Ave Caesar!

Tatiana Moura
Caesar Moura
1
Roberto Maxwell · Japão , WW
31/1/2007 · 67 · 0
 

Nada mais natural que Roberto Maxwell entrevistando Caesar Moura pelo MSN. Eu, porque vivo conectado 24 horas por dia, num processo que pode estar se tornando psicopático. Caesar, porque pode se orgulhar de ter sido o primeiro autor brasileiro a escrever um espetáculo teatral onde a internet é o tema principal. QUER TC?, escrita em 1999 e encenada pela primeira vez em 2001, mostra como as pessoas colocam a máquina como mediadora das relações sociais e afetivas. A partir daí, Caesar debateu nas suas peças teatrais a família, o consumismo, o universo gay... E, recentemente, retomou a carreira como cantor com um som bem distante daquilo que se reconhece como Música Popular Brasileira. Longe das fileiras que endeusam os mitos da MPB, é na ginga da black music que ele canta "protect your heart/use your credit card" no refrão de RENT BOY, que o autor liberou para ser compartilhada no Overmundo.

Pelo MSN, eu e Caesar conversamos sobre a carreira dele e muitas outras coisas. O texto integral foi mantido, assumindo o jeito de escrever na internet e outros detalhes que a rapidez do meio produz. Mas, vá com calma...


ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (02:46:52)
Comeca contando, obvio, onde comecou o Caesar Moura.

C A E S A R says: (02:48:37)
Começou no momento em que passei a ver meu trabalho como trabalho e não como sonho. O mundo não colabora com os sonhos pq o mundo é contra tudo que é "irreal". Mas o mundo colabora com o movimento, com a concretização.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (02:48:57)
E quando foi esse momento?

C A E S A R says: (02:51:39)
Quando desisti de tudo. Trabalho com arte, com cultura, num país chamado Brasil. É muito difícil. Vc pensa em desistir o tempo todo. Mas só quando larguei tudo vi que eu tenha feito tudo errado.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (02:52:13)
Nesse momento da desistencia, o que voce foi fazer exatamente?

C A E S A R says: (02:53:42)
No começo fiquei sem chão. Não fiz nada, vegetei. Eu sonhava em ser artista desde os meus 2 anos de idade. Um dia Fui para o interior da Bahia. Fui tabalhar como redator publicitário lá.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (02:54:16)
O que te trouxe de volta e o que voce trouxe de la?

C A E S A R says: (02:57:12)
O que me trouxe de volta foi a falência das relações que construí lá. Não das relações, mas de uma relação em especial. Resolvi voltar para o Rio de Janeiro. Mas de lá eu trouxe o reconhecimento de quem eu sou. Se até aquele momento eu julgava me conhecer, depois que voltei tive a certeza de que só naquele momento eu poderia ter uma dimensão de quem eu sou.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (02:58:07)
A partir disso, que voce comecou a se dedicar a escrever as pecas com as quais voce trabalha hoje, como QUER TC? e CONSUMIDOS?

C A E S A R says: (03:00:47)
Não. Eu já escrevia desde muito antes. Isso tudo aconteceu em 2000. Eu escrevo desde sempre. Peça eu comecei a escrever em 1994... Mesmo ano que comecei a fazer Teatro. Mas tudo que escrevi depois do meu retorno, CONSUMIDOS, BORBOLETAS e tudo o mais, veio de maneira mais consciente. Eu sabia o q eu queria escrever e comecei a lidar com o processo de uma forma mais autoral.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:02:24)
Entao, QUER TC? eh anterior a isso, mas a primeira montagem soh se deu em 2001, 2 anos depois de a peca ter sido escrita. E ano passado, acabou tomando todo o seu tempo, numa temporada em varios locais do Rio. Como a peca resistiu a tanto tempo?

C A E S A R says: (03:04:56)
Acho q é pq ela antecipou coisas que só agora estamos tomando consciência. Em 1999, quando terminei o texto, a internet, as salas de bate-papo virtual estavam aqui há 3 anos no máximo. Era tudo muito novo. Mas no texto eu já falava da tecnologia influenciando as relações humanas, eu já falava da "urgência" que a máquina nos impõe. Na época isso era original. Hoje isso é constatação. As pessoas..

C A E S A R says: (03:06:29)
Se identificam com isso. Por isso a resitência e a força do texto. Um dia vão montar de novo e será interessante para vermos q já pensavam nisso antes... Ou q, na melhor das hipóteses, nos assustamos com algo inofensivo. Acredito q esse texto ainda tem muito tempo de vida.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:06:51)
Quem eh o publico que tem visto QUER TC?

C A E S A R says: (03:09:32)
Todo o tipo de público. Os adultos sacam as sutilizes das tramas e se sensibilizam mais. Os adolescentes são mais vicerais! Escolhem seus personagens preferidos, reconhecem nas ruas, criam comunidades no orkut. E o pessoal da terceira idade se surpreende com tudo. Acaba sendo a melhor forma de terem contato com uma tecnologia que não diz nada para geração deles.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:11:12)
Depois de QUER TC?, voce promoveu as leituras de CONSUMIDOS, um texto que fala da atualidade atraves de um cliche antigo que eh o da familia migrante na cidade grande? Por que retomar a ideia do migrante "engolido" pela metropole? A que essa metafora de serviu?

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:11:34)
(Depois, de cidade grande nao tem interrogacao.)

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:11:58)
(A que essa metafora TE serviu?)

C A E S A R says: (03:14:21)
Eu morei no interior da Bahia durante 4 meses. Foi uma realidade completamente diferente da minha. Nasci e Fui criado em uma grande metrópole que é o Rio de Janeiro. Acho q CONSUMIDOS foi o resultado desse período que passei lá. Me sentia um Godzilla caminhando entre os pequenos prédios da cidadezinha baiana. O texto é um reflexo disso.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:15:12)
Qual eh o valor de falar de consumismo numa sociedade onde a arte virou um artigo de consumo?

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:15:44)
Como a arte pode ser isenta para falar de consumismo? Ou melhor, ela precisa ser isenta para falar de consumismo sendo ela mesma um produto?

C A E S A R says: (03:19:42)
A arte para mim é a capacidade de repensar a sociedade. Ela mais q ninguém tem essa possibilidade. Triste seria se ela não fizesse isso. Enquanto ela fizer, não terá sido "vendida", "consumida". Por isso a importância de se utilizar de um meio como o texto teatral (como poderia ser a letra de uma música ou uma foto ou um quadro...) para falar de uma questão social na qual a arte tb esta...

C A E S A R says: (03:19:52)
incluída na lista de "vítimas"....

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:21:14)
Depois do CONSUMIDOS, voce comecou a fazer leituras de um texto polemico que aborda a homossexualidade como tema central. BORBOLETAS fala do que exatamente?

C A E S A R says: (03:22:32)
Fala do preconceito e de algumas sequelas que ele gera no nicho que "vitimiza".

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:23:21)
Dai, botar armas nas maos dos dois protagonistas eh uma reacao a esse preconceito...

C A E S A R says: (03:26:55)
Rs. Sim. Mas é preciso entender que as armas são metáforas. Geralmente o homossexual é visto como um cidadão pacato, inofensivo, engraçado e caricato. Ninguém conta histórias sobre gays assassinos ou bandidos ou heróis de guerra pq acham q gays jamais seriam assim no "mundo real". Mentira. Por isso coloquei armas nas mãos das personagens principais. Ninguém é inofensivo. Principalmente alguém que...

C A E S A R says: (03:27:27)
é discriminado. Além de tudo, sou negro. Sei bem do que estou falando. Rs

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:29:17)
Mesmo com toda essa sua fala, o texto esta longe de ser uma defesa inconsequente dos homossexuais. Pelo contrario, ele eh bem critico acerca da homossexualidade, nao como orientacao sexual, mas como cultura e sub-cultura de guetos. Em que ponto a cultura gay dos dias de hoje precisa ser criticada? Isso nao esta fora da agenda do "reconhecimento" dos gays?

C A E S A R says: (03:33:28)
Se vc diz pro seu filho que tudo q ele faz é certo, ele crescerá sem saber o q é errado. E sofrerá com isso no convívio em sociedade. Será excluído até q desenvolva meios de sobreviver NO sistema. Afinal, falamos mal do sistema, mas no fundo tudo o q queremos é ser aceitos. Até aí, pra mim, mal algum. Só não acho q devamos fazer "qualquer coisa" por isso. Critico a maneira como a maioria dos...

C A E S A R says: (03:36:20)
homossexuais vivem a sua homossexualidade na Era Moderna pq acho que estão colaborando com o atraso na aceitação do óbvio: temos TODOS os mesmos direitos independentes de cor, credo ou do gênero sexual que levamos pra cama. Nesse ponto, acho q a cultural gay deve ser criticada, sim.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:37:17)
Que comportamentos seriam esses que os homoxessuais de hoje tem e que merecem a sua critica?

C A E S A R says: (03:42:09)
Para mim, a mais grave é a legitimização do "enrustido". Não sei se isso acontece nos outros países, mas no Brasil virou moda "ninguém ser gay" pq se "assumir gay" é "assumir um papel de afeminado", papel que o próprio meio gay ridiculariza. Isso é um retrocesso! Deveríamos caminhar para a aceitação integral de quem se é, até pq essa aceitação traz não só a naturalização na maneira como são...

C A E S A R says: (03:42:32)
vistos pelos heteros, mas uma naturalização dentro do próprio meio.

C A E S A R says: (03:43:59)
Não estou aqui...

C A E S A R says: (03:44:34)
Promovendo uma "caça as bruxas". Sair se apresentando...

C A E S A R says: (03:44:55)
Como gay pelas ruas é tão anti-natural quanto alguém se apresentado como hetero...

C A E S A R says: (03:46:29)
Mas não se pode confundir as coisas. Quando alguém se assume, assume para si as "responsabilidades" sociais dessa opção. Muitas vezes os homens não se assumem pq não querem assumir essas "responsabilidades" e na maioria da vezes são eles os maiores algozes sociais dos homossexuais.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:47:01)
Voltando ao seu trabalho, eu acabei pulando WALK, MEN! que foi a unica montagem que eu vi. Essa peca fala de familia e, sendo uma pessoa tao proxima de voce, eh impossivel nao reconhecer o Cesar nos personagens. O que te levou ser tao confessional?

C A E S A R says: (03:50:26)
A necessidade. Eu precisava exorcizar aquilo. Precisava falar dos meus fantasmas. Vc sendo próximo, deve ter reconhecido vários. Rs

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (03:52:58)
A tua montagem de WALK, MEN! e os teus textos mostram uma veia forte do pop. Alias, creio que vc eh um dos poucos artistas no mundo do teatro que nao tem medo de se dizer influenciado pela musica pop - mesmo a mais chiclete hahahahahha - ou pelos seriados americanos e outras coisas que sao frequentemente considerados como lixo cultural pelas altas rodas... Ate onde voce se apropria desses discursos e ate onde vc se afasta deles no seu trabalho?

C A E S A R says: (04:02:29)
Essa é a maneira q encontrei de ser consumido, não vendido. Quando escrevo ou componho, quero ser ouvido. Procuro meios então de conectar o que tenho a dizer com quem quero que escute. Adoro lixo pop! Todo mundo gosta! Só não tenho medo de parecer menos inteligente ao assumir isso! Rs.

ホ;;;;;;;;;ベ;;;;;;;;;ル;;;;;;;;;ト;;;;;;;;;三;;;;;;;;;丁;;;;;;;;;目;;;;;;;;; says: (04:03:35)
A entrevista ja esta gigante... Fala, entao, do teu retorno a musica. Pq voltar a ela exatamente no momento em que a sua carreira como dramaturgo decolou?

C A E S A R says: (04:06:06)
Tem coisas q preciso dizer e q só servem se for cantando! Tem uma estrutura na música q me fascina... música, clip, show... Através de um único ponto vc fala três línguas diferente! Através de uma letra vc canta, vc se expressa nos clips e vc vai pro palco... São três estágios a partir de uma única música. Um album tem 10 no mínimo. Imagina o tanto de possibilidades?

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