Naquele tempo meus pés não tocavam o chão. Era criança, uma inocência sórdida; lente pela qual tudo ao meu redor parecia mortalmente encantado.
Só mesmo com uma garrafa de uÃsque para agüentar isso aqui.
Uma vontade de morrer e matar. Um tiro no meio da sua cara. Para aqueles que como eu não gostam de nada e passaram a vida tentando se ajustar e sentindo-se por isso inúteis. Nenhum culpa irá me salvar de mim mesmo. Uma preguiça mortal, tédio crônico e assassino. Só um Big Mac poderá me redimir. Depois, um uisquinho. Prefiro a barriga estourando à consciência pesada. Ter algo mesquinho com o que se preocupar. Estou cheio de mim, cheio das minhas mortes abomináveis. Serei sempre aquele menino aborrecido – como gosto dessa palavra, a-bor-re-ci-do – atrapalhado com as garotas. Os olhos molhados de vergonha, o rosto vermelho de medo e o desejo de ser outra coisa.
Faço caretas no espelho mas não reconheço quem através dele me olha com a lÃngua pra fora, os dentes de vampiro, caninos pontiagudos.
Não reconheço esse que me olha do espelho.
Os olhos vermelhos de vergonha e medo. Coleciono ataques e punhetas convulsivas. Neurastenias crônicas, as pernas tortas, pisando na bola no futebol de terra batida. Os cretinos dribles odiosos.
Os olhos fixos de um São Francisco perscrutando o vazio.
Quem não gosta de criança e bicho não pode ser bom sujeito. Sou o pior dos cretinos. Esta constatação me deixa livre o caminho para anunciar a sordidez das vidas que me rodeiam. Não gosto de nada, crônico e convulsivo.
Parece mesmo que transformaram Auschwitz em parque temático, uma Disneylândia com suásticas e uniformes da SS.
Os cretinos do colégio eram os craques com a bola nos pés, sempre os mesmos canalhas.
Esta é a minha vingança pessoal. Contra os dribles que levei deles deixo um livro como desforra. Para nada...
Maradona, a verdadeira alma de boleiro. Por que torcemos para esses canalhas filhosdeumaputaqueospariu? Isso não entra na porra da minha aborrecida e abominável cabeça.
Preciso de uma poltrona e uma biblioteca dentro do banheiro desse quarto de hotel.
Um conhaque antes de deitar. Trinta anos de afogamentos. Você já viu a cara de um enforcado?
Insone aos seis anos. As noites cheias de sombras, assaltos e um Mefisto debaixo da cama.
Não pagarei colégio pros meninos. Não ter filhos pode ser uma opção puramente estética, seja lá o que isso signifique... Também nenhuma parcela atrasada de IPTU.
Insone desde os seis anos. O medo e a vergonha. O menino que bebia chá frio servido pela mãe no meio da madrugada.
O susto aos oito anos. O primeiro dia de aula como o abandono. Me lembro e invento para esquecer.
O colégio. Rodriga foi meu primeiro amor.
Os copos jogados pro alto e gritos de mamãe.
Meu pai era o meu Fitipaldi tricampeão. Chorei em 82. Chorei de novo em 86. A Seleção foi minha última comoção nacional.
As garotas do colégio. Não tinha namorada. Brincava sozinho, já era sozinho e não me importava. Preguiçoso e não aprendi a ler. Acho que era do tipo que despertava o nojo e a complacência entre as professoras. Mas tinha as minhas pequenas graças bissextas.
O menino aborrecido, aos quinze anos ainda brincava sozinho com Playmobil. Achava o sexo um ato pecaminoso, exceto para a geração do filho, reprodução da espécie.
Vou fazer trinta e seis e choro todo ano. Todo dia vinte de setembro misturo conhaque e calmantes e saio de órbita. Não me aborreçam.
Cristina na turma da Tia Conceição. Os gêmeos abomináveis Edimar e Edimar, sádicos e desonestos no futebol. Regiane e bomba na 7ª Série. Leila Piranha na 7ª repetida, a do Juscelino Corno.
Só os cretinos fazem sucesso no futebol – exceto o Tostão e meia-dúzia. Por isso me amarro nas canalhices do Maradona. Ele dá ao jogador de futebol sua verdadeira alma... de cretino. Aprendi isso jogando bola na 6ª Série, a dos gêmeos Edimar e Edimar.
Um paÃs insosso que se arrasta entre os ufanismos bestas do Galvão Bueno e a previsibilidade tola de um povo mal armado na cretinice crônica do Gilberto Gil. Todo mundo é baiano. Somos uma vergonha. Os cretinos assumiram os melhores lugares apoiados pelos mesmos canalhas de sempre.
Tenho, entretanto, o Nelson Rodrigues. O Marcelo Mirisola. E algum filme clandestino dos anos sessenta.
Não sou nada real. Somente o leitor aciona algo em mim. Insone desde os oito. O medo. O que se esconde atrás da porta? E debaixo da cama? Quem morreu naquele quarto?
Morreu quem nunca deveria ter nascido, o menino desajustado por natureza, que passou trinta anos pedindo desculpa por não ser tolo e feliz como qualquer um. Recusou participar da festa quando já era tarde. Perdeu vinte anos tentando fazer igual e se ferrou cada vez mais. Até o dia em que decidiu dizer „„foda-se‟;‟; mas era tarde para qualquer revoluçãonzinha. Não passa de um ridÃculo homem de trinta e cinco mal vividos anos, que perdeu a hora da vida inteira.
Sem fôlego, olhando fixo o vazio como um São Francisco. Minha cara de cu. Eu não gosto de nada.
Por outro lado, é fundamental ter leveza e manter certa distancia. A canalhice do Pernalonga me redime. Algumas páginas salvaram a minha vida. O desajuste é um acerto de contas, a afirmação do menino que não morreu. Todas as garotas, aquelas piranhas dos meus quinze odiosos anos, empaladas com esta caneta Bic precisa e abominável – a-bo-mi-ná-vel. Gostei dessa imagem. Empalamento com caneta fálica e outros assassinatos de grávidas lÃricas no Dia das Mães. Quero tudo isso solenemente desleixado. Os olhos, os meus e os delas, virados pro vazio.
Lula é a esperança que venceu o medo? Então só me resta concluir que a esperança foi assassinada.
Hoje, filmes dublados na Sessão da Tarde. A vida descafeinada com adoçante dietético Zero Cal.
Naquele tempo meus pés não tocavam o chão. Era criança, uma inocência sórdida; lente pela qual tudo ao meu redor parecia mortalmente encantado.
Só mesmo com uma garrafa de uÃsque para agüentar isso aqui.
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