E se Deus fosse um de nós?

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Glês Nascimento · Palmas, TO
6/3/2006 · 71 · 0
 

Se Deus tivesse um rosto, qual seria? A pergunta cantada em tom de protesto na música One of us (Joan Osborne) é um tapa na cara, mas de luva de pelica, no Oratório A Paixão segundo São Mateus, feito pelo Coral Sinfônico do Tocantins a partir uma das obras mais importantes e complexas do músico Johann Sebastian Bach.

Escrita originalmente em 1729, A Paixão segundo São Mateus é caracterizada como obra colossal, de dramaticidade barroca, mas de devoção íntima. Além da parte do evangelista - imbuída de elementos eruditos - há recitativos adaptados do texto bíblico, e das grandes árias e coros, que são notáveis, sobretudo, os breves e incisivos coros do povo.

Na versão tocantinense, o concerto foi composto por 120 pessoas e teve como personagem principal Jesus Cristo, mas em vez do que se tem no imaginário mundial desde que a figura de Cristo foi difundida, na sessão musical o filho de Deus foi representado por um menino de rua: negro, sozinho e em busca de um lar que o acolha. "Queríamos mostrar que a nossa culpa, como seres humanos, é muito maior do que nós pensamos. O concerto transferiu a inocência de Cristo à criança. Se ela se transforma em delinqüente é porque algum adulto a transformou", defendeu o regente William Fernandes.

Em 1h20 de espetáculo - a obra completa possui seis horas -, a música e o teatro embalaram os espectadores numa viagem atemporal, onde o passado (a era de Cristo) e presente se fundiram e se separaram, em momentos distintos divididos por encenações teatrais, para que a mensagem principal fosse valorizada. Por ser uma obra erudita em vez de religiosa, segundo o produtor cultural do espetáculo, Fábio Garcia, o mote da obra adaptada é passar ao público a sensação de Cristo nos últimos dias que antecederam sua morte.

Quem assistiu ao espetáculo em Palmas, no mês de novembro, se viu diante desse dilema: e se Deus fosse um de nós?

Para o músico Nilson Adriano Siqueira a grande mensagem que ficou foi saber que, da mesma forma inocente que Cristo morreu, há milhares de outras pessoas morrendo todos os dias no Brasil e o fato de não fazermos nada para impedir nos torna culpados por suas mortes. "Como Cristo, outros morrem hoje, inocentemente", disse.

Um dos momentos marcantes, em que o espectador se sente culpado ou parcialmente inerte diante da realidade, se dá quando o silêncio corta o espetáculo e o regente pede 30 segundos sem ruído algum em solidariedade às crianças que estão morrendo naquele instante. O repertório composto pelas músicas Oh fronte ensangüentada - 1ª e 2ª estrofe, Após a Páscoa, Oh! Cristo por que sofre, Onde, Onde, Não, não eu, Ao lado de Jesus, Então prenderam meu Jesus, Teu é o Reino fez arrepiar até o mais duro espectador.

Conquista

Com o objetivo de formar platéia para a música clássica no Estado, o espetáculo foi contemplado pelo Projeto de Patrocínio dos Correios/2005 e circulou no final do ano passado os Estados do Tocantins, Goiás (Goiânia e Anápolis) e o Distrito Federal - onde encerrou a turnê. As apresentações também foram apoiadas pela Fundação Cultural do Tocantins (FCT) e da Organização Jaime Câmara.

Em Brasília, a platéia formada por maestros, professores da Escola de Música de Brasília e alunos aplaudiu de pé os músicos e cantores de Palmas que desde o dia 10 de Novembro vêm apresentando essa obra. Em Anápolis, o coral levou uma multidão a pedir mais, aos brados de "bravo" no palco montado na praça Bom Jesus. Em Goiânia, a emoção tomou conta do público e dos músicos que inseriram Haja paz na Terra, como bis, e deixando assim um manifesto pela paz como um ponto final para essa fase do coral.

Essa informação pode não representar muito aos moradores dos já aclamados pólos de cultura do país como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, entre outros, já que eles podem escolher nos roteiros de cultura o que querem assistir entre os vários concertos eruditos disponíveis na cidade. Mas para quem mora em Palmas, no Tocantins, ter um concerto dessa magnitude exibido em outros centros é motivo de orgulho. "Agora Palmas já pode ser inserida nas capitais culturais do Brasil", afirmou o maestro.

Para este ano, o Coral Sinfônico do Tocantins que estreou em novembro de 2003, pretende trazer novas surpresas do universo clássico musical e já prepara o concerto Villa-Lobos para todos, que deve estrear entre julho e agosto próximos.

Nesse concerto o grupo apresentará um Villa-Lobos atual, universal e ao mesmo tempo glamuroso e intimista. A obra contará com instrumentistas eruditos e percursionistas populares.

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