadeirantes.
Eu prefiro me isentar de opinião, até porque não creio em marreteiros. Mas que eles existem, existem!
Crônica escrita para a revista cultural Klep.
Bela crônica. E toda lenda tem seu cunho de verdade amigo.
Esta dos marreteiros é muito significativa e com certeza muito dos oprimidos operários do poder público que já passaram para o outro lado, de quando em vez aparecem para auxiliar os que por aà ainda estão vivos...
Luz e a Paz do menino Deus em 2012!
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