Conversa Culta de Botequim

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J R Moreira Melo · Belo Horizonte, MG
28/10/2015 · 0 · 0
 

Para Márcia Lima, que aprecia um bom bacalhau ao forno, regado a um carménère de boa procedência.

Dizem os religiosos que no princípio era o verbo, sem a gente saber exatamente do que estão falando . Uma ova, retrucam os ateus, complicando ainda mais as coisas. No princípio o que houve foi uma explosão gigante, o tal big bang estudado, ainda hoje, pelos cientistas, físicos e astrofísicos de todo o mundo.



Algo explodiu, há alguns bilhões de anos (a gente sempre esquece o diabo do número certo, acho que há doze bilhões de anos) e não parou de expandir, na opinião abalizada de Hubble, o cientista norte-americano que descreveu melhor o fenômeno. Os ruídos que ouvimos à nossa volta e a nossa própria voz estão ligados diretamente a esse big bang, que já foi até provado no acelerador de partículas da Suíça.

Algo explodiu e criou a matéria da qual fomos feitos nós todos, seres humanos. Começamos, alguns bilhões de anos depois, como um pequeno símio que andava pelas árvores. Numa certa altura, mudamos o nosso regime alimentar, que era à base de frutas, e passamos a ingerir proteínas retiradas de vermes, ovos de pássaros e pequenos animais. Por algum motivo desconhecido (razões climáticas, muito provavelmente) que Darwin explica, saímos da África, já como homo sapiens, para o resto do mundo e evoluímos rumo à racionalidade.

Corrigimos a nossa postura, andando sobre os pés e libertando as duas mãos para funcionar como ferramentas sofisticadíssimas, e acabamos por desenvolver o nosso cérebro acima do normal. Resultado: viramos um animal pensante, nada mais que isso. Acreditar noutra coisa é acreditar em Papai Noel e no coelhinho da páscoa, diziam até bem pouco tempo atrás os ateus de plantão. O próprio Jean Paul Sartre, que foi o grande mestre do ateísmo, garantia que, com a evolução da ciência, a idéia de Deus virou apenas um mito. Deus acabou, dizia Sartre, pregando o existencialismo em seus romances e peças de teatro, que hoje, não têm mais o prestígio de outrora.

Além disso, ninguém nasce com uma alma, mas trata de ir criando a sua essência, na medida em que cresce. O homem, portanto, só tem a existência. A essência, ele é obrigado a criar por conta própria.

A lei das evidências adotada pela moderna filosofia (aquilo que é evidente, existe) está aí para nos iluminar. Fora dela, caro leitor, não há o que buscar. Você pode até acreditar num monte de divindades porque tem medo da morte e do fiscal do imposto de renda, mas isso não vai mudar absolutamente nada. O fiscal vai te autuar do mesmo jeito e você vai morrer da mesma forma que nós. Além disso, a sua matéria irá para o mesmo lugar, ou seja, para o fundo da terra. A propósito, Benjamin Franklin profetizou que as únicas coisas infalíveis existentes no mundo são certamente a morte e os impostos.

Feitas essas correções em sua crença de provinciano, coisas mais graves devem ser ditas em homenagem à verdade.

A primeira delas é o seguinte: só porque você começou a ter uma visão mais científica do mundo que o cerca, não quer dizer que você vai se transformar necessariamente num ateu. Isto, meu amigo, porque mesmo com a ajuda da ciência, não é possível afirmar que Deus não existe. Ao contrário. Recentemente o mundo científico teve uma grande surpresa, ao comprovar cientificamente a existência do bóson de Higgs.

Para quem não sabe, o bóson é aquela partícula invisível que determina se a substância a ser criada vai ser matéria ou luz. Sabe-se que o universo é criado, ou por matéria ou por luz, mas não se sabia como era feita a opção, no momento da criação de um ou outro.

Higgs, cientista inglês, foi o primeiro a afirmar a existência do bóson, sem conseguir, naquela época prová-la por falta de recursos técnicos.

Acontece que, recentemente, em 2014, o acelerador de partículas suíço comprovou a existência do bóson. Higgs, já velhinho e feliz, foi chamado para comemorar a comprovação de sua teoria. Para ele, o bóson nada mais é que a mão de Deus, uma vez que a ciência comprova a sua existência, mas não consegue explicar por que motivos ele opta entre a luz e a matéria, num jogo extremamente equilibrado.

Higgs, que não é ateu, acredita que alguma inteligência, funcionando por trás do fenômeno, dita as opções através do bóson e não deixa que ocorram grandes desequilíbrios no nosso universo. Somos luz e matéria graças a alguém desconhecido que assim o determina.

Diante de tanta complexidade, o melhor mesmo é você, querido leitor, talvez adotar a firme posição do grande escritor mineiro Murilo Rubião, já falecido, que, diante das inúmeras dúvidas respondia que não acreditava em Deus, mas era devoto de Nossa Senhora Aparecida.

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