Desinteresse por ditadura e imprensa

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Gus Vieira · Fortaleza, CE
11/4/2008 · 108 · 2
 

Alguns já sabiam: naquele dia não haveria aula, os professores liberaram as turmas de jornalismo para assistir ao debate no auditório da faculdade. O motivo do evento era o aniversário de quarenta anos das primeiras manifestações contra a ditadura militar. Era importante que os estudantes discutissem quais as consequências da ditadura militar na prática da atividade jornalística. Porém, muitos estavam ali apenas para ganhar presença ou pra fazer sei lá o quê.

O debate, que era para começar às dezenove horas, só veio iniciar sete e vinte. Nesses vinte minutos, eram muitos os ruídos vindo das pessoas conversando. O atraso incomodava a todos. Tudo bem, tá perdoado. No Brasil tudo sofre atraso. O silêncio só começou depois que o professor Dilson, um dos organizadores, resolve chamar os convidados para a mesa. A dupla Messias Pontes e Augustinho Glósson se apresentava para a platéia. Jornalistas renomados e radialistas experientes, apesar de pouco conhecido daquela molecada, iam ser a atração daquela noite. O silêncio durou pouco. Daí vieram a inquietação, os bocejos, os cochichos, as conversas e o entra e sai na porta.

“Surgimento da imprensa alternativa, que vai dar uma nova realidade... blá, blá, blá...”. “Foi um momento muito importante para o jornalismo brasileiro, blá, blá, blá...”. A menina ajeita os cabelos enquanto o colega ao tira meleca do nariz. “Existe a censura nos jornais até hoje... blá, blá, blá...”. Um fala ao celular enquanto o outro anota no papel a fala de um dos convidados. “...Assis Chateubriand teve muito mais poder em vida que o Roberto Marinho...” Aplausos para o primeiro convidado.

Depois as pessoas correram para sentar nas cadeiras da frente, após ouvirem do convidado: “pessoal vem sentar aqui em frente, pois eu gosto de falar olhando nos olhos”. A câmera registra tudo enquanto disparam alguns flashes fotográficos. “A grande imprensa nunca absorveu João Goulart”, continuava o convidado enquanto as três amigas iam embora. “Quem manda no Brasil hoje é o Banco Central”, bradava o convidado, enquanto dois professores conversam baixinho e uma menina arrumava a bolsa.

“Acordo já pensando a quem vou fazer o mal. O jornalista precisa ser mais ousado”. Risadas, enfim. Abrem-se para as intervenções dos estudantes. A primeira pergunta é sobre as relações entre religião e imprensa. Aplausos para quem perguntou. Depois disso, um manifestante da UNE, que soube do evento, resolve fazer uma pergunta e se perde numa longa intervenção sobre o movimento estudantil. Dessa vez, muitas risadas e palmas irônicas.

Vinte e trinta, hora da debandada. Ficam poucas pessoas no auditório, o bom estudante não pode perder a hora do intervalo por nada. Outro estudante resolve perguntar também e, mais uma vez, se perde, fica falando coisa com coisa durante uns dez minutos e só é interrompido com mais palmas irônicas e muitos risos. Às 21:53, saíram os últimos “sobreviventes” do debate. A ditadura militar foi um dos momentos mais tristes e marcantes da história recente do país. Relembrar e discutir esse período engrandece a formação acadêmica dos estudantes de comunicação pois, durante o regime, os jornalistas sofreram as mais terríveis perseguições dos censores. A falta de interesse de alguns só faz aumentar o estereótipo de que estudante de faculdade particular não se importa com a realidade do país. E uma discussão tão importante se transforme num momento qualquer.

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Ana Neri Andrade
 

É verdade,total desinteresse e até mesmo porque não é mais a primeira página e tampouco daria a matéria que levaria eles a fama.
No páis onde a dengue é notícia de primeira página, onde se morre de fome,e a violência toma conta do país inteiro,não causa espanto o desinteresse!

Ana Neri Andrade · Porto Alegre, RS 12/4/2008 19:11
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thais aragao
 

Oi, Gus.

Neste link você encontra uma entrevista com o professor Felipe Barroso, que está realizando um documentário sobre a repressão no Ceará durante a ditadura militar: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=516783

Um correção: o nome do professor que participou do debate sobre o qual você escreve não é Augustinho Glósson, mas Agostinho Gósson.

Grande abraço!

thais aragao · Porto Alegre, RS 13/4/2008 09:11
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