Não sei se reconheço essa cidade. É que tudo mudou tão rápido. Acho que eu perdi o tempo dela de vista. Acredito que só existimos naquilo que a memória compartilha. Por isso busquei memórias, memórias de outras pessoas. A fim de fazer existir um tempo, ou simplesmente para reviver esse tempo.
O parágrafo acima é o texto de abertura do vÃdeo "Uma volta na Lama", de Ursula Dart, que começou a circular pela rede há duas semanas. Lançado em julho de 2010, o documentário resgata imagens históricas dos anos 80 e 90, incluindo raros registros do Bar do Socó na Rua da Lama, que ainda hoje é o centro boêmia universitária de Vitória.
Para quem viveu aqueles dias, não há como deixar de entrar em redemoinho de lembranças e se perguntar onde estive, fui ou não aquela festa? Será que fui a todas as festas que deveria ter ido? É certo que não, assim como é certo que fui a uma ou duas que não devia ter ido. O que acontece mesmo é que não sei se reconheço essa cidade, tudo mudou tão rápido.
Além do prazer saudosista e da curiosidade antropológica das imagens históricas, o vÃdeo de Ursula também convida a outras apropriações (e emoções).
Uma delas é a reflexão, tão capixaba, sobre a cidade de Vitória, que a diretora propõe. O texto de abertura, reproduzido aqui no primeiro parágrafo e no qual a narradora constata: "Não sei se reconheço essa cidade. É que tudo mudou tão rápido" é um caminho a percorrer. Essa trilha ecoa as palavras de Renato Pacheco, que certa vez afirmou: "O autêntico capixaba, capixaba que se preza está sempre em busca de um futuro esperançoso. Futuro esperançoso que chegará, um dia, mas que o capixaba reza a todos os santos, que não seja para já ..."
Essa visão saudosista que está presente em toda a extensão do vÃdeo, transforma-se no final, quando voltamos a ver um passeio pela Rua da Lama hoje. Agora, de alguma forma, a Rua da Lama permanece a mesma, ainda que tudo esteja diferente. E reconhecemos, nessa cidade nova, a nossa cidade antiga - talvez até descubramos que, afinal, as coisas mudam para ficar como estão e que somos como nossos pais.
Outra provocação, para ser mordida com prazer, é sobre o próprio processo do documentário. Erguido sobre escassas imagens de arquivo - a maioria com a qualidade bastante prejudicada pelo tempo e pelas limitações do VHS - o documentário me deixou a sensação de que uma torrente de memórias estão impregnadas em cada imagem. E talvez seja mesmo isso, se observarmos (nos créditos) a quantidade de pessoas mencionadas.
Ursula fez a escolha que cabia nesse momento, "busquei memórias, memórias de outras pessoas, a fim de fazer existir um tempo" e usou essa condensação de memórias em poucas imagens (imagens que tornam-se, assim, quase que imediatamente icônicas). O que me leva a questionar se essa escolha estará disponÃvel para quem, daqui a 20 anos for contar a história contemporânea - tempo no qual a memória de cada uma das memórias de cada uma das pessoas está dispersas em milhares de imagens pelas redes sociais - ou se as imagens farão existir a própria memória.
O vÃdeo me deixou também com uma interrogação. Parte das imagens recuperadas parecem ter sido resgatadas do acervo do Departamento de Comunicação Social da Ufes. Se assim é, o que mais terá sobrevivido das milhares de horas de vÃdeo produzidas pelos estudantes na década de 80 e inÃcio de 90?
O vÃdeo está disponÃvel em: http://vimeo.com/20388665
Joca, parabéns pela matéria. Muito bonita, assim como o filme. É engraçado ver memórias de outras pessoas, descrições, lembranças, músicas: se tivesse vivido aquelas coisas a minha percepção seria muito diferente, mas nos tornamos estranhamente familiares ao presenciar as imagens. É um bom documento afetivo.
"Acredito que só existimos naquilo que a memória compartilha." Lindo. Sim. :)
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