Atualmente, quando queremos aprender sobre alguma coisa, ou recordar um fato que teima em esconder-se num canto inacessÃvel da memória, ou ainda para saber o que andam dizendo da gente, ou mesmo para avivar a memória de alguma coisa que, sem esconder-se tão bem, também não mostra-se por inteiro em nossa lembrança, corremos a internet e googleamos a coisa. Ou melhor, o nome da coisa.
No entanto, dia desses perdido, sábado chuvoso ou noite calma e preguiçosa, resolvi revirar caixas antigas. Depósitos literais de documentos: fotografias, textos, anotações, coisas que sobreviveram à s inúmeras mudanças de casa nos últimos 20 anos; e também valises intangÃveis nos cantões da memória. Revira coisa aqui, coisa ali, encontro fragmentos de uma história.
Ano: 1988. Ocasião: Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação. Local: Vitória, ES.
Do encontro, suas discussões polÃticas, os embates entre os que defendiam isso e aquilo, as correntes partidárias apaixonadas daqueles fins de ditadura, não me perguntem. Dessas coisas não lembro nada. Das festas, paqueras, noitadas, cenas impublicáveis em jornais (ou no youtube), também não. Do pouco que participei, quase nada ficou na memória e nada restou nas caixas.
Daqueles dias, lembro somente da oficina de vÃdeo. Mesmo porque foi envolvido com as coisas da oficina que passeis os dias do encontro.
As primeiras notas da história vêm das memórias, lembranças incendiadas sabem-se lá por quais freudianas razões. Mas são tão intangÃveis que de forte há apenas uma sensação eufórica de estar produzindo vÃdeo. Do trabalho insano com os roteiros, a excitação das filmagens e a delicada tarefa de editar o material, em VHS, de vÃdeo para vÃdeo. Resolvo buscar nas caixas e pasta que carrego comigo para onde vou porque tenho a ilusão de que fazem parte de mim, porque são os testemunhos das coisas que vivi.
Olho as fotografias, não encontro nada. Reviro as prateleiras e gavetas. Nada. Resolvo então fuçar um monte de pastas empoeiradas. No meio delas acho um tesouro: os roteiros.
Virando as páginas consigo rever os vÃdeos produzidos. Um em que um fotógrafo voyeur encontra duas moças numa relação homossexual. Ah, como foi difÃcil fazer a cena do beijo – que afinal não houve: a solução foi enquadrar de um ângulo do qual um beijo dado próximo a boca parece o que não era – mas devia ser no filme.
Outro, que lembro ser muito melhor, contava a história de um rapaz em um encontro de estudantes que fica preso no banheiro – e por ali passam os personagens do encontro: o maconheiro (fumetinha), o casal, o militante. Deste lembro, com carinho da cena de abertura, que ficou ótima: um longo plano seqüência que começa numa panorâmica pelo alojamento dos estudantes até encontrar o personagem que sai para o banheiro. Um grupo tocava violão e forneceu a trilha sonora perfeita. E também dos créditos, criativamente feitos no papel higiênico.
A oficina, que talvez tenha sido a primeira de vÃdeo em um Enecom, teve duas turmas. Dois dias cada uma. No primeiro dia criava-se o roteiro – da idéia o roteiro final decupado e o plano de produção. No segundo dia, gravar as histórias e editar. Começa de manhã e ia até a madrugada – por isso não lembro de mais nada. Ministramos a oficina eu e José Roberto Santana, com a participação especialista de José Soares de Magalhães (Juninho), que era o câmera da turma.
Reminiscências acessas, acabo na frente do computador. Google, Alta vista, Bing, You tube. Nada de relevante. Algumas coisas sobre uma disputa polÃtica sobre o estágio de jornalismo – aquele Enecom foi, segundo leio, um divisor de águas, marcou um racha no movimento estudantil. Eu não lembro de nada disso. Mas, do Enecom 88, da oficina de vÃdeo, nada. Nem uma foto, nem uma postagem no you tube.
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