A democracia do Overmundo parece ser o local ideal para determinados temas. Um deles é o silêncio (nada) obsequioso do povo brasileiro acerca dos inúmeros compatriotas que, cansados de aguardar que o "gigante" desperte do "berço esplêndido" foram buscar oportunidades e reconhecimento em outros paÃses.
Muitos desses brasileiros são artistas e, através de sua arte, constróem uma imagem de como vivem os imigrantes longe de sua terra Natal. Daà a importância do trabalho de Ricardo Yamamoto, fotógrafo paulista de 32 anos, vivendo há 15 no Japão. Filho da terceira geração de nipo-brasileiros, Yamamoto chegou na Terra do Sol Nascente da mesma maneira que muitos outros "dekasseguis": veio com o visto especial criado pelo governo local para receber trabalhadores sazonais nipo-descendentes como forma de suprir a falta de mão-de-obra na indústria local. Apaixonado por fotografia desde que decidiu pela compra de uma câmera reflex, Yamamoto decidiu junto com a companheira, a cantora Sabrina Shikasho, sair da rotina das fábricas — onde se trabalha pelo menos dez horas diárias e seis dias por semana — e da mediana cidade de Hamamatsu para tentar, em Tóquio, oportunidades melhores de sobreviver de suas artes.
Na entrevista que segue, Ricardo Yamamoto conta sua história, suas influências na fotografia e apresenta o "vÃdeo-fotográfico" Brasileiros No Japão, criado para ser exibido no ShizudaiSai, o festival estudantil da Universidade de Shizuoka, onde ele, ainda, ministrou um workshop com estudantes.
Roberto Maxwell - Quando você chegou ao Japão e por que veio para o paÃs?
Ricardo Yamamoto - Cheguei em abril de ' 91 com minha mãe e minha irmã mais velha. Estava cursando o segundo ano colegial [atual Ensino Médio] e não tinha idéia do que queria (e se queria) fazer no Brasil. Então, foi aquele oba oba...
RM - A fotografia entrou na sua vida depois do Japão, certo? Como foi que você se interessou por fotografia?
RY - Tinha uma câmera compacta e ela quebrou. Resolvi comprar uma reflex que, entre outras coisas, você pode trocar as lentes. Aà me interessei por aqueles recursos e como eles funcionavam. Isso em... ´99, acho.
RM - Você chegou aqui para o trabalho nas fábricas como todo dekassegui. Você ja tinha trabalhado em fábricas no Brasil? Como essa rotina das fábricas afetou o seu olhar sobre as coisas?
RY - No Brasil só estudava, aquela coisa. No primeiro dia de trabalho aqui fiquei muito cansado por estar em pé parado por tantas horas, e assim fui vendo que vida de peão não é moleza. E o lado sedutor dessa vida me veio na forma de uma mountain bike linda que comprei com meu primeiro salário.
RM - Há coisa de um ano você e a sua companheira, a cantora Sabrina Shikasho, decidiram deixar o trabalho na fábrica, a cidade de Hamamatsu que é a de maior concentração de brasileiros no Japão, para viver em Tóquio. Até que ponto as artes de vocês influenciaram nessa escolha?
RY - Influenciaram muito, pois nos mudamos porque decidimos o que querÃamos fazer na vida e estar em um lugar propÃcio para nosso desenvolvimento era (e é) primordial. Se o plano fosse abrir um escritório de assessoria ou comprar um trailer para vender sanduÃche na praia, terÃamos ficado por lá.
RM - O seu interesse pela vida do imigrante brasileiro no Japão é
natual na medida em que você, como é bem lembrado no vÃdeo
Brasileiros No Japão, é um deles. Quando você passou a fotografar brasileiros no Japão? Pareceu-me que muitas das imagens foram fruto de trabalhos que, para outros fotografos, poderiam ser considerados como menores como registros de casamentos ou stills para peças de teatro. Em que momento estes registros passaram a ter o valor documental que você almeja no seu trabalho?
RY - Logo que comecei a fotografar por hobby. Fiz free-la para a revista Look [revista mensal para os assinantes de um serviço telefônico voltado para brasileiros que vivem no Japão] por uns três anos. AÃ, acompanhando a jornalista, fui assistindo à s pessoas contarem suas histórias para as matérias e percebi uma riqueza que ainda não consigo definir, algo nos indivÃduos que vivem aqui, passam por dificuldades e aquelas coisas. Então me interessei em registrar um pouco da história de várias pessoas individualmente ou em pequenos grupos. Nada de grandes acontecimentos, pois sempre gostei de ver mais os bastidores e o cotidiano do que algum tipo de apresentação ensaiada. E este cotidiano que vivemos hoje em cidades como Hamamatsu é fruto de uma transformação contÃnua, reflexo da caracterÃstica da nossa era, que é o movimento de populações e o impacto e transformação que isso implica nas sociedades.
RM - Você sempre cita como forte influência os trabalhos do
Henri Cartier-Bresson e do Sebastião Salgado. Em que medida esses dois nomes afetam o que você produz quando o assunto é a vida dos brasileiros no Japão?
RY - Há a parte estética, que é importantÃssima para que um trabalho que se comunica através da estética tenha repercussão; a impressão de intimidade, por parte do observador, do fotógrafo com o fotografado, o que não acontece com o fotojornalismo de consumo e, principalmente no caso do Salgado, a forma de abordar e organizar um tema. Há outros fotógrafos, mas esses dois já me resolveram muita coisa.
RM - A esmagadora maioria das fotos que você apresenta como trabalho autoral é em preto-e-branco e todas são em filme. Por que o foco no preto & branco? Quanto ao digital, você não tem interesse nele? Por quê?
RY - O preto & branco tradicional tem uma inclinação mais natural à arte por ser manual e por ser subjetivo e indireto, pois no mundo real nada é feito em tons de cinza. Mas a questão não é a arte. A questão é a excelência da qualidade e a originalidade que te aproximam do autor e de sua obra de forma intensa. Esse é o meu ponto de vista, pelo menos. Por isso trabalho com filme. Além do mais, com filme, há um respaldo maior em documentários, pois há uma matriz que é a imagem no filme e ali você tem o histórico e autenticidade da foto. No digital o negócio é outro, pelo menos eu acho.
É claro, há o fato de eu curtir o processo todo também.
RM - Falando em documentário, um de seus projetos é fazer um documentário fotográfico da vida dos brasileiros no Japão. Onde se encaixa o "video-fotográfico" Brasileiros No Japão dentro dessa idéia maior? Como você chegou à s fotografias que compõem o vÃdeo?
RY - O vÃdeo Brasileiros No Japão é uma forma opcional de apresentar as imagens e muito eficaz para certas ocasiões. Também foi feito para ser uma mostra prática de parte do material sem ter a responsabilidade de ser apresentado como um documento, mas que pode vir a atrair interesse para o projeto principal. A escolha das imagens que compõem o vÃdeo foi baseada pelo seu contexto e estética, dentro das opções que tinha.
RM - Você me entregou um roteiro de edição [nota: eu editei o vÃdeo Brasileiros No Japão] bem fechado, no qual as
fotografias obedecem a uma rÃgida escala de tempo. Como você chegou a esse roteiro? E a música, como foi construÃda?
RY - Pedi para meu irmão [o músico Régis Yamamoto] fazer uma música de uns 3 minutos e com certas caracterÃsticas e cadências baseada numa melodia adaptada e tomei a música como base para sincronizar e ordenar a maior parte das imagens. Aà fiz o roteiro conforme a idéia que já tinha na cabeça há algum tempo, que é muito parecida com um clipe comercial que fizemos para a Aquamare [uma marca de jóias].
RM - Voltando ao documentário fotográfico acerca dos brasileiros que vivem no Japão, o que você já tem em mente? Que olhar ou olhares seriam privilegiados nesse trabalho?
RY - O projeto ainda depende de algumas mudanças que podem acontecer durante a sua produção, inclusive ele ainda não foi oficializado. Cerca de 70% das imagens já foram captadas e a intenção é editar em torno de 40 a 50 fotografias, mais o texto. Exposições seriam, a princÃpio, a forma de apresentação, mas tanto o projeto finalizado quanto imagens avulsas podem ser publicadas em parcerias com outros projetos, contanto que estejam dentro do mesmo contexto. A data mais conveniente para a apresentação do projeto seria antes e durante as comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil.
O objetivo sempre foi registrar um pouquinho da comunidade, da nossa história que faz parte da teia de histórias da nossa famÃlia humana; e apresentá-lo de uma forma que promova a informação e a empatia das pessoas, quaisquer pessoas de qualquer parte do planeta, mas, principalmente, da própria comunidade e da sociedade japonesa. Na essência somos iguais e estamos sempre na busca por uma vida melhor, sofrendo e influenciando as coisas do mundo. Para isso, acho que a abordagem tem que ser pessoal e Ãntima, nada de distância. Os retratos são tão importantes quanto os planos mais gerais.
Assista a Brasileiros No Japão no link: http://www.youtube.com/watch?v=OAhwW7viDSk
Veja mais fotografias de Ricardo Yamamoto em http://www.photo.net/photos/ricardoyamamoto
Leia a primeira matéria da série, com o diretor Daniel Florêncio que fez o documentário A Brazilian Immigrant em http://www.overmundo.com.br/overblog/brasis-em-construcao-fora-do-brasil-i
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