Dossiê Navilouca

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Isis Rost · São Luís, MA
1/11/2018 · 1 · 0
 

Amostra do texto

Em determinada época da nossa história, estar à margem significou uma tomada de decisão: a oposição. Surgem o cinema marginal, a literatura marginal, a música e a poesia, todos na margem da margem. Este “excesso de marginalidade†deixa algo em evidência.
Celso Favaretto aponta como as atitudes contraculturais teriam aberto inclusive caminho para as políticas de minorias. Este foi um ponto sempre bastante debatido: as relações de poder e a contracultura. A controvérsia pode ser sintetizada na oposição entre duas posições: considerar as atitudes alternativas do período do “desbunde†como fuga, reação defensiva da violência exercida pelo Estado e, portanto, expressão de alienação , ou ao contrário, destacar seu aspecto crítico e criativo e a utilização da marginalidade e do signo da loucura para combater a racionalidade que o regime autoritário pretendia encarnar . Na orientação da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno aponta a noção de alienação cultural provocada pela indústria cultural. A contracultura é apresentada como a negação deste mercado (mesmo utilizando as ferramentas deste mecanismo) movimentando-se fora do sistema e, portanto, como sinônimo de alternativa à cultura oficial. A pesquisa de Heloísa Buarque de Hollanda foi crucial para reavaliar a noção de “esvaziamento†estabelecido pela repressão da censura e pela indústria cultural, fortalecida com a popularização dos televisores. “Além de Navilouca – seu carro chefe – a sucessão de publicações do pós-tropicalismo, como Pólen (74), Código (75), Corpo Estranho (76) e Muda (77), demonstram sua continuidade como tendência viva na produção de hoje. Note-se que tais publicações se desejam, explicitamente, o oposto da opção pobre e artesanal da produção de mimeógrafo que lhe é contemporânea. (...) Entretanto aqui o experimentalismo vem ‘sujo’ pela marca do vivenciado, pela procura de coerência entre produção intelectual e opção existencial, pelo que chamam de ‘nova sensibilidade’.†(Hollanda, 1981:81)
A fragmentação dos textos e a arte fundida aos novos comportamentos e às tecnologias são comumente apontadas nas pesquisas sobre a época. Certa preocupação com a técnica reduzida pelas óticas da marginalidade ou até mesmo na experiência com entorpecentes. A RN era declaração de princípios estéticos, como também comportamentais, trazendo no título uma referência à Stultifera Navis – a nau dos insensatos, que reunia os loucos durante a Idade Média – e no conteúdo temas e referências que começavam a despontar, como as políticas do corpo, o homossexualismo, a poética da vida cotidiana. Durante todo o século XX, as revistas atuaram de maneira profícua na produção do campo literário, constituindo-se como principal veículo das poéticas, ideias e propostas / princípios estéticos dos grupos de artistas e intelectuais, reunidos em torno da revista. Porém, em virtude da promulgação do AI-5, na sexta feira, 13 de dezembro de 1968, o processo artístico-cultural que vinha se fortalecendo nas décadas anteriores no Brasil foi amplamente dificultado.
Grande parte da intelectualidade da época, como Zuenir Ventura e Luciano Martins reclamam a existência de certo “vazio culturalâ€, por conta das prisões, o exílio (voluntário ou não) de grande parte dos artistas e intelectuais e a forte ação da censura. Este duro golpe acaba marcando a época, cujo “vazio†era literalmente sentido por todos os lados. Sob este signo, a década de 1970 já nasce fracassada. Porém, é preciso rever esta afirmação, pois apenas alcança uma parte da realidade. Por outro lado, algo ‘diferenciado’ acontecia, e surgiam novas formas de expressão artística e social, “pondo em destaque as virtudes†da própria invenção. De acordo com Celso Favaretto, estava acontecendo
Uma mudança na representação política, advinda inclusive em decorrência do balanço crítico que começava a ser feito dos ideais, das estratégias e das ilusões políticas claras ou implícitas nos processos artísticos e culturais do período que findava. (Favaretto, 2017, 183.)
Portanto, este suposto esvaziamento estaria preenchido por algo novo e ainda indecifrado: a contracultura. Com dezenas de publicações na imprensa alternativa (Navilouca, Flor do Mal, Presença, etc.) o desbunde se estabelece como o modus operandi de muitas expressões artísticas e intelectuais do momento. Na contracultura a revista se difere, contudo, num aspecto essencial: ela é concebida como obra de arte coletiva, onde a voz do autor individual dá lugar ao coro do grupo, no caso um coro de descontentes, não obstante o caráter recorrentemente efêmero e comportando ao mesmo tempo uma constituição individual e coletiva. Como destaca Favaretto, “a produção artístico-cultural dos anos 1970, longe de um suposto vazio, instaurou um processo extensivo de invenção, que incluía a reelaboração das experiências anteriores, à margem da política oficial de cultura e da indústria cultural.†(Ibid. 184-185.) E ele continua, afirmando como “uma particular e mais expressiva compreensão do que ficou conhecido como contracultura, identificada como nova sensibilidade, vai se propagando, tendo como referência o underground, que postulava o drop out, o cair fora da sociedade, por meio de revistas, jornais, nas músicas e rituais, pretendiam divulgar princípios de uma nova imagem da vida, que induzisse a novos comportamentos.†(Ibid. 190-191.)
Apesar da contracultura não ter surgido em decorrência do autoritarismo, ela teria se potencializado na luta contra uma imposta racionalidade, invocando as figuras do louco e do bandido. O discurso de esvaziamento cultural defendido pela intelectualidade da época pode ter fundamentos mais numa sensação de perda, de pressentir o inevitável fim de um modo de estar no mundo, do que uma ausência de produção cultural de fato. A contracultura traz à tona diversas tensões entre as formas de se fazer resistência frente à ditadura, assim como discute elementos da indústria cultural. Deste modo, o “desbunde†se confunde com a resistência.
Do ponto de vista histórico, a imprensa alternativa surge junto com movimentos de oposição, criados pela esquerda, com propostas editoriais alternativas aos veículos da grande imprensa. Durante o período da ditadura militar, é impossível não apontar o termo “censura†e os danos provocados por esta na imprensa. Influenciando a própria projeção dos acontecimentos, o importante papel da imprensa na sociedade acaba ultrapassando os limites impostos pela censura. Assim, a imprensa alternativa conquista espaço para informar e denunciar. O impacto da imprensa alternativa como fenômeno social e histórico é indubitável. Torquato Neto começa a organizar a Navilouca em 1971, com o poeta Waly Salomão. Com uma produção gráfica sofisticada, a capa policrômica e plastificada da revista Navilouca mostrava ‘signos da loucura’ como manifestações artísticas, construindo um mosaico composto das imagens dos artistas. Reunindo trabalhos da nata da contracultura artística brasileira, Torquato idealizou a revista reunindo os trabalhos dos principais artistas e agitadores culturais da época, onde temos as contribuições de Torquato Neto, Waly Salomão, Hélio Oiticica, Rogério Duarte, Jorge Salomão, Luciano Figueiredo, Óscar Ramos, Ivan Cardoso, Duda Machado, Sthefen Berg, Luis Otávio Pimentel, Caetano Veloso, Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, Lygia Clark, além de referências a alguns artistas não tão conhecidos na época, como o poeta Chacal e o artista plástico mineiro Colares.

Sobre a obra

Todos os trechos aqui expostos foram retirados da internet. O intuito desta organização é auxiliar pesquisas que se aprofundem na revista Navilouca, de importância indubitável para a compreensão da própria época.
É proibida a comercialização.
O download é gratuito.

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Autoria
Isis Rost (Organização)
Ficha técnica
Diagramação, organização - Isis Rost
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