Entrevista com Sérgio Ricardo

Divulgação
Arte do filme "A noite do Espantalho"
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Guiwhi · Rio de Janeiro, RJ
14/4/2009 · 91 · 1
 

Homenageado na Mostra do Filme Livre 2009, Sérgio Ricardo concedeu esta entrevista inclusiva, originalmente publicada no catálogo e no site do evento.

MFL - Sérgio, um dos motivos que nós lhe escolhemos foi o seu ecletismo artístico. O que você acha de estar participando de um evento que dá um enfoque maior na liberdade de criação no audiovisual, que completa agora o seu 8º ano?

Sérgio Ricardo – Fico surpreso e feliz quando meu trabalho fora da música é reconhecido e prestigiado. Surpreso como quem planta pelo prazer de plantar e sem esperar vê que frutificou. Feliz, principalmente, pelo caráter deste evento, mergulhado na liberdade de criação da arte mais rica e diversificada como o cinema.

MFL- Falando em audiovisual, como foi sua guinada para o cinema? Era algo que você sempre queria ter feito ou que apareceu numa determinada ocasião?

SR – Estrelei, como ator, em algumas novelas e teleteatros na TV
Rio, Tupi de São Paulo e Rio, quando eram líderes de audiência nos anos 50 e início de 60, adquirindo experiência com a arte visual, tendo também dirigido vários programas musicais e até documentais. Sonhava em dirigir cinema e fui tendo aulas práticas com Carla Civelli, Rui Guerra e outros, até me arriscar na primeira aventura.

MFL - Em seu primeiro curta, O Menino da Calça Branca, você aborda de forma poética o imaginário de um menino da favela que simboliza em sua nova roupa uma possibilidade, não concretizada, de fazer parte de uma outra classe social, acabando por se tornar um bandido em potencial. Qual a visão que você tem hoje desse menino da favela?

SR – Não mudaria grande coisa. Hoje talvez tivesse que terminar o filme com o garoto armado de verdade com uma AR15, disparando na cidade do alto do morro, em vez de portar um revolvinho de espoleta.

MFL - Esse Mundo é Meu tem uma preocupação parecida com o Menino da Calça Branca: a possibilidade da ascensão social e realização de uma classe social menos favorecida em busca de uma espécie de síntese entre a felicidade burguesa e a felicidade da classe operária e do morador da favela. Você concorda? Quais eram suas maiores preocupações na época, que o levaram a fazer estes filmes?

SR - Não há no objetivo do filme, na verdade, nenhuma busca dos personagens de ascensão social e sim uma denúncia da discrepância desumana existente na diferença entre as classes, motivando, em um, a revolta de perder seu amor por falta de recursos mínimos para oferecer uma assistência médica que pudesse evitar a morte, e em outro, sem conseguir com o esforço de seu trabalho, os recursos para adquirir o objeto de seu sonho para a conquista de seu amor, se apoderar do objeto surrupiando-o do primeiro que encontra. No primeiro caso se justifica a luta pela reivindicação por aumento de salário, no segundo caso se justifica a conquista pelas próprias mãos de um objeto para evitar a morte do amor.

MFL - Existem algumas referências às crenças religiosas em Esse Mundo é Meu: o filme abre com uma música que se refere a Oxalá, o casal de protagonistas participa de um culto a Iemanjá e no final um padre católico tem sua bicicleta roubada pelo personagem de Antônio Pitanga, alegando que assim sua alma está sendo salva... para você, qual é a relação entre a religiosidade dos personagens e suas realizações pessoais?

SR – A religiosidade em ambos os casos não tem influência dramática na ação dos personagens. Estão como pano de fundo de sua própria cultura, revelando o grau de respeitabilidade de seus caráteres, conduzindo suas vidas pela trilha da integração com sua comunidade, o que reforça a confiabilidade em suas decisões.

MFL - Em Juliana do Amor Perdido, temos a dialética do misticismo trágico e fatalista, como diria Glauber Rocha, em confronto com a possibilidade de um amor "moderno", como uma metáfora de libertação a uma forma de alienação ou repressão religiosa. A personagem-título, filha de um Pai de Santo charlatão, é usada em ritual como espécie de oferenda a Iemanjá, a fim de ajudar aquela comunidade de pescadores, mas ela sonha com a possibilidade da fuga para a cidade, metaforizada no romance com o maquinista do trem que passa próximo daquele local. Esse conflito me lembrou o personagem Aruan, do filme de estréia de Glauber, Barravento. Existe uma relação entre os filmes Juliana e Barravento?

SR – Nunca pensei sobre isso. Provavelmente sim. Glauber e Caymmi me influenciaram muito. Coincidentemente, na trilha sonora deste filme nota-se a pincelada de Caymmi num dos temas. Quanto ao Aruan, teria que rever o filme para opinar. Sua pergunta é muito bem elaborada. Só discordo da conclusão sobre Juliana. Seu objetivo não era a cidade. Era sair daquele inferno “santificado”. Era fugir da mentira.

MFL - Comente sua parceria com o fotógrafo (e irmão) Dib Lutfi.

SR - Quando eu o trouxe para o cinema, ele era o irmão do Sérgio Ricardo. Não demorou muito e eu passei a ser apresentado como o irmão do Dib Lutfi. Consagrou-se com o Cinema Novo, varou fronteiras, fez filmes na Alemanha, recebeu propostas de vários países, mas preferiu ficar pelo Brasil, porque só fala português e não tem paciência para aprender outro idioma. Além do que sempre preferiu o nosso cinema e seu verdadeiro universo é o set de filmagem, convivendo com os profissionais com grande senso de equipe. Em meus filmes, além de sua competência indiscutível com sua mágica habilidade na execução de seu instrumento de trabalho, é quem mantém o equilíbrio e o bom humor. Brincalhão, irreverente, estabelece um clima saudável ao trabalho geral. É o mesmo em casa, no social, em qualquer lugar. Figura!

MFL - Pelo que dá para perceber, sua criação no cinema se mistura muito com sua face de compositor, pois seus filmes são bastante musicais. Você cria a história e a trilha quase simultaneamente?

SR – Cada filme tem sua forma musical. Quando acabo de fazer um roteiro penso imediatamente na música que deverá ser cantada, ou dançada etc, antes de filmar. Outros nascem depois do filme editado. No caso de “A noite do espantalho”, a música nasceu primeiro, num cordel que escrevi durante um bom tempo. Fiz o roteiro adaptando o cordel. Antes de filmar gravei no próprio campo de filmagem com pequeno grupo todos os temas cantados depois de ensaiar as cenas para extrair a verdadeira velocidade de cada ritmo.

MFL - Evidentemente, esta relação é maior com “A noite do espantalho”, quase uma “ópera-rock”. Este filme também mostra uma guinada estilísitica, um pouco esboçada em “Juliana...”, de um realismo fantástico. Este tom vai muito de acordo com alguns contemporâneos, como “Quem é Beta” (de Nelson Pereira dos Santos), “Pindorama” (de Arnaldo Jabor), “Plata Palomares”, entre outros. O que houve? Havia uma sintonia artística numa estética algo tropicalista-psciodélica ou era a necessidade de se fazer alegorias por causa da ditadura?

SR – No meu caso, como se tratava de um cordel filmado, tentei me entranhar no seu mundo mágico desfigurando o realismo ao jeito de um repentista criando personagens, objetos e cenários fantásticos para atingir o imaginário popular. Durante as filmagens, era comum atores e gente de classe média ou alta presentes às filmagens ficarem atônitas sem entender a cena, enquanto os moradores do local que faziam a figuração não terem a menor dificuldade para entender e ainda interagiam identificados com os personagens. Este fato me deu a certeza de estar alcançando meu objetivo.

MFL - Falando neste assunto não-agradável, como era a relação do seu cinema com a censura, principalmente com esse filme?

SR – A censura de pronto queria proibi-lo, inteiramente (“A noite do espantalho). Fizeram-se dez sessões para reavaliação e sempre o mesmo veredicto. Até que assistido por Claude Antoine, foi convidado para representar o Brasil na quinzena do Realizador em Cannes. Evitando o escândalo internacional, o filme foi liberado com um único corte: tirar o nome de Fidel Castro do letreiro de figuração no final do filme. Raspei os fotogramas a gilete e o efeito foi inverso. O fotograma riscado brilhava tanto que chamava a atenção para o nome abaixo da luz, ainda legível.

MFL - “A Noite do Espantalho” é, com certeza, o seu melhor filme. Mas você nunca mais realizou outro longa. O que aconteceu?

SR – Meu roteiro “Estória de João-Joana” havia sido escolhido para receber o financiamento da Embrafilme, exatamente no ano em que o Collor fechou a instituição. Dali pra cá os financiamentos tomaram outro caminho. Desgostoso, achei que nosso cinema havia acabado. Vieram aqueles anos em que raros filmes eram feitos e eu parti para a pintura e outras ocupações musicais. O cinema reapareceu com outra turma, outra linguagem, outra tecnologia e só agora me animo a conversar sobre o assunto. Tenho mais um roteiro pronto sobre o Vidigal que pretendo filmar assim que puder estruturar uma produção.

MFL - Como foi a realização do curta "Zelão", animação em que você fez praticamente tudo?

SR – Foi um longo debruçar sobre uma tarefa árdua durante três meses para extrair quarto minutos de um trabalho que me deu muita alegria. Realizei com as próprias mãos um filme, desenhando um por um dos personagens, dos cenários e os coloquei em movimento, editando num programa “Director”. Uma verdadeira curtição. Nele, tudo que se apresenta na imagem, interpretação, velocidade de movimentos, de esperas, planos, contraplanos, travellings, o diabo, claro que sem o acabamento tecnológico de última geração. Um experimento. Mas a galera gosta.

A Mostra do Filme Livre 2009 está em cartaz até o dia 26 de abril no
Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro
Rua Primeiro de Março, 66, Centro

Mais infos em www.mostradofilmelivre.com

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Andre Luiz Mazzaropi
 

Parabens e sucesso!

Andre Luiz Mazzaropi
O Filho do Jeca

www.andreluizmazzaropi.com.br

Andre Luiz Mazzaropi · Taubaté, SP 14/4/2009 10:52
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