No dia 30 de maio de 2012, a cineasta Agnès Varda completou 84 anos de idade. No dia 1º de junho do mesmo ano, foi realizada a Marcha das Vadias em Aracaju. No dia 17 de junho terminam as inscrições para o 2º Festival Sergipano de Micrometragens deste ano. Nas três datas citadas, em algum lugar do mundo, alguém estava assistindo a um filme da cineasta Ana Carolina...
Por mais distantes que estes eventos possam estar geograficamente relacionados e por mais forçosa que seja a sua coincidência factual, eles revelam uma tendência contemporânea que encontra um eco salutar na capital sergipana, ainda considerada por alguns ideólogos renitentes um local provinciano ou culturalmente desprivilegiado: aqui, também se grita contra a opressão! Para além dos focos de contradição classista que foram alardeados antes da efetivação da Marcha das Vadias, o desfile de pessoas empunhando cartazes de protesto em defesa da valorização feminina e contra a violência sofrida pelas mulheres ao longo de vários contextos históricos encheu de orgulho até mesmo quem não entendia (ou fingia/preferia não entender) o que estava sendo clamado. E, apesar de a causa feminista ter acendido o estopim da Marcha, os gritos de protesto não ficaram subsumidos a isto: a militância era orgânica. Não há violência contra a mulher sem manutenção do capitalismo ou sem a associação espúria entre Igreja e Estado. Por isso, em meio à defesa do direito de se vestir como quiser, beijar quem quiser ou fazer o que bem entender, desde que se respeite as liberdades individuais alheias, podia-se ouvir reivindicações em prol da legalização do aborto, da aceitação comunal do amor livre, da necessidade da reforma agrária, em suma, contra toda forma de opressão, que é o que tematiza o tr3s.minutos deste ano.
O recente e bem-vindo reconhecimento do curso de Comunicação Social – Habilitação em Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe acrescenta um novo elemento ao afã dos conclamantes: uma maior preocupação com as facetas traiçoeiras da visibilidade midiática. Excesso de amostragem ou aparente permissão exibitória não correspondem necessariamente a uma coadunação discursiva. Tem que se saber o que se está mostrando, a quem se está mostrando, por que se está mostrando e o que se deseja obter com este ato de mostrar. E, nesse sentido, o atrelamento (não impositivo) do Festival a um tema-chave traz à tona a necessidade de um arcabouço temático. E não foi à toa que várias pessoas postaram vÃdeos da diretora Agnès Varda na comunidade virtual da Marcha das Vadias: esta cineasta belga feminista sabe sobre o que fala! Quando ela nos torna cúmplices de uma mulher angustiada que espera os resultados de alguns exames médicos em “Cléo das 5 à s 7†(1962), ela quer que fiquemos ao lado dela na transição de um comportamento inicial associado ao consumo fetichista para um gradual reconhecimento de suas liberdades sociais reprimidas pelo capitalismo. Quando ela nos faz observar a ternura de um marido adúltero e duplamente satisfeito em “As Duas Faces da Felicidade†(1965), ela nos faz questionar as limitações institucionais daquilo que se entende por casamento. Quando ela propõe e realiza o genial “Resposta de Mulheres: Nosso Corpo, Nosso Sexo†(1975), ela nos mostra que sexualidade e ‘marketing’ não devem mais ser absurdamente associados sob o nosso consentimento. Quando ela nos lança na reconstituição dos últimos dias de uma vagabunda em “Sem Teto Nem Lei†(1985), ela quer que repensemos o que o próprio termo “vagabunda†quer dizer e a quem ele serve. Quando ela homenageia o próprio centenário cinema em “As Cento e Uma Noites†(1995), ela demonstra que suas preocupações artÃsticas não são unilaterais, que qualquer gesto pode ser um ato de protesto quando se sabe o que está sendo combatido o ou que está sendo reivindicado. E, sobretudo, Agnès Varda sabe que não se age solitariamente no afã militante, mas em conjunto, coletivamente. Por isso, a associação pretendida com o cinema igualmente genial e feminista da diretora brasileira Ana Carolina não é casual: quem viu “Mar de Rosas†(1977), “Das Tripas Coração†(1982) ou “Amélia†(2001) sabe que, para ela, mulheres não são bibelôs. Mulheres agem, pensam, gritam, exigem, amam e são contrárias à s formas de opressão!
Durante a Marcha das Vadias, era impressionante a pletora de câmeras fotográficas e videográficas. Mais do que apenas registrarem os devaneios egóicos de alguns participantes do protesto, estas câmeras tinham por intento eternizar aquele grito revoltoso, historicizar o que os detentores midiáticos hegemônicos anseiam por confundir com espetáculo. E cabe a nós, a cada um de nós, discernir o que foi ato consciente do que poderia ser um mero refluxo exibicionista: os filmes das diretoras citadas são ativos. A Marcha das Vadias, também. Que venha o Festival Sergipano de Micrometragens e adicione um novo tempero audiovisual aos clamores anti-opressivos que emergem de Sergipe, de Belém, de Cingapura, de Papua Nova Guiné ou de qualquer outro lugar em que ainda, infelizmente, haja um homem oprimindo outro homem ou uma mulher!
Artigo colaborativo
Wesley Pereira de Castro
www.tresminutos.org
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