Não esqueça de fechar a porta

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Ja Fagundes · Porto Alegre, RS
12/5/2010 · 0 · 0
 

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Não esqueça de fechar a porta



Sentado na poltrona aproveito os momentos de repouso que dia a dia passam a ser mais curtos. O trabalho me absorve, leio muito, os livros folheados permanecem desde ontem sobre a mesa, o número onze da Barsa continua no assoalho com dois capítulos assinalados por marcadores, e há também as revistas de medicina e os semanários e a última Veja. Preciso juntar os dados que me são de utilidade, a teoria é que sustenta a prática e um teórico do estado letal não prescinde das pesquisas. A estante está de livros até o teto mas minha mulher não os quer em outro lugar, tenho que espalhá-los por aqui embora já não exista espaço conveniente. Por vezes sinto sufocar. Também conservo grande apego aos meus pequenos objetos – a caneta de ouro, as folhas de canson, a prancheta, a caderneta que serve de agenda, e os outros – o bisturi, a gaze, a pinça e os alfinetes, que são afinal os mais importantes. Meu prazer libidinoso, conforme o palavrear de Helga, é daqui desta poltrona controlar meus animaizinhos queridos. São cobaias os seis peixinhos que tenho no aquário, o último que adquiri – o da verruga avermelhada – é de uma docilidade absoluta, talvez escolha-o para a turma do terceiro ano. Os sapos, eu os deixo soltos pelo gabinete, minha mulher os odeia. Eles aprenderam a não me saltarem nas pernas, me olham de longe, sabem que me anteciparei à primeira aproximação – os acho repelentes. E as borboletas jazem em meu colo, enfileiradas como num exército, as asas matizadas abertas com exagero, alfinetes espetados em seus metatórax de ponta a ponta.























































NÃO ESQUEÇA DE FECHAR
A PORTA

Conto






Jacira Fagundes








Sobre a obra

O conto "Não esqueça de fechar a porta" é um dos 22 contos de meu último livro - "No limite dos sentidos", lançado em 2009.
Um professor narra, em primeira pessoa, sua condição de prisão domicialiar após ser afastado do trabalho por crueldade e sadismo durante a prática escolar. Sua única interlocutora é a empregada que, a mando da patroa, faz a faxina no gabinete onde se encontra recluso.

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Autoria
Jacira Fagundes
Ficha técnica
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