Basta “ouvir o mau tom do alheio” para perceber que a música popular brasileira vai sim, muito bem!
Uma colaboração tal qual um balanço - localizado num passado próximo - a respeito da MPB.
Sempre tenho ouvido gente reclamar da qualidade do que toca nas rádios do país. Mas na verdade as pessoas se esqueceram que há rádios e rádios. Além do mais, quando o que se ouve não agrada basta trocar de sintonia. Por outro lado, opção é o que não falta para o velho aparelho doméstico; Discmans, tocadores de MP3, rádios na Internet que podem ser ouvidas e ou criadas pelos ouvintes e que oferecem para cada qual o som que melhor o apraz.
Para os que – como eu – não conseguem abrir mão de uma boa MPB o momento é bem agradável. O processo de renovação começara há alguns anos e continua. Nos últimos 10 anos se pode perceber o surgimento e a consolidação de novos nomes de grande talento com um novo tom e muita ousadia. De Lenine passando por Seu Jorge e chegando a Vanessa da Mata. A MPB está em processo de mudança e mesmo assim continua a mesma, que tanto fascina e agrada a quem se deixa por ela se encantar.
Em meados dos anos 90 quando os “grandes nomes” da música brasileira - em sua maioria surgidos nos fins dos anos 60 – começaram a destoar da suposta “tradição” que eles mesmo haviam criado, o alvoroço entre os ouvintes foi grande. Muitos se sentiram traídos outros tantos previam o fim da “ boa música” do país. Na verdade era uma demonstração de cansaço de uma geração que há mais de trinta anos se mantinha como vanguarda. Algo em princípio contraditório. Não se percebia, que tais ícones haviam se tornado um atravanco no desenvolvimento da MPB.
A decepção se tornara grande, mas também ajudara no reconhecimento de que “os cães ladram e a caravana passa”. Excelentes compositores com novas idéias e desprovidos de qualquer vínculo com qualquer coisa que poderia parecer ser "tradicional" surgiram de onde poucos ou ninguém esperava, vide Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante de “Los Hermanos” ou Marcelo Yuca de “O Rappa”.
Uma erupção de criatividade e um forte vento de renovação influenciou outros e permitiu o início lento, mas constate das mudanças.
O marco “histórico” na minha singela opinião fora o lançamento dos “Tribalistas” em 2002. O avesso da Tropicália e a superação da influência da mesma, o anti-movimento que abriu o espaço para o novo.
“O tribalismo é um anti-movimento
Que vai se desintegrar no próximo momento
O tribalismo pode ser e deve ser o que você quiser
Não tem que fazer nada basta ser o que se é”
Uma clara “aula” de como unir o pop e a MPB sem perder a qualidade nem se prender aos modismos gerenciados pelas grandes gravadoras e o seu jabá básico, que sustenta boa parte das rádios brasileiras atualmente. A tríade Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte se unira num projeto ímpar e mostrara à nova vindoura geração de músicos e compositores o caminho. Agora era só seguí-lo, mas sem se vincular.
Entre os nomes da “geração de 67”, Maria Bethânia, que não se envolvera com a Tropicália, foi a primeira a perceber o que estava acontecendo e ousou procurar essa leva de novos compositores. Ao gravar Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Chico César, Lenine e ser a primeira a reconhecer o imenso talento de Vanessa da Mata ela deixou claro, que também iria se enveradar por um novo caminho, e isso já na gravação de “A força que nunca seca” em 1999.
“A Força Que Nunca Seca”
Composição: Chico César/ Vanessa da Mata
“Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita
O que faz e equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta
Pra cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta
E a força nunca seca
Pra água que é tão pouca”
E ela ainda acrescentara, mostrando-se aberta ao diálogo e a cooperação, uma última frase:
“E a força nunca seca
Pra vida que é tão pouca”
Desse processo de reinício após os 35 anos de carreira, Bethânia sairia muito bem e lançou um disco antológico; “Brasileirinho” pós-tropicalista e ao mesmo tempo pós-tribalista. A reivenção da roda – como se antes ela já não existisse. Um trabalho com a leveza e a liberdade de quem acaba de começar e não deve nem precisa justificar - muito menos provar - nada a ninguém.
Por outro lado Seu Jorge com o seu “Samba Esporte Fino” e Marcelo D2 na sua bem aventurada " Procura pela batida perfeita" renovam as forças do samba e o mescla com o pop, o rap, funk, black e o soul deixando claro que “eles” – os novatos da MPB - chegaram para ficar!
E o clamor contemporâneo pelos “Ecos do ão” de Lenine se faz ouvir cada vez mais forte.
Ecos do Ão
Composição: Lenine e Carlos Rennó
“Rebenta na Febem rebelião
um vem com um refém e um facão
a mãe aflita grita logo: não!
e gruda as mãos na grade do portão
aqui no caos total do cu do mundo cão
tal a pobreza, tal a podridão
que assim nosso destino e direção
são um enigma, uma interrogação
Ecos do ão
e, se nos cabe apenas decepção,
colapso, lapso, rapto, corrupção?
e mais desgraça, mais degradação?
concentração, má distribuição?
então a nossa contribuição
não é senão canção, consolação?
não haverá então mais solução?
não, não, não, não, não...
Ecos do ão
pra transcender a densa dimensão
da mágoa imensa então, somente então
passar além da dor da condição
de inferno e céu nossa contradição
nós temos que fazer com precisão
entre projeto e sonho a distinção
para sonhar enfim sem ilusão
o sonho luminoso da razão
Ecos do ão
e se nos cabe só humilhação
impossibilidade de ascensão
um sentimento de desilusão
e fantasias de compensação
e é só ruina, tudo em construção
e a vasta selva, só devastação
não haverá então mais salvação?
não, não, não, não, não...
Ecos do ão
porque não somos só intuição
nem só pé-de-chinelo, pé no chão
nós temos violência e perversão
mas temos o talento e a invenção
desejos de beleza em profusão
ideias na cabeça, coração
a singeleza e a sofisticação
o choro, a bossa, o samba e o violão
Ecos do ão
mas, se nós temos planos, e eles são
o fim da fome e da difamação
por que não pô-los logo em ação?
tal seja agora a inauguração
da nova nossa civilização
tão singular igual ao nosso ão
e sejam belos, livres, luminosos
os nossos sonhos de nação.
Ecos do ão
Ecos do ão“
O CD “4” de “Los Hermanos” confirmara a forte tendência de a banda ser cada vez mais de MPB do que de Pop-rock. Talvez daí a repulsa que os quatro cariocas despertaram em muitos fãs do rock nacional. A banda, sei, já não existe mais. Mas mesmo assim vale a pena mencioná-la.
As guitarras distorcidas e a bateria carregada para acompanhar um sambão dor-de-cotovelo como “ Tenha dó!” presente no primeiro álbum da banda, que acabou ficando sobre as sombras de “Anna Julia” é pra mim musicalmente de uma genialidade incontestável. Nenhuma banda de rock nacional até então teve tantos músicos competentes ao seu dispor e uma qualidade lírica típica da música popular brasileira.
É de lágrima
Marcelo Camelo
“é de lágrima que faço o mar pra navegar
vamo lá
eu não vi, não, final
sei que o daqui teimou de vir tenaz assim
feito passarim
é de mágica que eu dobro a vida em flor
assim
e ao senhor de iludir
manda avisar que esse daqui
tem muito mais amor pra dar”
E por fim o primeiro CD de Vanessa da Mata, um dos mais impressionantes que já ouvi. Uma obra-prima da nova geração, um clássico contemporâneo por mais contraditório que isso possa soar. Maria Bethânia surpreendera a muitos ao comparar as letras da jovem de Alto da Garça no interior do Mato Grosso pela singela beleza aos textos de Guimarães Rosa. E muitas vezes isso não parece ser exagero, o repertório de frases dignas de Rosa parece inesgotável;
“velha de pouca idade”
“havia uma beleza ali ou era criatividade minha?”
“encontro bom é de dois”
“ouça o mau tom do alheio!”
“o tempo pirraça”
são apenas algumas das muitas pérolas que se pode ouvir nas letras de Vanessa da Mata. Infelizmente os “hits” dela até agora só se prenderam ao lado pop da sua produção musical privando muitos ouvidos – no caso específico do primeiro CD - de músicas maravilhosas como “Carta – Ano 1890” e “Viagem”.
Carta (ano de 1890)
Composição: Vanessa da Mata
“Ando nas ruas do centro
Estou lembrando tempos
Enquanto lhe vejo caminhar
Aguando a calçada
Um barbeia um velho
Deita a noite e diz poesia (serenata)
Vinho enquanto ouve choro costurar
Passei em casa, seu Zé não estava
Memórias Senhor Brás Cubas Postumavam
Enquanto vi passar Helena pra casa de chá
Devagar, bonde na praça
Ainda borda delicadeza
Torna a gente
Banca de flores
Libertando sorrisos no ar”
Já no segundo CD havia uma necessidade de se firmar como cantora – já que como compositora ela já estava estabelecida, “Essa boneca tem manual” ficou pop quase ao extremo, um aparente retorno ao “tribalismo”, que se revelou apenas um tributo (in)voluntário. Mas de muito bom tom!Novamente entre os sucessos ficou uma dádiva de fora; “Zé” intimista, mas sem ser Bossa Nova, brejeira sem ser banal, singela e forte.. tudo isso ao mesmo tempo.
E o terceiro e mais novo CD é uma clara afirmação, Vanessa da Mata é sim a nova estrela da MPB e veio - para alegria de todos os amantes da música popular brasileira - para ficar. “Sim” é um disco maduro, tem os elementos pop de “Essa boneca...”, mas retoma a linha do disco de estréia. Nele há de tudo um pouco do que a boa música do Brasil tem para oferecer quando não se prende a rótulos nem a supostas “tradições” que o Lobão denominara de “papauéricas*” e também uma pitada de Jamaica – onde foi parcialmente gravado.
A MPB está em um bom momento para quem gosta de apreciá-la e este tende a permanecer por mais pelo menos uma geração genial. Então basta sintonizar o rádio na estação certa ou buscar outro caminho para não perder o que há de melhor para se escutar.
Nota
*”Papaueira” é um neologismo criado por Lobão para definir a ala conservadora da MPB, presa as fórmulas tradicionais de sucesso à la “Bossa Nova para gringo escutar”, jazzísticas demais ou de eternas regravações no estilo “mais do mesmo mais uma vez de novo”. Se trata - segundo o criador do termo - de uma onomatopéia de “pa pa pa ra ra” canto típico que acompanha o violão na Bossa Nova.
Texto oportuníssimo, especialmente vindo de quem veio.
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