Instintos do Cão

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Caloan Walker · Salvador, BA
26/7/2014 · 1 · 0
 

Não era um domingo, sequer era ainda primavera, mas a limpidez daquele céu de um anil quase radioativo, virginal e santo, foi penetrada pelo sol e o calor tão imperativo convocava todas as criaturas vivas a exporem seus corpos em público. Ninguém estava imune, nem mesmo Bobby, que assistia a tudo aquilo de sua casinha, com olhos cumpridos e uma carência inabalável.

Toda aquela excitação era sentida no ar, através de uma mistura de pólen e hormônios. Bobby, uma criatura de faro aguçado e paciência amputada, ficava mais inquieto à medida que se sentia excluído daquela alegria inexplicável. Ele não pensa como o resto de nós, isso é óbvio, assim como o é dizer que seus instintos o dominavam com uma ferocidade impressionante.

Ele, justamente o Bobby, que sempre dava um jeito de dar uma escapadinha e participar de todo e cada churrasco em que abundavam carnes apetitosas que berravam seu nome - e que ele ganhava usando o velho truque do "olhar de filhotinho abandonado" -, oh, mas por que ele deveria se privar da atenção de todo mundo?

Esse tipo de "reflexão" não tomou esse formato de lamúria, em seu cérebro pequeno e limitado, mas de puro desejo. O auto-controle e o bom senso já estavam começando a feder mais que as fezes do cachorro vizinho no jardim. Bobby confunde desejo com fome. Precisava se saciar. Seus músculos, que sempre tiveram uma vida independente, o atiraram para fora da cama.

Isso! Um dia assim não pode ser desperdiçado. Lá se foi Bobby, o impetuoso. Foi-se, decidido, irrefreável como um touro. Precisava ir ser feliz, como todos de seu tipo, meter a fuça nos fundilhos alheios para fiscalizar e separar aqueles que ele conhecia bem (seus "mais chegados"), daqueles que ele não conhecia e que apresentavam uma ameaça ao seu território pelo simples fato de estarem ali, arrastando seus cus rua abaixo, em sua rua de estimação.

Ah, só de pensar naqueles bichos estranhos andando por ali, felizes e despojados como gatos vagabundos, Bobby já franzia toda sua fronte e arreganhava os dentes. Ninguém podia impedi-lo de manifestar sua selvageria ancestral: clicou no campo dos comentários e pôs-se a atacar freneticamente os homossexuais, especialmente depois que ficou sabendo que um jogador de futebol deu um selinho em seu amigo. É que Bobby (como era chamado pelos pais; entre os amigos atendia por "Betão") já não podia mais falar de raça com tanto desdém porque era contra a lei, e se ele fosse pego... bem, digamos que ele tremia bastante quando pensava na lenda urbana sobre o sabão no lugar ao qual ele poderia ser mandado. Acordado, tremia de medo, e sonhando tremia de vontade.

Sobre a obra

Fábula publicada online, em perfil do autor no Facebook, em 19/08/2013, sobre instintos e desejos secretos de internautas homofóbicos.

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informações

Autoria
Caloan Guajardo
Ficha técnica
Fábula publicada online, em perfil do autor no Facebook, em 19/08/2013.
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