REPORTAGEM PUBLICADA NA EDIÇÃO 26, DA REVISTA VOX OBJETIVA
Com três anos e meio de existência, Orquestra Filarmônica de Minas Gerais se torna referência nacional e mostra que gestão e inovação garantem grandes sinfonias
Lucas Alvarenga
A execução do Concerto para piano e orquestra nº. 2 em Sol maior, do russo Tchaikovsky, faz Diomar Silveira regressar à sua juventude, sobretudo, marcada pela arte. Nas bancas, o então rapaz comprava long plays de música clássica que o aproximaram de obras daquele compositor clássico, como o balé O lago dos cisnes. Natural de João Pinheiro, no noroeste mineiro, o hoje presidente do Instituto Cultural Filarmônica deixa os bastidores para acompanhar de perto cada apresentação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, que em surpreendentes três anos e meio desponta como a segunda maior executora da música sinfônica no Brasil.
“De dois anos para cá, a Filarmônica cresceu até mais que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp”. A análise da chefe do naipe de flautas do conjunto mineiro, Cássia Lima, é pertinente. Afinal, a instrumentista natural de Extrema, no limite entre Minas e terras paulistas, conviveu com músicos da Osesp em seu retorno ao Brasil e não esconde a satisfação de hoje exercer seu ofício em meio a um ambiente saudável e propício ao desabrochar da musicalidade. Dominic Desautels, canadense e chefe do naipe de clarinete, acompanha Cássia. Em sonoro português, aprendido com auxílio de sua esposa e instrumentista da orquestra, Ariana Pedrosa, o clarinetista ressalta: “Tem o Mechetti, um grande maestro. Acessível e com a cabeça no lugar”.
Sob a direção artística e regência titular de Fabio Mechetti, a Filarmônica se fez ouvir longe. Filho e neto de maestros, o paulista que trocou o jornalismo pela música clássica recusou inúmeros convites para ser maestro de orquestras brasileiras, até que o então governador de Minas, Aécio Neves, chamou-o para dirigir o novo conjunto sinfônico mineiro. “Só encontrei na Filarmônica um ambiente político favorável para a música erudita no Brasil. Em Minas Gerais há uma tradição secular para a música clássica. Basta lembrarmos o barroco ou o Coral Madrigal Renascentista. A questão é que nos últimos anos houve um decréscimo de investimentos em cultura por aqui, fato que este Governo reconhece e vem resgatando”.
Interesse público
A percepção do Governo de que algo poderia mudar surgiu com a aprovação das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, as Oscips. Por meio delas, o Estado firmaria termos de parceria com organizações e deixaria a cargo delas a missão de levar a cabo um projeto para o Estado. Pensou-se que esta seria a melhor solução para a Sinfônica de Minas Gerais. Tanto que a orquestra se dividiu entre favoráveis ao regime de contratação por CLT e os adeptos ao funcionalismo público. Livres para formar uma nova orquestra, o grupo de 35 músicos em prol da Oscip realizou audições para junto de outros 50 formarem a Filarmônica, do grego, amiga da harmonia. Em fevereiro de 2008, estreava o novo conjunto sinfônico mineiro.
“O espírito da lei é ‘toque isto para mim’. Afinal, o modus operandi do Estado dificulta a execução de determinadas tarefas. Eu acredito na lei que regulamenta as Oscips e o Estado confia para mim a tarefa de aplicar com qualidade os recursos destinados à Fundação”. A certeza de Diomar sobre os benefícios deste formato administrativo é o que moveu Mechetti para as Gerais. “O modelo trouxe resultados satisfatórios, eu vejo. Outros estados se sentem influenciados por ele, a exemplo de Sergipe”.
Atualmente, o presidente do Instituto Cultural Filarmônica trabalha no fechamento da temporada 2012. A antecedência é regra dentre diretores. Afinal, é preciso ter um planejamento minimamente pensado para que o Estado, parceiro da fundação, aprove o orçamento para a temporada. “A montagem de um concerto envolve vários elementos. São contratos, montagem de palco, iluminação, sonorização, transporte, seguros. Tudo em favor de uma programação de qualidade”, ilustra Diomar Silveira.
Toda essa logística de apresentação da Filarmônica nem sempre é compatível com a infraestrutura das cidades por onde a Orquestra se apresenta. O local tem que ter capacidade para instalar aproximadamente 100 pessoas. “Nós temos que privilegiar as cidades de pequeno a grande porte. Tanto que uma das nossas estratégias foi, por exemplo, ir para Montes Claros e também para Pirapora, Janaúba e Buritizeiro. Nestes municípios menores, nós dividimos a orquestra em grupos de câmara, levando cada naipe para um lugar. A carência é tão grande nesses cantos que gera fascínio. Tivemos público em todas. É bonito ver o interesse deles pela música clássica”, expressa eufórico o presidente do Instituto Cultural Filarmônica.
Harmonia em palco
Assistir a uma salva de aplausos ao término de cada concerto da Filarmônica não é algo restrito às cidades pequenas. No Palácio das Artes, a plateia, que normalmente lota as dependências do Grande Teatro, reflete seu estado de contentamento da melhor forma possível. “É gosto ver a receptividade do público com a Filarmônica. Sempre somos ovacionados com aplausos longos no final dos concertos em Belo Horizonte. O público daqui tem sede por cultura”, revela a flautista Cássia Lima. Na mesma linha, o clarinetista Dominic Desautels faz uma confissão. “Sempre achei legal essa vontade que o público mineiro tem de apreciar um concerto. O teatro sempre fica lotado. No Canadá, as maiores orquestras do país enfrentam dificuldades para encher uma casa”.
De jovens até casais no auge da maturidade, a Filarmônica se solidifica sem se prender a um público elitizado ou exímio conhecedor de música clássica. Os concertos também têm espaço para os mais leigos, que nem por isso deixam de se encantar com a música sinfônica. Talvez a razão para o encanto esteja na frase do maestro Fabio Mechetti. “Ser membro da Filarmônica é mais que ter um emprego, é fazer parte de uma história e vivê-la com prazer”. E movidos por esta convicção, o conjunto evolui constantemente. “Temos a certeza de que não chegamos ao nosso ponto final e nem chegaremos. O som da Filarmônica tem muito que amadurecer e aprofundar no estudo de cada obra. Estamos formando uma identidade”, argumenta Dominic.
Na intenção de continuar a trajetória de transformações sonoras que levaram a orquestra a atingir o posto de segunda maior do país, o maestro e a clarinetista apontam para uma questão primordial: a necessidade de uma sala própria. Um problema resolvido para futuro. No início do mês de agosto, o governador Anastasia anunciou a criação da Estação da Cultura Presidente Itamar Franco, que abrigará uma sala para concertos sinfônicos de 1.400 lugares e a sede da Orquestra. Até que a obra de R$ 140 milhões, prevista para 2014, seja inaugurada, Mechetti não esconde as dificuldades. “Precisamos de um espaço com a mesma acústica e que possamos ensaiar constantemente. Hoje, só temos acesso ao Palácio na véspera e no dia da apresentação”.
Ideias em execução
Enquanto o novo lar é imaginado em montagens e maquetes, o Instituto Cultural Filarmônica trabalha para oferecer diversidade a seu público fiel. A começar pelo programa de assinaturas da Orquestra, com 1.200 adeptos. Um conceito novo no país, que garante ingressos para uma série, a exemplo de Vivace, nas terças-feiras, e Allegro, nas quintas-feiras. Ambas apresentam obras pouco conhecidas e inéditas, com presença de convidados de renome internacional no Palácio das Artes.
Entre concertos voltados à juventude e com participação de jovens solistas, clássicos pelos parques da capital mineira, concertos didáticos, turnês estaduais e nacionais, nenhum se destaca tanto com os festivais. Um deles, o Tinta Fresca, procurar identificar novos compositores clássicos brasileiros. Já o Laboratório de Regência busca dar oportunidades a jovens regentes. “O regente sofre com a falta de oportunidades para praticar. Em uma orquestra, você tem violoncelistas, flautistas, mas um só regente. Então, esta é uma oportunidade especial, pois os novos regentes conduzem a Filarmônica”, garante Mechetti, responsável pelo projeto.
Diante de tantas ideias e diversidade, o canadense Dominic, músico de um dos nove países representados pela Orquestra, que também conta com instrumentistas de oito estados, incluindo Minas Gerais, deixa suas expectativas romperam fronteiras como o som da Filarmônica. “Hoje Belo Horizonte não está naquele eixo cultural forte, que é Rio-São Paulo. Mas, uma orquestra pode mudar isso. Afinal, ela traria benefícios e reconhecimento para toda a cidade, quem sabe até para o Estado. Então, que seja a Filarmônica a inserir Minas nesta rota cultural definitivamente”.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!