Tem coisas na vida que são realmente uma sina. Não dá pra desviar, por mais que se esforce. Esse parecia ser o caso de Plínio, que completava cinquenta anos naquela data. Era mais um aniversário, mas este tinha sabor especial. Não só por comemorar meio século, mas também pelo estratégico momento pelo qual passava. Pois não é que Plínio vislumbrava um leque de oportunidades para enriquecer, fazer dinheiro mesmo, como nunca antes em sua vida ? Olhando o passado, ele agora compreendia porque outras empreitadas não alcançaram o resultado almejado, e conseguia perceber a chance que se apresentava no momento. Para compreendermos toda a saga de Plínio, iremos retornar a sua infância, quando a vocação para os negócios já despontava em sua personalidade.
Lá pelos cinco anos de idade, o menino surpreendia os pais pela desenvoltura com que administrava seus irrisórios bens pessoais. Roupas, guloseimas, brinquedos eram emprestados, trocados, cedidos e vendidos de uma forma excessivamente madura para uma criança tão pequena. E assim o garoto crescia, em família de classe média alta, cercado de mimos e agrados - uns pertinentes, outros nem tanto. Possuía um irmão e uma irmã mais novos, com os quais tinha um convívio amistoso, mas sem grandes intimidades. Preferia andar com gente mais velha, falar de coisas grandes, horizontes sem limites. Aos doze anos de idade, já era um mestre na barganha, deixando os parentes boquiabertos com as transações que fazia. Qualquer coisa que ganhasse não permanecia em seu poder mais que uma semana, geralmente sendo negociada com alguém visando a obter uma pretensa vantagem.
Pois foi exatamente nesta época que Plínio presenciou a separação dos pais. Ele nunca fora muito apegado a eles, embora se relacionasse muito bem com os dois. Era pragmático: o pai era a fonte dos recursos; a mãe, o porto seguro dos sentimentos. Administrava a relação familiar da melhor forma, sem conflitos ou confrontos, exceto algumas repreensões que levava de vez em quando devido ao seu espírito empreendedor. Os outros irmãos menores pareciam extremamente afetados pela separação, enquanto que Plínio, após conversar com a mãe, demonstrou apenas preocupação com relação ao sustento da família. Afinal de contas, considerava-se um rapaz bastante realista, cônscio de suas possibilidades e limitações. Sendo tranquilizado pela genitora, não demonstrou mais interesse pelo assunto.
A partir dessa época, passou a se considerar o homem da família, visto que o pai raramente os visitava na residência. Preferia pegar os filhos para sair, mas Plínio sempre estava bastante ocupado com suas elucubrações comerciais. Quase que naturalmente, era preterido pelos irmãos nos passeios, o que de certa forma tinha a concordância da mãe, que imaginava ter o primogênito a seu lado. Aos quinze anos, ele começou seu primeiro negócio oficialmente: comprava camisetas de malha numa fábrica e levava a uma estamparia no outro lado da cidade, revendendo-as no prédio e, posteriormente, no colégio. Até que conseguia juntar algum dinheiro às vezes, mas era só alcançar certa quantia que não resistia e reinvestia em outra empreitada, geralmente adversa. E assim perdia tudo, recomeçava, perdia e recomeçava, num ciclo infinito.
Aos dezoito anos, completou o segundo grau e decidiu não cursar uma faculdade. Tinha sólidos argumentos que comprovavam sua opção: não queria ser um idiotazinho teórico, desses letrados que não conhecem o mundo. Ia fazer a vida por si só - comprando, vendendo e negociando. A mãe, desolada, não sabia mais o que fazer. Já havia inclusive recorrido ao pai, que tentara em alguns encontros reverter a posição do rapaz. Mas ele parecia convicto, e nada iria demovê-lo de seu destino. Desta forma, passaram-se mais de dez anos em que ele exerceu atividades diversas. Teve uma barraca de roupas numa feira popular, em sociedade com um amigo; foi representante comercial de três empresas de ramos diferentes; possuiu um pequeno comércio no subúrbio; negociou computadores montados em casa com peças contrabandeadas. Comprou, vendeu e trocou diversos automóveis e motocicletas, e foi enganado e roubado inúmeras vezes.
Beirando os trinta anos, namorara bastante, passara por três relações estáveis e tinha dois filhos, embora ainda morasse com a mãe. Como não possuía muitas obrigações financeiras – tivera pelo menos a sapiência de engravidar meninas afortunadas – juntara algum dinheiro, que pretendia aplicar em um negócio, talvez o mais promissor de sua vida. Sim, dessa vez não era um negócio qualquer, era “o negócio”, aquele que poderia multiplicar o seu dinheiro diversas vezes em pouco tempo. O que planejava era o seguinte: abrir uma loja no Centro com um grande amigo seu, o Osvaldo. Mas não seria uma loja qualquer. Iriam vender roupas, mas com serviços de fotocopiadora e chaveiro. Nos fundos, funcionaria uma representação comercial de brindes, cujos contatos - clientes e fornecedores - estavam sendo providenciados pelos dois há tempos. Não havia como não dar certo devido às múltiplas atividades, pensava. Diluição do risco e das sazonalidades. Mas tinha um problema: o amigo não entraria com capital, só com trabalho. Então, Plínio devia casar a parte do Osvaldo vendendo o carro.
A mãe reclamou veementemente, já estava cansada daquela vida enrolada do filho. Entretanto, ele alegou ser dono do próprio nariz. E o automóvel estava em seu nome, ela nada poderia fazer para evitar. O máximo que tentou foi cortar as pequenas ajudas periódicas que prestava ao filho, cobrindo algumas despesas inusitadas que sempre surgiam. Porém, o rapaz protestou com veemência, para depois implorar solidariedade. O coração de mãe não aguentou e cedeu, continuando a ajudá-lo. Ela até inteirou a quantia para o empreendimento, que consumiu mais que as economias do jovem e o dinheiro da venda do carro. Embora não acreditasse em nada que ele dissesse, ela torcia para dar certo. Sempre torcia. Lá no fundo, até que acreditava um pouquinho. E assim, Plínio se enfiou em mais um negócio com retorno potencial enorme. Segundo ele, finalmente iria saldar a dívida de gratidão que possuía com a mãe, proporcionando a ela, enfim, uma vida sem preocupações. Além, é claro, de provar ao pai que era capaz.
Como era de se esperar, seu projeto fracassou por completo. Não que Plínio fosse desprovido de tino comercial. Ele era um excelente vendedor, com uma lábia inconfundível. Também possuía uma boa visão de compra e venda, sabendo onde encontrar os produtos certos para cada perfil de cliente. Todavia, era um péssimo administrador, e tinha uma enorme tendência a confiar nas pessoas. Em todas as pessoas. Seu grande amigo de infância, o Osvaldo, desviou dinheiro durante uns quatro ou cinco anos, consumindo a maior parte dos lucros da loja. Até ele admitir que estava sendo trapaceado, o comprometimento financeiro já era irreversível. Por outro lado, apesar de atuar bem como representante de outras empresas, fechava pedidos enormes com inadimplentes e não tinha a menor vocação para cobrá-los. Desta forma, encontrou-se aos trinta e cinco anos falido, cheio de dívidas e procurado por inúmeros credores exaltados.
O mais surpreendente de toda essa história é como Plínio se negava a admitir que fora passado pra trás. Ele parecia completamente cego, e se alguém apontasse as evidências, ele interpretava como um complô contra ele. Com certeza, era a inveja dessa gente que não suportaria vê-lo prosperar. Se fosse alguém da família, considerava simplesmente como incompetência em enxergar mais longe, em alcançar todas as possibilidades, que para ele eram tão claras. Mesmo com as portas da loja cerradas, móveis e estoques apreendidos, ele ainda tinha fé na recuperação do empreendimento. Foi preciso ter a linha telefônica e até a eletricidade cortada para que encarasse a realidade e retornasse taciturno ao lar, como se tivesse deixado para trás um pedaço de si mesmo.
Não sendo tão novo e com um currículo bastante limitado, era natural que Plínio tivesse bastante dificuldade em encontrar uma colocação no mercado formal de trabalho. Assim sendo, trabalhou por alguns anos quase de graça, acreditando na promessa de novos e velhos conhecidos, todos quase sem nenhum caráter. Mesmo assim, ele nunca perdia a pose nem a esperança, estando sempre prestes a fechar um grande, um excelente, um lucrativo negócio. Era um contato com alguém importante que conseguiria, um lote de mercadorias que iria arrematar, um equipamento de estampagem que lhe faria fortuna. Entretanto, a mãe via a própria idade avançar e andava muito preocupada. Afinal, não estaria pra sempre ao lado do filho, e o que ia ser desse moço sonhador, que já tinha quase quarenta anos ? Seu pai há muito se afastara dele, considerava o filho um lunático. Entretanto, bastante pressionado pela ex-esposa, o genitor resolve interceder em favor do filho, apelando para amigos.
Plínio conseguiu, então, um emprego numa grande distribuidora de alimentos. Representação comercial, naturalmente. Era o que sabia fazer. Mas não era pra ser um vendedor de ninharias, pouco considerado e daqueles que perdem o emprego na primeira meta não atingida. Desta vez, tinha vínculo formal e salário fixo, além da comissão. Fora os benefícios. E representava uma empresa de algum renome. Ainda que não tirasse um pedido de primeira, no mínimo era ouvido pelo potencial cliente. Em casa, dava gosto de ver o semblante da mãe arrumando o uniforme do filho, como se ele fosse um garoto. Sim, usava camisa com logotipo e calça na cor padrão, como todos os outros do setor. Nos dois primeiros anos, ele até que se orgulhou de pertencer aos quadros da empresa. Era do tipo falante, popular, e que se dedicava à companhia. Entretanto, alguma coisa começou a incomodá-lo naquela rotina, apesar de ele não saber exatamente o que era.
A mãe notou a mudança no seu comportamento, e rezava todas as noites para que ele não cedesse às más influências, às tentações que o desvirtuariam mais uma vez. Plínio parecia impaciente; mais que isso, angustiado. Não poderia admitir a verdadeira razão por trás de sua insatisfação: trabalhando para os outros, ele jamais seria rico. E o que Plínio queria na vida era exatamente isso. E também ter influência, fama e poder. Era o seu mais profundo desejo, uma força incontrolável que regulava suas ações e resistia a todas as intempéries. Pressões familiares conseguiram segurar estas pulsões durante mais algum tempo. Entretanto, aos quarenta e cinco anos Plínio comunicou a todos que estava demissionário. Entrara em acordo com a empresa, e receberia uma quantia razoável, o suficiente para que ele investisse em mais um negócio.
A pobre genitora do homem parecia não estar preparada para tamanho golpe. Mas por que desgraça o filho não tentava se encaminhar como os outros, não conseguia deixar de ser um pobre de um perdulário sem rumo ? Preferia mil vezes que tivesse um emprego humilde, estável, que pudesse propiciar a ele um futuro com mínimas condições e a ela uma velhice com mais alento. Entretanto, ele parecia imbuído de uma força-motriz eterna, que se retro-alimentava independentemente das reações do meio. E é assim que Plínio iniciou mais um período de aventuras por conta própria, que durou pouco menos de quatro anos. O que ele fez durante este tempo ? Bem, inicialmente, pegou metade da indenização e investiu em uma carteira de ações, incentivado por um sujeito que conhecera numa fila de banco e que trabalhava numa corretora. A outra metade foi usada para montar uma pequena gráfica, juntamente com um ex-colega de trabalho que se desligara da empresa pouco antes que ele, sob acusações de embolsar comissões indevidas e de desviar clientes.
Não é preciso muito esforço para concluir que o dinheiro se esvaiu de suas mãos lenta mas continuamente. A aplicação financeira que realizara até fora bem sucedida durante certo tempo. Era um investimento agressivo em papéis secundários, de grande risco e com alto potencial de retorno. Nos primeiros dezoito meses, conseguira um ganho considerável, mais por sorte que por competência na escolha das ações. É o tipo de situação que pede determinação para saber a hora de sair. Mas o gostinho da vitória o incentivava a insistir cada vez mais, até perder praticamente tudo. A corretora não assumia a menor responsabilidade, pois quem investia era alertado sobre as regras do jogo. Quanto à gráfica, chegaram a comprar quatro máquinas de uma cor, além de outras tantas para acabamento. Porém, Plínio é passado pra trás mais uma vez, sendo que o sócio ainda emitiu inúmeras duplicatas frias, fazendo a empresa perder clientes e crédito na praça, além de sujar o nome de todos.
Pouco depois dessa sucessão de eventos, Plínio ainda sofre um outro baque: o falecimento de sua mãe. Bem, não fora um baque tão grande assim. Ou melhor, fora, mas tinha sua compensação. Precavida, a mãe possuía alguma reserva de dinheiro em moeda estrangeira, fato que os irmãos não precisavam saber. Isto propiciou a ele o sustento durante um período. Além disso, ela colocara o imóvel em nome dos filhos com usufruto até sua morte, poupando-os do inventário. Sendo assim, voltamos ao início da história, mais exatamente na data em que Plínio completa cinquenta anos de idade. Era mais um aniversário, mas este realmente possuía sabor especial. Ele tinha acabado de receber sua parte na venda do imóvel, e retomara alguns contatos antigos. Desta vez, não ia ter erro. Planejara cada detalhe junto com seu novo sócio. Qual seria, então, o novo grande negócio de Plínio ?
Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".
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