Meia vida

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R. Ruas · Rio de Janeiro, RJ
17/3/2013 · 0 · 0
 

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Toda biografia começa afirmando-se honesta até onde pode, como se fosse um desses selos que determinadas instituições exigem em determinados produtos. Tal compromisso soa-me como a aceitação de fidelidade diante de todas as agruras, algumas nem mais relativas ao nosso tempo, por parte de casais submetidos a padres. Quando de tais cenas, nunca tendo protagonizado uma (“and God help us”), sempre sinto a traição começando com o “sim”, ou seja, a fidelidade ruindo no exato momento em que se consente a união, o que não chega a constituir problema. Logo, no momento mesmo em que afasto a deusa Fiel, as ninfas que se chamam Lembranças rodeiam, escondem-se, sempre brincando, tentando-me, e isso por mais que eu pose de inspetor, o mesmo se dando com as palavras, que, ao longo da história, sempre um ou outro tentou corrigir, negando-lhes os direitos essenciais. Se houve um admirável Confúcio afirmando que “ordens que não são perfeitamente expressas não podem ser cumpridas”, isso me serve mais de desculpa pelas minhas faltas do que de exemplo – afinal, para que mais ordens, e mais esmiuçadas? Se houve, milênios depois, um brilhante Círculo de Viena, que tanto perseguia palavras que correspondessem a positividades no interior de uma gramática mais limpa, isso me permite melhor divisar as belezas que encerram determinados erros ou vaguezas em linguagem; ela crescendo como as ruas. É claro que não se trata, aqui, de desvalorizar esse trabalho de precisão a que devem, sim, dedicar-se os filósofos, tanto quanto os conceitos são-lhes fundamentais. Só fico em dúvida com relação a tal projeto, se possível, levado ao limite; só ficaria ressentindo-me de tantos horizontes, impressos nas mais sutis colorações, que se abrem quando de uma palavra ou outra mal calibrada. Suponho ser por isso que muitas belas páginas foram escritas.
Então, que assim fique: esforcei-me para, conscientemente ao menos, não ceder às ninfas, o resto ficando por conta do resto.
No mais, os limites para esta meia-vida, um tanto arbitrários, determinaram-se por elocubrações que seriam caras a um Wilheim Reich, por exemplo: do ato que me deu a vida, cuja energia é, segundo Reich, a mesma que deu origem ao Universo, um orgasmo (contanto que seja virado para lá), até a primeira vez em que fiz circular tal energia. Não pude encontrar fim mais prazeroso.

Sobre a obra

Um pouco de minha infância e adolescência.

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Autoria
R. Ruas
Ficha técnica
Ficção
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