EMPALAMENTOS COM CANETA BIC

1
gilbert daniel · Internacional , WW
28/12/2015 · 1 · 0
 


Naquele tempo meus pés não tocavam o chão. Era criança, uma inocência sórdida; lente pela qual tudo ao meu redor parecia mortalmente encantado.
Só mesmo com uma garrafa de uísque para agüentar isso aqui.

Uma vontade de morrer e matar. Um tiro no meio da sua cara. Para aqueles que como eu não gostam de nada e passaram a vida tentando se ajustar e sentindo-se por isso inúteis. Nenhum culpa irá me salvar de mim mesmo. Uma preguiça mortal, tédio crônico e assassino. Só um Big Mac poderá me redimir. Depois, um uisquinho. Prefiro a barriga estourando à consciência pesada. Ter algo mesquinho com o que se preocupar. Estou cheio de mim, cheio das minhas mortes abomináveis. Serei sempre aquele menino aborrecido – como gosto dessa palavra, a-bor-re-ci-do – atrapalhado com as garotas. Os olhos molhados de vergonha, o rosto vermelho de medo e o desejo de ser outra coisa.

Faço caretas no espelho mas não reconheço quem através dele me olha com a língua pra fora, os dentes de vampiro, caninos pontiagudos.
Não reconheço esse que me olha do espelho.
Os olhos vermelhos de vergonha e medo. Coleciono ataques e punhetas convulsivas. Neurastenias crônicas, as pernas tortas, pisando na bola no futebol de terra batida. Os cretinos dribles odiosos.

Os olhos fixos de um São Francisco perscrutando o vazio.

Quem não gosta de criança e bicho não pode ser bom sujeito. Sou o pior dos cretinos. Esta constatação me deixa livre o caminho para anunciar a sordidez das vidas que me rodeiam. Não gosto de nada, crônico e convulsivo.
Parece mesmo que transformaram Auschwitz em parque temático, uma Disneylândia com suásticas e uniformes da SS.

Os cretinos do colégio eram os craques com a bola nos pés, sempre os mesmos canalhas.
Esta é a minha vingança pessoal. Contra os dribles que levei deles deixo um livro como desforra. Para nada...

Maradona, a verdadeira alma de boleiro. Por que torcemos para esses canalhas filhosdeumaputaqueospariu? Isso não entra na porra da minha aborrecida e abominável cabeça.
Preciso de uma poltrona e uma biblioteca dentro do banheiro desse quarto de hotel.
Um conhaque antes de deitar. Trinta anos de afogamentos. Você já viu a cara de um enforcado?
Insone aos seis anos. As noites cheias de sombras, assaltos e um Mefisto debaixo da cama.
Não pagarei colégio pros meninos. Não ter filhos pode ser uma opção puramente estética, seja lá o que isso signifique... Também nenhuma parcela atrasada de IPTU.

Insone desde os seis anos. O medo e a vergonha. O menino que bebia chá frio servido pela mãe no meio da madrugada.
O susto aos oito anos. O primeiro dia de aula como o abandono. Me lembro e invento para esquecer.

O colégio. Rodriga foi meu primeiro amor.
Os copos jogados pro alto e gritos de mamãe.
Meu pai era o meu Fitipaldi tricampeão. Chorei em 82. Chorei de novo em 86. A Seleção foi minha última comoção nacional.

As garotas do colégio. Não tinha namorada. Brincava sozinho, já era sozinho e não me importava. Preguiçoso e não aprendi a ler. Acho que era do tipo que despertava o nojo e a complacência entre as professoras. Mas tinha as minhas pequenas graças bissextas.
O menino aborrecido, aos quinze anos ainda brincava sozinho com Playmobil. Achava o sexo um ato pecaminoso, exceto para a geração do filho, reprodução da espécie.

Vou fazer trinta e seis e choro todo ano. Todo dia vinte de setembro misturo conhaque e calmantes e saio de órbita. Não me aborreçam.

Cristina na turma da Tia Conceição. Os gêmeos abomináveis Edimar e Edimar, sádicos e desonestos no futebol. Regiane e bomba na 7ª Série. Leila Piranha na 7ª repetida, a do Juscelino Corno.

Só os cretinos fazem sucesso no futebol – exceto o Tostão e meia-dúzia. Por isso me amarro nas canalhices do Maradona. Ele dá ao jogador de futebol sua verdadeira alma... de cretino. Aprendi isso jogando bola na 6ª Série, a dos gêmeos Edimar e Edimar.

Um país insosso que se arrasta entre os ufanismos bestas do Galvão Bueno e a previsibilidade tola de um povo mal armado na cretinice crônica do Gilberto Gil. Todo mundo é baiano. Somos uma vergonha. Os cretinos assumiram os melhores lugares apoiados pelos mesmos canalhas de sempre.

Tenho, entretanto, o Nelson Rodrigues. O Marcelo Mirisola. E algum filme clandestino dos anos sessenta.

Não sou nada real. Somente o leitor aciona algo em mim. Insone desde os oito. O medo. O que se esconde atrás da porta? E debaixo da cama? Quem morreu naquele quarto?

Morreu quem nunca deveria ter nascido, o menino desajustado por natureza, que passou trinta anos pedindo desculpa por não ser tolo e feliz como qualquer um. Recusou participar da festa quando já era tarde. Perdeu vinte anos tentando fazer igual e se ferrou cada vez mais. Até o dia em que decidiu dizer „„foda-se‟;‟; mas era tarde para qualquer revoluçãonzinha. Não passa de um ridículo homem de trinta e cinco mal vividos anos, que perdeu a hora da vida inteira.

Sem fôlego, olhando fixo o vazio como um São Francisco. Minha cara de cu. Eu não gosto de nada.
Por outro lado, é fundamental ter leveza e manter certa distancia. A canalhice do Pernalonga me redime. Algumas páginas salvaram a minha vida. O desajuste é um acerto de contas, a afirmação do menino que não morreu. Todas as garotas, aquelas piranhas dos meus quinze odiosos anos, empaladas com esta caneta Bic precisa e abominável – a-bo-mi-ná-vel. Gostei dessa imagem. Empalamento com caneta fálica e outros assassinatos de grávidas líricas no Dia das Mães. Quero tudo isso solenemente desleixado. Os olhos, os meus e os delas, virados pro vazio.

Lula é a esperança que venceu o medo? Então só me resta concluir que a esperança foi assassinada.

Hoje, filmes dublados na Sessão da Tarde. A vida descafeinada com adoçante dietético Zero Cal.

Sobre a obra

Naquele tempo meus pés não tocavam o chão. Era criança, uma inocência sórdida; lente pela qual tudo ao meu redor parecia mortalmente encantado.
Só mesmo com uma garrafa de uísque para agüentar isso aqui.

compartilhe



informações

Autoria
eu mesminho
Ficha técnica
cronica autoajuda que eu mesmo escrevi de minha propria autoria
Downloads
256 downloads

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 6 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados