A Partida - percepções pós-filme

Andre Melman
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Andre Melman · São Paulo, SP
27/8/2009 · 0 · 0
 

Sabe quando já ficou claro que uma determinada atitude já não se sustenta mais, e ainda não existe uma nova atitude consolidada no lugar da antiga?
Aquela sensação de estar numa daquelas pontes entre montanhas, com o desfiladeiro abaixo centenas de metros, onde qualquer vento já desestabiliza o andar?
É inseguro até mesmo falar desse caminhar instável quando apenas vislumbres do outro lado são intuidos. É possível olhar pra trás e ver os pontos de apoio, o antigo que dá apoio a estrutura. Mas o peso vai se deslocando para um novo lugar de sustento, conforme se caminha adiante.

Uma atitude onde sinto essa transição é a atitude perante o fazer. Cresci aprendendo e sendo educado para encarar o fazer a partir do controle: eu quero, eu decido, eu controlo, eu faço, eu colho os resultados. Esse eu independente se esforça, se sacrifica e recebe sua recompensa. Praticamente todas as provas do mundo sempre disseram que esse modelo funciona - luntando, competindo, se sacrificando, eu me realizo.

Mas um incômodo vem surgindo, de forma quase espontânea passei a intuir, sentir, absorver uma nova possibilidade: o deixar que seja feito, o abrir espaço para que um algo novo surja. Um questionamento profundo em relação ao fazer vem praticamente rasgando camadas de condicionamento.
Antes era por exemplo uma atitide de esforço trabalhando no mercado financeiro, para garantir meu sustento, meu conforto, meus ideais de casamento feliz, família, filhos e uma aposentadoria tranquila. Um movimento constante em relação à um futuro pessoal de auto-estima e paz, que sempre escapava pois era sempre futuro.
Também foi por exemplo a cobrança de ter que fazer algo pelo mundo, me juntar com outros que queiram mudar o que vemos, nem que fosse a partir da culpa. Todos juntos sofrendo, se estressando e tentando controlar as peças para um mundo melhor e em paz.

Seria realmente possível contruir um mundo de felicidade e paz a partir de uma atitude cheia de expectativas, controlando tudo e todos para que essas se realizem? Seria possível a partir de uma atitude de luta e esforço em relação ao mundo à minha volta? Perguntas como essas vem surgindo de forma inocente e crescendo em número e profundidade.

Lá estava a ponte de cabos semi-soltos, balançando à minha frente. E nessa ponte venho caminhando. Em alguns momentos parece um suicídio soltar o controle, parece ser um ato que ameaça a minha sobrevivência e ameaça as idéias de muitos à minha volta. Continuo nessa ponte, com muitos medos ao meu redor, mas quanto mais percebo onde estou, mais posso apreciar a vista, mais floresce uma confiança em algo que inclui tudo ao redor.

Um dos últimos filmes que assisti, "A Partida", traz alguns simbolismos fortes dessa passagem, dessa transição. Um filme japonês, que traz a força do silêncio, da comunicação não-verbal, do sentir.
Um jovem violoncelista do interior do país se esforçara para ter um lugar numa orquestra de Tokyo. Ficou chocado quando a orquestra em que havia conseguido o posto foi dissolvida.
Nesse momento lá estava a ponte bamba à sua frente, instável, insegura e sem nehuma garantia de levá-lo ao outro lado.
O bonito do filme é assistir a caminhada dele pela ponte, como um samurai, sendo o principal apoio a sua própria verdade - voltar para o interior, aceitar um emprego sem saber exatamente do que se tratava, fazer uma tarefa rejeitada por quase todos. A volta para o interior foi uma volta para si mesmo, um caminho para o sentir, para uma verdade independente de tantas crenças pessoais e coletivas, independente de tantos gostos e aversões.
O filme trata da morte, do corpo físico, mas principalmente da morte de um paradigma. A partida de um modelo para um novo, onde o medo pode dar lugar a talentos antes desconhecidos, a rejeição pode dar lugar à compreensão, onde o futuro pode ser um lugar que já existe agora.

Olhando dessa ponte já vejo que é possível soltar com mais tranquilidade meus planos futuros de sucesso e felicidade. Já vejo e sinto com mais frequencia que a paz existe somente agora, mesmo que muitos digam que não, me digam que está lá do outro lado da ponte, bem distante, onde só se chega com muito esforço e sacrifício.
Me inspiro no personagem japonês do filme, na coragem, na dedicação carinhosa, na possibilidade de ouvir a voz do silêncio, da verdade, mesmo com todos os medos do mundo girando ao redor. E vou percebendo o meu novo ponto de apoio, não no outro lado da ponte, mas num lugar muito profundo, aqui dentro.

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