Berço Cultural: Natividade ou Porto Nacional?

1
Mario Martins · Palmas, TO
14/3/2006 · 86 · 0
 

Salvo melhor juízo, não me parece correto dizer que Natividade é o berço cultural do Tocantins. É verdade que o próprio conceito de cultura é muito amplo. Embora seja uma cidade antiga, eis que fundada por volta de 1734, portanto, com mais de dois séculos e meio de existência, há alguns aspectos pelos quais o título de berço cultural há de ficar mesmo com Porto Nacional.

Um destes aspectos é o número de jornais fundados em Porto Nacional. Exposição recente organizada pelos Professores Lailton da Costa e Aurielly Painkow, na ULBRA, em Palmas, mostra o extraordinário elenco de jornais que teve vida duradoura, mas também efêmera em Porto Nacional.

O primeiro jornal portuense foi O FOLHA DO NORTE(1891), do Coronel Frederico Lemos e Luís Leite Ribeiro. Sua tipografia foi comprada em Paris. O segundo foi O INCENTIVO (1902), também de Frederico Lemos e Luis Leite Ribeiro. O terceiro foi O NORTE DE GOIAZ (1905), fundado pelo Médico e depois Deputado Federal Dr. Francisco Ayres da Silva. O quarto foi o JORNAL DO POVO (1920), do Coronel Frederico Lemos, Quitiliano da Silva e Rafael Fernandes, dirigido por Abílio Nunes. O quinto foi o FOLHA DOS MOÇOS (1930) dos Frades Dominicanos, feito por alunos da Escola Santo Tomaz de Aquino. O sexto foi o GOYAZ CENTRAL (1945), do PSD, orientado por Adelino Gonçalves e Abelino Ayres. O sétimo foi A NÓRMA (1953), fundado por Osvaldo Ayres da Silva que também fundou O PORVIR (1922).

Pode-se mencionar ainda outros jornais, entre os quais, O POLICHINELO (1919), de Osvaldo Ayres. O PORTO NACIONAL JORNAL (1964), de Antônio Poincaré Andrade. BRASIL CENTRAL (1985), tendo como Diretor Getúlio Matos. O PARALELO 13 (1986), fundado por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues.

Em Natividade, a não ser muito posteriormente, se tem notícia da existência de algum jornal, como O CORISCO (1927), fundado por José Lopes Rodrigues e VOZ DO NORTE (1929), fundado pelo Médico Quintiliano Silva. Este jornal reapareceu em 1934, com a direção de André Ayres.

Mas isto não tira a importância de Natividade. Tanto é que o explorador, geógrafo, cartógrafo e engenheiro militar italiano FRANCESCO TOSI COLOMBINA, quando elaborou o MAPA DA CAPITANIA DE GOIÁS E DO BRASIL CENTRAL, em 1749, veio pessoalmente, em lombo de burro, de Goiás Velho até Natividade, conforme ele mesmo escreveu:

“ DA VILA DE SANTOS, GUARDANDO OS PONTOS DE LONGITUDE E LATITUDE E COM A DILIGÊNCIA QUE PODE USAR UM VIANDANTE DE PASSAGEM, FIZ A DERROTA(ROTEIRO) ATÉ ESTA VILA BOA, CONTINUANDO DEPOIS ATÉ NATIVIDADE E RECOLHI-ME OUTRA VEZ A ESTA VILA”.

Como se vê, o mapa foi feito por encomenda do Capitão-General de Goiás, Dom Marcos de Noronha. Tosi Colombina viajou em lombo de burro, saindo de Vila Boa e passando por Natividade, quando elaborou o mapa da Capitania de Goiás, inclusive o ROTEIRO para se sair de Santos e se chegar a Natividade, pelo caminho de Vila Boa (veja-se sobre o assunto, o livro FRANCESCO TOSI COLOMBINA, de Riccardo Fontana, Brasília, 2004, obra patrocinada pela Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal).

Entregou o Mapa, com dedicatória e explicações ao futuro Vice-Rei do Brasil-Dom Marcos de Noronha-, no dia 06 de abril de 1751, conforme ele mesmo escreveu. Como prêmio, recebeu licença para explorar por dez anos, a estrada carroçal que seria construída de São Paulo ao Planalto Central, passando por Goiás Velho e indo a Natividade, alcançando várias minas de ouro, além de uma SESMARIA de três em três léguas, para plantação de pastos e instalação de pontos de apoio.

Conforme Alencastre escreveu, em 1863, página 124, nos ANNAES DA PROVÍNCIA DE GOYAZ, o projeto não foi executado por falta de verbas. (Sobre a vida completa de Tosi Colombina, veja também o DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO REGIONAL DO BRASIL, letra T, no site www.mariomartins.com.br).

Mas há também outros aspectos, pelos quais Porto Nacional há de ser sempre considerada berço cultural do Tocantins. Embora o povoado de Porto Nacional tenha sido fundado por Antônio Sanches, em 1738, ou seja, quatro(4) anos depois de Natividade, a vida cultural em Porto Nacional sempre foi mais intensa.

Os escritores, por exemplo, nascidos em Natividade, podem ser contados nos dedos: 1) Francisco José Pinto de Magalhães (1760). 2)Frederico Nunes da Silva (06.07.1900). 3) José Lopes Rodrigues (01.12.1908). 4)Maximiano da Mata Teixeira (15.08.1910). 5) Amália Hermano Teixeira (23.09.1916). 6) Carlos Pacini Aires da Silva (23.03.1949), além de poucos da nova geração. Quintino Pinto de Castro escreveu sobre Natividade, mas era filho de Porto Nacional (31.10.1892).

Já os escritores de Porto Nacional podem ser assim enumerados: 1) Luiz Ferreira Lemos (21.06.1839). 2) Francisco Ayres da Silva (11.09.1872). 3) J. Aires da Silva (1900). 4)Osvaldo Ayres da Silva (30.11.1905). 5) João Fernandes da Conceição (10.08.1912). 6) Eulina Braga (21.04.1914). 7) Eli Brasiliense Ribeiro (18.04.1915). 8) Durval da Cunha Godinho (1919). 9) Antônio Luiz Maya (18.12.1926). 10) Pery do Espirito Santo (1927). 11) Ruy Rodrigues da Silva (28.10.1927). 12) Joaquim José Oliveira (1937). 13) Antônio Maia Leite (07.08.1938). 14) Jamil Pereira de Macedo (1939). 15) J. Cantuária (1940). 16) Gesina Cardeal Barros (07.07.1941). 17) Zezuca Pereira da Silva (1943). 18) Pedro Tierra (Hamilton) (26.07.1948) 19) Jones Ronaldo Pedreira (29.11.1952). 20) Célio Costa (19.12.1953). 21) Marinalva Barros (1955). 22)Célio Pedreira (13.04.1959). 23) Márcia Costa(24.03.1960). 24) Regina Augusta Reis (26.02.1960). 25) Renato Godinho (12.07.1960). 26) José Carlos Ribeiro (15.11.1969). 27) Eurivan Gomes (02.11.1976), além de tantos outros velhos e novos que a exigüidade de espaço não permite mencionar. Juarez Moreira Filho (03.07.1953) não é referido aqui por ter nascido em Ribeiro Gonçalves, no Piauí.

Quanto a Natividade, localizada no Sudeste do Estado, a 218 quilômetros de Palmas, com cerca de 11(onze) mil habitantes, continua com suas belezas naturais, além de ser a única cidade do Estado com o titulo de Patrimônio Histórico Nacional, conseguido em outubro de 1987.

Sua importância histórica é fundamental, porque além de ter sido sede da Comarca do Norte, nela viveu Joaquim Teotônio Segurado, conforme escreveu Suzana Barros.

Mas o título de BERÇO DA CULTURA oral e escrita do Estado do Tocantins há de ficar sempre com Porto Nacional.


*Mário Ribeiro Martins
é Procurador de Justiça e Escritor.
(mariormartins@hotmail.com)
Fone: (063)99779311 (063) 3215 44 96
Caixa Postal, 90, Palmas, Tocantins, 77001-970.
www.mariomartins.com.br

(REPRODUÇÃO PERMITIDA, DESDE QUE CITADOS ESTE AUTOR E O TÍTULO)

compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados