Bravos amigos da harmonia

André Fossati
Apresentação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais no Palácio das Artes.
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Lucas Alvarenga · Belo Horizonte, MG
6/10/2011 · 1 · 0
 

REPORTAGEM PUBLICADA NA EDIÇÃO 26, DA REVISTA VOX OBJETIVA

Com três anos e meio de existência, Orquestra Filarmônica de Minas Gerais se torna referência nacional e mostra que gestão e inovação garantem grandes sinfonias

Lucas Alvarenga

A execução do Concerto para piano e orquestra nº. 2 em Sol maior, do russo Tchaikovsky, faz Diomar Silveira regressar à sua juventude, sobretudo, marcada pela arte. Nas bancas, o então rapaz comprava long plays de música clássica que o aproximaram de obras daquele compositor clássico, como o balé O lago dos cisnes. Natural de João Pinheiro, no noroeste mineiro, o hoje presidente do Instituto Cultural Filarmônica deixa os bastidores para acompanhar de perto cada apresentação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, que em surpreendentes três anos e meio desponta como a segunda maior executora da música sinfônica no Brasil.

“De dois anos para cá, a Filarmônica cresceu até mais que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osespâ€. A análise da chefe do naipe de flautas do conjunto mineiro, Cássia Lima, é pertinente. Afinal, a instrumentista natural de Extrema, no limite entre Minas e terras paulistas, conviveu com músicos da Osesp em seu retorno ao Brasil e não esconde a satisfação de hoje exercer seu ofício em meio a um ambiente saudável e propício ao desabrochar da musicalidade. Dominic Desautels, canadense e chefe do naipe de clarinete, acompanha Cássia. Em sonoro português, aprendido com auxílio de sua esposa e instrumentista da orquestra, Ariana Pedrosa, o clarinetista ressalta: “Tem o Mechetti, um grande maestro. Acessível e com a cabeça no lugarâ€.

Sob a direção artística e regência titular de Fabio Mechetti, a Filarmônica se fez ouvir longe. Filho e neto de maestros, o paulista que trocou o jornalismo pela música clássica recusou inúmeros convites para ser maestro de orquestras brasileiras, até que o então governador de Minas, Aécio Neves, chamou-o para dirigir o novo conjunto sinfônico mineiro. “Só encontrei na Filarmônica um ambiente político favorável para a música erudita no Brasil. Em Minas Gerais há uma tradição secular para a música clássica. Basta lembrarmos o barroco ou o Coral Madrigal Renascentista. A questão é que nos últimos anos houve um decréscimo de investimentos em cultura por aqui, fato que este Governo reconhece e vem resgatandoâ€.

Interesse público

A percepção do Governo de que algo poderia mudar surgiu com a aprovação das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, as Oscips. Por meio delas, o Estado firmaria termos de parceria com organizações e deixaria a cargo delas a missão de levar a cabo um projeto para o Estado. Pensou-se que esta seria a melhor solução para a Sinfônica de Minas Gerais. Tanto que a orquestra se dividiu entre favoráveis ao regime de contratação por CLT e os adeptos ao funcionalismo público. Livres para formar uma nova orquestra, o grupo de 35 músicos em prol da Oscip realizou audições para junto de outros 50 formarem a Filarmônica, do grego, amiga da harmonia. Em fevereiro de 2008, estreava o novo conjunto sinfônico mineiro.

“O espírito da lei é ‘toque isto para mim’. Afinal, o modus operandi do Estado dificulta a execução de determinadas tarefas. Eu acredito na lei que regulamenta as Oscips e o Estado confia para mim a tarefa de aplicar com qualidade os recursos destinados à Fundaçãoâ€. A certeza de Diomar sobre os benefícios deste formato administrativo é o que moveu Mechetti para as Gerais. “O modelo trouxe resultados satisfatórios, eu vejo. Outros estados se sentem influenciados por ele, a exemplo de Sergipeâ€.

Atualmente, o presidente do Instituto Cultural Filarmônica trabalha no fechamento da temporada 2012. A antecedência é regra dentre diretores. Afinal, é preciso ter um planejamento minimamente pensado para que o Estado, parceiro da fundação, aprove o orçamento para a temporada. “A montagem de um concerto envolve vários elementos. São contratos, montagem de palco, iluminação, sonorização, transporte, seguros. Tudo em favor de uma programação de qualidadeâ€, ilustra Diomar Silveira.

Toda essa logística de apresentação da Filarmônica nem sempre é compatível com a infraestrutura das cidades por onde a Orquestra se apresenta. O local tem que ter capacidade para instalar aproximadamente 100 pessoas. “Nós temos que privilegiar as cidades de pequeno a grande porte. Tanto que uma das nossas estratégias foi, por exemplo, ir para Montes Claros e também para Pirapora, Janaúba e Buritizeiro. Nestes municípios menores, nós dividimos a orquestra em grupos de câmara, levando cada naipe para um lugar. A carência é tão grande nesses cantos que gera fascínio. Tivemos público em todas. É bonito ver o interesse deles pela música clássicaâ€, expressa eufórico o presidente do Instituto Cultural Filarmônica.

Harmonia em palco

Assistir a uma salva de aplausos ao término de cada concerto da Filarmônica não é algo restrito às cidades pequenas. No Palácio das Artes, a plateia, que normalmente lota as dependências do Grande Teatro, reflete seu estado de contentamento da melhor forma possível. “É gosto ver a receptividade do público com a Filarmônica. Sempre somos ovacionados com aplausos longos no final dos concertos em Belo Horizonte. O público daqui tem sede por culturaâ€, revela a flautista Cássia Lima. Na mesma linha, o clarinetista Dominic Desautels faz uma confissão. “Sempre achei legal essa vontade que o público mineiro tem de apreciar um concerto. O teatro sempre fica lotado. No Canadá, as maiores orquestras do país enfrentam dificuldades para encher uma casaâ€.

De jovens até casais no auge da maturidade, a Filarmônica se solidifica sem se prender a um público elitizado ou exímio conhecedor de música clássica. Os concertos também têm espaço para os mais leigos, que nem por isso deixam de se encantar com a música sinfônica. Talvez a razão para o encanto esteja na frase do maestro Fabio Mechetti. “Ser membro da Filarmônica é mais que ter um emprego, é fazer parte de uma história e vivê-la com prazerâ€. E movidos por esta convicção, o conjunto evolui constantemente. “Temos a certeza de que não chegamos ao nosso ponto final e nem chegaremos. O som da Filarmônica tem muito que amadurecer e aprofundar no estudo de cada obra. Estamos formando uma identidadeâ€, argumenta Dominic.

Na intenção de continuar a trajetória de transformações sonoras que levaram a orquestra a atingir o posto de segunda maior do país, o maestro e a clarinetista apontam para uma questão primordial: a necessidade de uma sala própria. Um problema resolvido para futuro. No início do mês de agosto, o governador Anastasia anunciou a criação da Estação da Cultura Presidente Itamar Franco, que abrigará uma sala para concertos sinfônicos de 1.400 lugares e a sede da Orquestra. Até que a obra de R$ 140 milhões, prevista para 2014, seja inaugurada, Mechetti não esconde as dificuldades. “Precisamos de um espaço com a mesma acústica e que possamos ensaiar constantemente. Hoje, só temos acesso ao Palácio na véspera e no dia da apresentaçãoâ€.

Ideias em execução

Enquanto o novo lar é imaginado em montagens e maquetes, o Instituto Cultural Filarmônica trabalha para oferecer diversidade a seu público fiel. A começar pelo programa de assinaturas da Orquestra, com 1.200 adeptos. Um conceito novo no país, que garante ingressos para uma série, a exemplo de Vivace, nas terças-feiras, e Allegro, nas quintas-feiras. Ambas apresentam obras pouco conhecidas e inéditas, com presença de convidados de renome internacional no Palácio das Artes.

Entre concertos voltados à juventude e com participação de jovens solistas, clássicos pelos parques da capital mineira, concertos didáticos, turnês estaduais e nacionais, nenhum se destaca tanto com os festivais. Um deles, o Tinta Fresca, procurar identificar novos compositores clássicos brasileiros. Já o Laboratório de Regência busca dar oportunidades a jovens regentes. “O regente sofre com a falta de oportunidades para praticar. Em uma orquestra, você tem violoncelistas, flautistas, mas um só regente. Então, esta é uma oportunidade especial, pois os novos regentes conduzem a Filarmônicaâ€, garante Mechetti, responsável pelo projeto.

Diante de tantas ideias e diversidade, o canadense Dominic, músico de um dos nove países representados pela Orquestra, que também conta com instrumentistas de oito estados, incluindo Minas Gerais, deixa suas expectativas romperam fronteiras como o som da Filarmônica. “Hoje Belo Horizonte não está naquele eixo cultural forte, que é Rio-São Paulo. Mas, uma orquestra pode mudar isso. Afinal, ela traria benefícios e reconhecimento para toda a cidade, quem sabe até para o Estado. Então, que seja a Filarmônica a inserir Minas nesta rota cultural definitivamenteâ€.

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